Os argentinos não sabem perder e apelam para o racismo quando o assunto é futebol, ainda que tenham jogadores mestiços e racistas.

Ao longo de quase 30 anos, estive na Argentina algumas vezes, sempre em Buenos Aires e uma vez no sul da Patagônia, longe de Bariloche. A primeira foi no fim do governo Carlos Menem (1989-1999).

O país torcia o pano para extrair o último caldo da política monetária insustentável da conversibilidade paritária do peso em relação ao dólar americano. Para os brasileiros, pagar 5 dólares por um café era algo do inacreditável futebol clube.

Para os argentinos, na ocasião, a composição explosiva de recessão com deflação anunciava que o sonho da volta da Argentina gloriosa do pós-Primeira Guerra Mundial havia acabado.

Buenos Aires em dia ensolarado de inverno Foto Marcio Fernandes 2003
Buenos Aires em dia ensolarado de inverno | Foto: Marcio Fernandes/2003

Por conta da Lei de Conversibilidade de 1991, acreditaram na magia monetária do ministro da Economia, Domingos Cavallo. Eles foram enganados de que teriam, em dólar, o depósito bancário efetuado em peso, mas tudo deu errado, pois era fumaça cambial.

A Era Menem foi a última quimera da grandeza argentina no século 20. Havia inúmeras lojas de marcas internacionais em Buenos Aires para que os frequentadores da Avenida Alvear fossem às compras. Eles andavam de paletó Príncipe de Gales adquirido na Harrods.

Nunca vou desistir da Argentina e não está fora dos planos morar em Palermo Hollywood. Entre os 2 candidatos que podem governar o Brasil, de acordo com as pesquisas, voto no Javier Milei

Os argentinos se imaginavam tão bem que recuperaram a empáfia perdida nas décadas anteriores de hiperinflação. Para se ter uma ideia, em 1989, a inflação no país foi de 3.079,4%.

Argentinos… e ponto

No auge da Era Menem, mesmo o Brasil tendo êxito na política monetária semelhante e um presidente do nível de Fernando Henrique Cardoso — intelectual de projeção internacional qualificada —, o estereótipo do brasileiro era o de “macaquito” e ponto.

Era uma manifestação de racismo cultural, algo inaceitável, mas à época tolerado. O politicamente correto argentino do final do século 20 aceitava o preconceito de que o brasileiro era um ser inferior por conta da miscigenação do europeu com o africano — ainda que o Brasil fosse mais rico e com maior projeção geopolítica regional.

Marcio Fernandes Um país construído de livros não merece idiotas racistas Foto Marcio Fernandes 2024
Um país construído de livros não merece idiotas racistas | Foto: Marcio Fernandes/2024

Isso acabou e as mímicas de macacos embriagados nos estádios da Copa do Mundo são coisa de argentino dotado do espírito de porco e não correspondem ao povo que o brasileiro comum chama de “los hermanos”. Como não participo de irmandades, para mim eles são argentinos e ponto.

Quando a casa caiu, em 2001, e a Argentina quebrou, o panorama em relação à imagem do Brasil alterou completamente. Nos anos seguintes aconteceu o inacreditável: os argentinos amavam o Lula em razão do sucesso aparente do governo petista. Lula se tornou o populista dos sonhos do argentino de todas as classes sociais.

Também pudera. No ensolarado 20 de dezembro de 2001, o presidente Fernando de la Rúa abandona o cargo e deixa a Casa Rosada de helicóptero.

A crise política foi tão grave que a Argentina teve quatro presidentes em 11 dias. Por acaso, eu estava lá, no calor da cidade no verão, meio perplexo, meio pensando na rota de fuga e cheio de imaginação conspiratória.

Versão piorada do peronismo, o casal Nestor e Cristina Kirchner fez a Argentina descer as escadas da nobreza e conhecer, em casa, o que era a pobreza das favelas brasileiras

Já que não havia presidente da República, viria uma revolução? Os militares dariam um golpe? O espaço aéreo argentino estaria fechado? O Comando Militar do Sul e as bases aéreas de Canoas (RS) e Anápolis (GO) estariam de prontidão?

Haveria um comboio humanitário para resgatar, por via terrestre, até o Rio Grande do Sul, a brasileirada cheia de sacolas e ímãs de geladeira do Carlos Gardel?

Eu já tinha um plano de pegar outro caminho e me tornar refugiado no Uruguai, sonho de todo revolucionário de esquerda dos anos 1960 e 1970.

Marcio Fernandes Patagonia
Na Patagônia não há macacos de Copa do Mundo | Foto: Marcio Fernandes/2024

Não aconteceu rigorosamente nada. Como ninguém queria o cargo de presidente da Argentina, quatro eminências dividiram o poder por poucos dias e o último cumpriu mandato-tampão até 2003. Por um instante, houve uma nação com território e soberania, mas faltava governo.

Kirchnerismo: 12 anos no poder

Não existe cadeira desocupada em palácio. O kirchnerismo viu a oportunidade do vácuo de poder e governou a Argentina por 12 anos, a partir de eleições legítimas.

Versão piorada do peronismo, o casal Nestor e Cristina Kirchner fez a Argentina descer as escadas da nobreza e conhecer, em casa, o que era a pobreza das favelas brasileiras.

Inclusive com altíssimos indicadores de criminalidade, especialmente nos bolsões de miséria da grande Buenos Aires. Eles até hoje estão lá, compostos por descendentes de espanhóis, italianos e indígenas, entre outras raças.

A gente ia a Buenos Aires por conta do inverno, fazendo força para que a cidade ficasse muito fria para usar os casacos próprios da Europa. Várias vezes aconteceu, inclusive uma rara nevasca, mas teve inverno de casaco no braço e camiseta com o sol das avenidas largas sapecando a pele.

O objetivo da viagem era ter o rosto trincado pelos ventos polares para justificar o vinho e a comida maravilhosos com os caros amigos, sob a governança do dólar cotado abaixo de 2 reais.

Nas três décadas de viagem pela Argentina, nunca vi uma manifestação de um brasileiro ser discriminado em qualquer ambiente. Comigo foram só amizade, carinho, dedicação e mais ou menos 9 dólares por uma torta de chocolate.

Racismo e futebol na Argentina

Estou falando da imigração, de um parque, do planetário, de um antiquário, de um teatro, de um restaurante ou de uma banca de falso artesanato ameríndio. Mas houve uma situação extremamente temerária na boca da noite em 25 de julho de 2004.

Era a decisão da Copa América entre Brasil e Argentina e eu estava lá, sem saber muito do campeonato, e mais ligado a um espetáculo de flamenco agendado para aquela noite de domingo em Palermo. Seria a última noite de frio em Buenos Aires.

Só que o Brasil empatou o jogo aos 48 minutos do segundo tempo e ganhou nos pênaltis. A gente estava batendo pernas pela cidade e foi ver os últimos momentos da partida no hotel. Consumada a vitória do Brasil, o narrador da TV mandou uma “está encerrada a transmissão” e nem chamou o comercial dos patrocinadores.

Marcio Fernandes grafite em Palermo
Painel em Palermo Hollywood diz tudo: mais amor, por favor | Foto: Marcio Fernandes/2024

Mais ou menos como a seleção argentina fez ao dar as costas para a premiação da Espanha no último domingo diante do presidente dos Estados Unidos daAmérica. Por conta do resultado, a noite de Buenos Aires adquiriu o negro luto de uma derrota inglória imposta por Adriano, o Imperador.

Não havia uma vivalma nas ruas e o espetáculo de flamenco foi cancelado pelo elenco de falsos ciganos. Os argentinos não sabem perder e apelam para o racismo quando o assunto é futebol, ainda que tenham jogadores mestiços e racistas.

Mesmo assim, nunca vou desistir da Argentina e não está fora dos planos morar em Palermo Hollywood, o melhor bairro de Buenos Aires. Entre os dois candidatos que podem governar o Brasil, de acordo com as pesquisas, eu voto no Javier Milei.

Marcio Fernandes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.