Curso da UFG reúne indígenas de mais de 30 povos e se torna referência nacional na educação intercultural
01 agosto 2026 às 21h00

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Durante séculos, o acesso dos povos indígenas à educação formal esteve marcado por desafios, distâncias e modelos de ensino que muitas vezes ignoravam suas culturas, línguas e formas próprias de produzir conhecimento. Em Goiás, uma experiência construída a partir da escuta das próprias comunidades indígenas busca mudar essa realidade: há quase duas décadas, a Universidade Federal de Goiás (UFG) mantém a Licenciatura em Educação Intercultural, uma graduação criada para formar professores indígenas dentro de uma perspectiva que valoriza os saberes tradicionais e fortalece a autonomia dos povos originários.
Criado em 2007, após um longo processo de diálogo entre lideranças indígenas e a universidade, o curso nasceu de uma reivindicação dos próprios caciques e professores que buscavam uma formação superior capaz de respeitar as especificidades de cada povo. Mais do que preparar profissionais para atuar nas escolas das aldeias, a proposta da UFG se consolidou como um espaço de valorização das línguas, das memórias, das culturas e das diferentes formas de compreender o mundo.
O Jornal Opção ouviu coordenadores do curso e estudantes indígenas de diferentes regiões do país para conhecer as histórias de quem atravessa longas distâncias até Goiânia em busca de conhecimento. São trajetórias vindas do Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Tocantins e outros territórios, reunindo povos com línguas, tradições e modos de vida distintos, mas com um objetivo comum: levar de volta às comunidades o aprendizado construído dentro da universidade.
Para os estudantes indígenas, o diploma conquistado na UFG ultrapassa a dimensão individual. A formação representa uma conquista coletiva, que envolve famílias, lideranças e comunidades inteiras. Cada conhecimento adquirido nos bancos da universidade retorna para as aldeias em forma de novas práticas pedagógicas, pesquisas, fortalecimento das línguas originárias e defesa dos direitos dos povos indígenas.
Segundo os coordenadores do Instituto de Formação Superior Indígena Takinahakỹ, a principal característica da graduação está justamente nessa troca permanente: a universidade ensina, mas também aprende com os conhecimentos ancestrais trazidos pelos estudantes. O resultado é uma formação construída entre dois mundos, capaz de unir ciência acadêmica e saberes tradicionais sem apagar a identidade de cada povo.

Curso nasceu de demanda das lideranças indígenas
Há quase duas décadas, a Universidade Federal de Goiás (UFG) mantém o curso de Educação Intercultural, voltado exclusivamente para a formação de professores indígenas. A iniciativa surgiu em 2007, após dois anos de diálogo entre lideranças indígenas e a universidade para construir uma graduação que respeitasse as culturas, as línguas e as realidades dos povos originários.
Segundo a chefe da Unidade Acadêmica Especial do Instituto de Formação Superior Indígena Takinahakỹ, Mônica Veloso Borges, o curso foi idealizado a partir da reivindicação de caciques e professores indígenas. “Eles queriam um curso superior que tivesse a cara indígena, que contemplasse suas línguas, seus conhecimentos e suas formas de viver. Foi um projeto construído junto com os povos indígenas e que nunca deixou de ser ofertado desde 2007”, afirma.
Metodologia intercultural
Atualmente, a graduação reúne mais de 300 estudantes de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Maranhão e Minas Gerais. O curso tem duração de cinco anos, com atividades divididas entre períodos presenciais na UFG, em Goiânia, e etapas realizadas nas aldeias. Nos dois primeiros anos, todos cursam uma formação básica e, posteriormente, escolhem uma das áreas de aprofundamento: Ciências da Linguagem, Ciências da Cultura ou Ciências da Natureza e Matemática.
De acordo com Mônica Veloso, a proposta pedagógica busca integrar os conhecimentos acadêmicos aos saberes tradicionais.
É um curso que vai até as aldeias, escuta os estudantes e valoriza suas culturas, línguas e cosmologias. Nós aprendemos com eles todos os dias, da mesma forma que eles aprendem conosco, destaca.

Valorização das línguas e das comunidades
A maioria dos estudantes já atua como professor nas escolas indígenas e busca a graduação para fortalecer o trabalho desenvolvido em suas comunidades. Para a professora, o compromisso coletivo é uma das principais diferenças em relação aos demais cursos superiores.
Eles sempre dizem que vão levar tudo o que aprendem para a aldeia. O diploma não pertence apenas ao estudante, mas à comunidade inteira. É uma conquista coletiva, ressalta.
Ela também destaca que muitos alunos redescobrem a importância de preservar suas próprias línguas durante a formação. “Muitos dizem que vieram aprender sua língua e sua cultura na UFG. O curso desperta esse olhar para a valorização das línguas indígenas e para os riscos que elas enfrentam diante do avanço do português”, explica.
Desafios financeiros e expansão
Apesar do sucesso da iniciativa, a permanência dos estudantes ainda enfrenta dificuldades. Os alunos recebem a Bolsa Permanência, do Ministério da Educação (MEC), mas o benefício nem sempre cobre despesas como transporte, hospedagem e alimentação durante os períodos em Goiânia. Mônica Veloso lembra que antigos convênios com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e secretarias estaduais ajudavam nesses custos, mas foram encerrados ao longo dos anos.
Mesmo com limitações de infraestrutura e de pessoal, a UFG pretende ampliar a formação. A universidade mantém oferta anual de 40 vagas, que são disputadas entre 600 e 700 candidatos, e trabalha na criação de um mestrado específico para professores indígenas. “Queremos ampliar o acesso, mas precisamos de mais professores, recursos e espaço físico. Ainda assim, seguimos avançando para fortalecer uma formação que respeita e valoriza os povos indígenas.”
Vestibular específico
O ingresso na graduação ocorre por meio de um vestibular exclusivo para indígenas, realizado anualmente pela UFG. O processo seletivo inclui redação, análise de currículo e entrevista. “É um vestibular específico, pensado para atender às características dos povos indígenas e selecionar estudantes que vão atuar diretamente em suas comunidades”, explica Mônica Veloso.
Perspectivas para o futuro
Além da ampliação da graduação, a universidade investe na criação de um espaço intercultural próximo à Reitoria, que deverá oferecer alojamento aos estudantes durante os módulos presenciais em Goiânia, reduzindo os elevados gastos com hospedagem. Paralelamente, a UFG prepara uma proposta de mestrado específico para professores indígenas, dando continuidade à formação acadêmica desses profissionais.
A ideia é fortalecer cada vez mais essa política de formação, oferecendo condições para que os estudantes permaneçam na universidade e retornem às suas comunidades ainda mais preparados, afirma a professora.
Curso reúne mais de 30 povos e é referência nacional na formação de professores indígenas
A Licenciatura em Educação Intercultural da Universidade Federal de Goiás (UFG) tem contribuído para ampliar o acesso de indígenas ao ensino superior e fortalecer a preservação das culturas tradicionais.
Segundo o subchefe do Instituto, Carlos Bianchi, o curso surgiu a partir da demanda das próprias comunidades, que contavam com poucos professores com formação universitária. “O curso da UFG dá a eles a oportunidade de terem essa formação em nível superior e de discutirem conteúdo dentro da perspectiva dos povos indígenas e de seus conhecimentos”, afirma.
Atualmente, a graduação reúne representantes de 33 a 34 povos indígenas, com diferentes línguas, culturas e formas de organização social. De acordo com Carlos Bianchi, o curso valoriza essa diversidade e evita tratar os povos indígenas como um grupo homogêneo.
Apesar de serem todos indígenas, existem muitos povos com diferenças de pensamento, de ideias, de línguas e de conhecimentos. O curso intercultural promove esse diálogo e essa troca de saberes, destaca.

Fortalecimento das comunidades
Além da formação acadêmica, o professor ressalta que a graduação fortalece a identidade cultural dos estudantes. As pesquisas de estágio e os Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) são desenvolvidos diretamente nas aldeias, em parceria com anciãos e detentores dos saberes tradicionais.
“Muitos estudantes dizem que aprenderam ainda mais sobre a própria cultura, a própria língua e os próprios conhecimentos depois que ingressaram na universidade. Esse conhecimento retorna para as comunidades e contribui para fortalecer a cultura entre as novas gerações”, explica.
Referência nacional
Mantido com recursos do Ministério da Educação (MEC), o curso já contou com financiamento específico do Programa de Licenciaturas Indígenas (Prolind) e, atualmente, busca ampliar parcerias com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e secretarias de Educação para apoiar as atividades desenvolvidas nas aldeias.
Segundo Carlos Bianchi, cerca de 35 universidades brasileiras oferecem licenciaturas interculturais, mas a UFG se tornou uma referência nacional pela nota máxima no MEC e pelo modelo pedagógico que alterna atividades no campus e nas comunidades indígenas. “A localização da UFG, no Centro-Oeste, e a qualidade do curso fazem com que estudantes de diversos estados escolham Goiânia para realizar a formação.”
Da primeira turma ao corpo docente da UFG
Integrante da primeira turma do curso de Educação Intercultural da Universidade Federal de Goiás (UFG), em 2007, o professor Gilson Ipaxiawyga Tapirapé, do povo Tapirapé, de Confresa (MT), faz parte atualmente do quadro docente da instituição e considera que a formação transformou sua trajetória pessoal e profissional.
A proposta pedagógica baseada na interculturalidade, na transdisciplinaridade, na diversidade e na sustentabilidade prepara professores indígenas para atuar nas escolas de suas comunidades respeitando seus próprios modos de produzir e transmitir conhecimento.
Metodologia valoriza saberes tradicionais
Para Gilson Ipaxiawyga, o diferencial do curso está na organização do ensino por temas contextualizados e na realização de projetos extraescolares desenvolvidos junto às comunidades, envolvendo lideranças, anciãos, pais e estudantes.
“É um curso que forma professores capazes de sustentar a sua forma de organizar o conhecimento. O projeto envolve toda a comunidade e fortalece as epistemologias indígenas”, afirma. Ele destaca que essa metodologia rompe com o modelo tradicional de ensino baseado na divisão por disciplinas e aproxima a escola das práticas culturais dos povos indígenas.

Transformação pessoal e profissional
O professor conta que, antes da graduação, valorizava, principalmente, os conteúdos presentes nos livros didáticos e percebia pouco a importância dos conhecimentos tradicionais.
“Percebi que, mesmo sendo professor, eu acabava colonizando crianças e jovens ao trabalhar apenas conhecimentos de fora. Hoje defendo uma educação que fortaleça a cultura local e articule esse conhecimento com o mundo não indígena”, diz. Segundo ele, a experiência também reforçou sua participação nos rituais e nas práticas culturais do povo Tapirapé.
Referência para novas gerações
Ao retornar à UFG como professor, Gilson afirma que enfrentou desafios ao ensinar estudantes indígenas mais velhos e pertencentes a diferentes povos e línguas. Com o tempo, porém, encontrou na própria vivência indígena um diferencial para aproximar os conteúdos da realidade dos alunos.
“Os estudantes dizem que sou um espelho para eles. O português falado por um professor indígena facilita a compreensão porque está mais próximo da realidade deles”, relata.
Educação voltada ao fortalecimento das comunidades
De acordo com Gilson, a maior contribuição da UFG é formar profissionais comprometidos não apenas com a docência, mas também com a liderança comunitária e a preservação das línguas e culturas indígenas.
“O professor sai daqui preparado para construir uma escola junto com sua comunidade, defendendo sua língua, sua cultura e uma proposta pedagógica que fortaleça o seu povo.”
Conhecimento para a comunidade
Morador da Aldeia Khikati, do território Wawi – no município de Querência (MT), Wetajtxi Suya, do povo Suya, conta que decidiu ingressar no curso de Educação Intercultural da UFG para ampliar seus conhecimentos e contribuir com sua comunidade.
Professor desde 201, e atualmente coordenador pedagógico, ele explica que descobriu a graduação pela internet, após concluir o magistério. “Quando conheci a proposta da interculturalidade, percebi que era o caminho para aprofundar meus conhecimentos sobre a minha cultura e compreender melhor a cultura de outros povos. Encontrei aqui exatamente o que buscava”, afirma.

Formação para fortalecer a cultura
Na aldeia, onde vivem cerca de 630 pessoas distribuídas em diferentes comunidades, Wetajtxi atua principalmente com a língua e a cultura do povo Suya no ensino fundamental, conciliando esses conteúdos com disciplinas como Língua Portuguesa e Matemática.
Segundo ele, os jovens demonstram cada vez mais interesse pelos estudos e pelas novas tecnologias, enquanto os mais velhos continuam sendo fundamentais na transmissão da história, dos valores e dos conhecimentos tradicionais. “Os anciãos têm um conhecimento que nenhum livro ensina. Eles mostram como viver em comunidade, respeitar a família e preservar nossa história”, destaca.
Tecnologia a serviço da preservação
Para Wetajtxi, a internet também passou a desempenhar um papel importante nas aldeias, especialmente nas áreas de educação, saúde e nas associações indígenas. Segundo ele, os computadores são utilizados para registrar documentos e preservar informações importantes sobre o povo.
“Hoje conseguimos registrar nossa história e nossos documentos para que as futuras gerações possam conhecer e para que isso não se perca com o tempo”, explica.
Conhecimento que retorna à aldeia
Cursando a graduação em Ciências da Linguagem, Wetajtxi afirma que pretende levar para sua comunidade tudo o que aprende durante os módulos de férias da UFG, especialmente os conteúdos sobre interculturalidade e decolonialidade.
Para ele, o principal objetivo é compartilhar esse conhecimento com estudantes e professores da aldeia, fortalecendo a educação indígena. “A UFG é importante porque me ajuda a compreender melhor a língua portuguesa, conhecer outras culturas e, principalmente, levar esse aprendizado para melhorar a educação e contribuir com o desenvolvimento da minha comunidade.”
Estudante do Xingu conclui licenciatura intercultural e mira o mestrado
Iauapuru Trumai Aweti, do povo Trumai, do Território Indígena Capoto Jarina, no Alto Xingu (MT), está na fase final da Licenciatura em Educação Intercultural UFG. Morador da aldeia Wani Wani, no município de Peixoto de Azevedo (MT), ele escolheu a área de Ciências da Natureza e Matemática e deve concluir a graduação em janeiro de 2027, após defender o trabalho final em sua comunidade.
“Estou praticamente finalizando o curso. Vim para todos os módulos de janeiro e julho e não perdi nenhum. Meu objetivo sempre foi concluir essa formação”, afirma.

O aprendizado e o respeito à diversidade
Iauapuru conta que aprendeu a falar português ainda na infância por influência do pai, ex-servidor da Funai, que trabalhava em um antigo posto indígena. Apesar da fluência na fala, ele começou a aprender a ler e escrever apenas aos 18 anos, quando a primeira escola foi implantada em seu território.
“Eu comecei muito tarde a escrever, mas o desejo de aprender sempre existiu. Fui me aprofundando aos poucos e isso despertou ainda mais minha vontade de estudar”, relata.
Durante a graduação, o estudante afirma que ampliou o conhecimento sobre diferentes culturas sem deixar de valorizar as tradições do seu povo. Segundo ele, a convivência com indígenas de outros povos e com não indígenas fortaleceu o respeito à diversidade.
No Xingu somos 16 povos, cada um com sua cultura e sua língua. Aprendemos a respeitar essas diferenças. A cultura do não indígena traz boas experiências, mas não interfere na cultura da nossa aldeia, destaca.
Próximo desafio: o mestrado
Segundo Iauapuru, a Licenciatura Intercultural tem como principal objetivo fortalecer os conhecimentos tradicionais e preparar os indígenas para desenvolver pesquisas e atuar em benefício de suas comunidades.
Além disso, o curso amplia a compreensão sobre temas como política e cidadania. “Nós somos cidadãos brasileiros, temos direito ao voto e precisamos compreender esse mundo sem deixar de valorizar nossa cultura. Agora quero continuar estudando e meu próximo passo é fazer um mestrado.”
Sonho realizado
A indígena Liza Carcu Krikati, de 31 anos, do povo Krikati, no Maranhão, está cursando Ciências da Natureza e afirma que a formação tem como principal objetivo contribuir com o desenvolvimento de sua comunidade.
Casada, mãe e moradora de uma aldeia com cerca de 300 habitantes, ela conta que sempre sonhou em estudar e foi incentivada pelo irmão, que também ingressou na universidade. “Sempre gostei de estudar. Meu irmão já estava aqui e eu sempre ouvia falar da UFG. Fiz minha inscrição, passei e escolhi a área de Ciências da Natureza, que era meu sonho.”

Conhecimento para fortalecer o povo
Liza destaca que todo o conhecimento adquirido será colocado a serviço do povo Krikati. Segundo ela, os indígenas que retornam formados são recebidos com respeito pelas lideranças e passam a contribuir diretamente com a comunidade.
“Nossos caciques ficam felizes. Nós viemos para cá para nos formar e ajudar nosso povo, apoiando nossas lideranças e trabalhando pelo fortalecimento da comunidade”, ressalta. A estudante também pretende dar continuidade à formação acadêmica e já planeja cursar mestrado em Matemática, em seu estado de origem.
Exemplo na família
O incentivo para buscar a formação também veio de casa. O irmão de Liza, José Cohxyj, já concluiu o curso de Antropologia e atualmente está finalizando a graduação em Linguística. Para ele, a UFG representa uma oportunidade de transformação para os povos indígenas.
A UFG é a melhor universidade do Brasil. Aqui temos a oportunidade de estudar, nos formar e levar esse conhecimento para ajudar nossa comunidade e nosso povo, utilizando o que aprendemos onde for necessário.
Educação para fortalecer o povo Xerente
Morador de uma aldeia no município de Tocantínia (TO), a cerca de 45 quilômetros da cidade, Júnior Carlos Xerente, de 34 anos, integra uma comunidade com aproximadamente 30 famílias e cerca de 150 habitantes. Estudante do curso de Ciências da Linguagem da Universidade Federal de Goiás (UFG), ele está no terceiro ano da graduação e afirma que a decisão de ingressar no ensino superior nasceu da curiosidade e do incentivo de colegas e professores indígenas que já haviam passado pela instituição.

Para Júnior, um dos maiores ganhos da formação é a convivência com estudantes indígenas de diferentes etnias e estados brasileiros. “Conhecer outros povos, aprender as linguagens e compartilhar conhecimentos fortalecem essa conexão entre nós. É uma troca muito importante”, afirma. Segundo ele, essa convivência amplia a visão sobre a diversidade cultural e fortalece o aprendizado coletivo.
Conhecimento para a comunidade
O estudante destaca que seu principal objetivo é retornar à aldeia e colocar em prática tudo o que aprende na universidade.
Quero levar esse conhecimento para a minha comunidade, principalmente para a escola onde vou atuar. O objetivo é contribuir com o meu povo, diz.
Júnior conta que recebeu apoio da família e da comunidade para estudar, apesar da distância da esposa, dos filhos e dos pais durante o período de formação.
Planos para o futuro
Júnior considera que o Instituto de Estudos Interculturais da UFG é uma oportunidade transformadora em sua trajetória acadêmica e pessoal. “Aqui tive acesso a conhecimentos que antes não imaginava. Quero concluir a graduação, fazer mestrado e doutorado. Não penso apenas em mim, penso na minha família, na comunidade e no meu povo. Esse conhecimento é para todos”, ressalta.
Para ele, a educação é um instrumento de fortalecimento das comunidades indígenas e de preservação de seus saberes.
Maisa busca fortalecer a língua por meio da educação
Maisa Cunhô Canela, do povo Canela, do Maranhão, tem 34 anos, é mãe e pertence a uma comunidade com mais de 3 mil moradores. Falante da língua Memõrtumre, ela cursa Ciência das Linguagens e afirma que a formação superior representa a realização de um sonho antigo.
O estudo é uma coisa muito valiosa para mim. Meu sonho era entrar aqui para fazer faculdade e me preparar para ser professora.

Conhecimento acadêmico como ferramenta de preservação cultural
A estudante conta que pretende levar para sua aldeia os conhecimentos adquiridos durante o curso, especialmente aqueles relacionados à valorização da língua indígena e dos saberes tradicionais.
“Tudo que eu estou guardando na memória vai passar para a minha comunidade. Isso é muito importante para mim”, destaca.
Para Maisa, a educação na própria língua é fundamental para evitar o desaparecimento do idioma. “É mais importante ensinar na nossa própria língua para não deixá-la morrer.”
Formação para ensinar novas gerações
Mesmo ainda em formação, Maisa já teve a experiência de planejar e ministrar uma aula sobre metodologia. Ela explica que o objetivo é aprender estratégias para alfabetizar crianças indígenas utilizando a língua do seu povo como base. “Eu não sou professora ainda, mas é para isso que eu estou aqui: aprendendo como vou fazer metodologia para ensinar as crianças.”
A estudante afirma que deseja continuar os estudos após a graduação, com planos de fazer mestrado e doutorado. “Eu gostei de estudar e quero terminar, fazer mestrado e doutorado. Não parar.”
Estudos fortalecem cultura do povo Kaiabi
Natural do povo Kaiabi, do município de São Félix do Araguaia (MT), Jupopina Alan Kaiabi, de 28 anos e estudante da Licenciatura em Educação Intercultural, afirma que o interesse pelos estudos nasceu ainda na aldeia, onde sempre recebeu incentivo para seguir esse caminho. Com mais de 20 anos de trajetória escolar, ele está no terceiro ano da graduação e destaca que essa é sua primeira formação superior.

Para Jupopina, a educação é uma ferramenta de fortalecimento cultural e de ampliação dos conhecimentos da comunidade. “É muito importante, fortalece mais a cultura. Para mim, eu ganho mais experiências e mais conhecimentos”, afirma.
O estudante explica que o objetivo, após concluir o curso, é levar o aprendizado adquirido para o território indígena e contribuir com as escolas de seu povo. “O que aprendemos aqui, executamos nas nossas escolas do território”, destaca.
Intercâmbio entre povos
O povo Kaiabi reúne atualmente cerca de 3 mil pessoas, segundo Jupopina, e já conta com professores indígenas formados atuando na comunidade. Ele pretende ampliar essa contribuição ao concluir a graduação e continuar os estudos. “A meta é concluir a graduação e depois dar continuidade”, diz.

O estudante também ressalta a importância da Universidade Federal de Goiás (UFG) e do Instituto onde realiza sua formação, especialmente pelo apoio oferecido aos alunos indígenas e pela oportunidade de convivência com diferentes povos e culturas. “É muito importante conhecer outros povos, outras línguas, fazer outras amizades e aprender novas experiências”, afirma.
Da sala de aula na aldeia à universidade
Aos 33 anos, Claudineia Borobo Kiakia, do povo Boé, de Rondonópolis (MT), encontrou nos estudos uma forma de fortalecer sua comunidade. Sua trajetória acadêmica começou a partir de uma indicação da própria aldeia, quando, aos 23 anos, foi convidada a trabalhar na escola indígena. Na época, ela havia interrompido os estudos no primeiro ano do ensino médio e precisou retomar a formação para assumir a função de educadora.
“Minha trajetória começa quando fui indicada pela minha comunidade para trabalhar na escola. Eu tinha 23 anos e precisei voltar a estudar para poder entrar em sala de aula”, relata Claudineia. Para se preparar, ela cursou o magistério intercultural do povo Boé e, posteriormente, tentou ingressar na Pedagogia, até chegar à oportunidade de estudar na Universidade Federal de Goiás (UFG).

Formação intercultural e compromisso com o povo Boé
Claudineia cursa Educação Intercultural Indígena na UFG há três anos e meio, na área de Ciências da Cultura. O ingresso na universidade veio após o reconhecimento do trabalho que desenvolvia em sua comunidade, incluindo projetos de valorização cultural, como oficinas e retomada de brinquedos tradicionais.
“Um colega falou que eu precisava ir para a UFG. Quando abriu a inscrição, ele disse para eu tentar. Eu falei que sabia que iria passar, porque eu tinha certeza de que era isso que eu queria”, afirma. Após concluir a graduação, ela pretende continuar os estudos e buscar uma formação em nível de mestrado.
Conhecimento compartilhado com a comunidade
A estudante destaca que tudo o que aprende na universidade é levado de volta para sua aldeia, fortalecendo o vínculo entre a formação acadêmica e os saberes tradicionais. “Tudo que eu consigo aprender aqui, eu levo para o meu pessoal. O que aprendo dentro da sala de aula, eu estou levando para a minha comunidade”, explica.
Claudineia conta que se encantou com Goiânia e com o acolhimento recebido durante sua permanência na universidade. Para ela, continuar estudando é uma forma de ampliar seus conhecimentos e contribuir ainda mais com o povo Boé.
Superação do preconceito e defesa da igualdade
A estudante relembra que sua geração enfrentou dificuldades para acessar a educação, já que precisava sair da aldeia para estudar na cidade, percorrendo cerca de cinco quilômetros e convivendo com situações de discriminação, bullying e racismo.
“Naquela época, a gente passou por muitos desafios. Sofremos bastante com o preconceito, mas fui construindo uma proteção contra esses olhares”, afirma. Para Claudineia, a educação tem papel fundamental na transformação dessas relações. “O indígena também é gente como qualquer outro. Nós queremos ser tratados como iguais.”
Primeira mulher do povo Kaixana na universidade
Aos 26 anos, Samila Marija Kaixana, do povo Kaixana, do Alto Solimões, no Amazonas, cursa Filosofia – Licenciatura na Universidade Federal de Goiás (UFG). Morando em Goiânia há cerca de quatro anos, ela está no último período da graduação e conta que a adaptação à vida acadêmica e urbana foi um dos maiores desafios da sua trajetória.

Vinda de uma comunidade ribeirinha amazônica, Samila afirma que foi a primeira mulher indígena do seu povo a ingressar em uma universidade. Segundo ela, o interesse pelos estudos nasceu da necessidade de buscar conhecimentos que pudessem fortalecer a luta de sua comunidade.
Eu sinto que foi um chamado, que eu vi que meu povo precisava de alguém que tem alguns conhecimentos, tipo, conhecimentos ocidentais. Para lutarmos com esse sistema, nós precisamos entender as leis e como funciona esse sistema embranquecido que a gente vive aqui no Brasil, relata.
Distância da cultura e desafios da adaptação
A estudante conta que viver longe do território de origem tem sido uma experiência difícil, principalmente pelas diferenças culturais e ambientais entre os estados de Amazonas e Goiás. Ela destaca a saudade da família, da alimentação tradicional e do modo de vida do seu povo, que vive em uma região marcada pela proximidade com o Peru e a Colômbia. “Eu sinto muita saudade da minha cultura, da comida, de toda a diferença. Lá é peixe natural, farinha, banana da terra frita, além das influências das comidas colombianas e peruanas”, afirma.
Samila também relembra que seu povo perdeu a língua tradicional durante o processo de colonização. Atualmente, os Kaixana utilizam o português e têm contato com o nheengatu, língua que se tornou oficial na Amazônia em 2023. Segundo ela, a perda da língua representa uma das consequências históricas da colonização dos povos indígenas.
Filosofia indígena como conhecimento para o futuro
Na UFG, Samila desenvolve pesquisas relacionadas à filosofia amazônica e aos saberes indígenas, buscando ampliar o reconhecimento de outras formas de produção de conhecimento. Para ela, a filosofia tradicionalmente estudada nas universidades ainda é muito centrada no pensamento europeu, mas os povos indígenas também produzem reflexões profundas sobre a vida e a relação com a natureza.
“Na filosofia a gente só quer saber de Kant, de Nietzsche e tudo mais. E eu trago essa pesquisa: os povos indígenas produzem filosofia? E a resposta é sim. Nós temos muitos saberes, principalmente quando se trata do cuidado com a terra”, destaca. Para a estudante, os conhecimentos indígenas podem contribuir para enfrentar os desafios ambientais atuais. “A filosofia indígena é uma resposta muito grande para essas mudanças climáticas que estamos vivendo.”
MEC destaca importância da formação indígena na UFG
Questionado pela reportagem sobre a parceria do MEC com a UFG, o Ministério da Educação destacou que parabeniza e reconhece a relevância da iniciativa da instituição federal goiana. Ações de acolhimento e nivelamento, como os cursos de férias, são importantes para a permanência e a valorização dos estudantes indígenas na educação superior.
Considerando o princípio constitucional da autonomia, as universidades formulam e gerenciam seus próprios projetos de ensino e extensão, além de definirem seus critérios de seleção e áreas de conhecimento. Por essa razão, o MEC não centraliza os microdados operacionais de iniciativas locais.
No âmbito da política nacional, o MEC atua em eixos estruturantes de acesso e permanência, como o aprimoramento da Lei de Cotas e a concessão de auxílio financeiro por meio do Programa de Bolsa Permanência (PBP), no valor de R$ 1,4 mil mensais. Além disso, o Governo Federal criou recentemente a Universidade Federal Indígena (Unind), com previsão de início das atividades para 2027. A nova instituição representa um marco e será estruturada a partir de epistemologias, metodologias e demandas específicas dos povos originários, em diálogo com os territórios, consolidando e ampliando a política de educação superior indígena de forma inédita no país. Atualmente, a comissão de implantação trabalha nas deliberações iniciais da nova instituição.
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