Vivaldi, Primavera e os filmes que não chegam a Goiânia
14 agosto 2026 às 22h20

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Há algo de contraditório na relação de Goiânia com determinadas manifestações da cultura. Somos uma cidade de intensa vocação artística, com universidades, escolas de música, orquestras, coros, companhias de dança, grupos de teatro, galerias, festivais e uma produção cultural que movimenta públicos e forma novas gerações. Ainda assim, quando o cinema se aproxima da música de concerto, continuamos quase sempre à margem do circuito de exibição.
Recentemente, quem desejou assistir em Goiânia a uma produção cinematográfica baseada na vida de Chopin precisou recorrer ao streaming. Agora a situação se repete com Primavera, filme dirigido pelo italiano Damiano Michieletto e inspirado no universo de Antonio Vivaldi. O longa chegou às salas brasileiras, mas Goiânia ficou fora do circuito de exibição e, até o momento, o filme tampouco foi disponibilizado nas plataformas digitais.
É uma ausência que merece ser observada. Música de concerto não é necessariamente sinônimo de público pequeno ou especializado. Quando cinema, música e história se encontram, criam-se possibilidades de aproximação com espectadores que talvez jamais tenham entrado em uma sala de concertos.

Coleção Particular
Poucos compositores oferecem uma porta de entrada tão fascinante quanto Antonio Vivaldi. Nascido em Veneza, em 1678, Vivaldi, compositor e violinista, ligado à Basílica de São Marcos. Ordenado sacerdote em 1703, ficou conhecido como Il Prete Rosso, o Padre Ruivo. Problemas de saúde o afastaram progressivamente das obrigações litúrgicas, e a música ocupou definitivamente o centro de sua vida.

Um dos capítulos extraordinários de sua trajetória foi sua ligação com o Ospedale della Pietà, instituição veneziana que acolhia e educava meninas órfãs ou abandonadas. Ali Vivaldi ensinou violino, dirigiu atividades musicais e compôs inúmeras obras para jovens que se tornaram instrumentistas de altíssimo nível.
Sua produção foi vastíssima, mas As Quatro Estações garantiram-lhe uma permanência singular no imaginário ocidental. Os quatro concertos integram Il cimento dell’armonia e dell’inventione, Op. 8, e demonstram de maneira extraordinária a capacidade de Vivaldi de transformar imagens em sons. Ouvimos pássaros, águas, tempestades, o calor do verão, festas camponesas, o vento e o frio do inverno. A música parece adquirir movimento diante de nós.

Talvez não seja por acaso que justamente Primavera dê nome ao filme de Michieletto. Ambientado em 1716, a obra cinematográfica não pretende ser uma biografia convencional. A narrativa se constrói a partir da relação entre Vivaldi e Cecilia, uma jovem violinista virtuosa do Ospedale della Pietà. A personagem é fictícia, embora dialogue com figuras reais daquele ambiente, especialmente Anna Maria della Pietà, importante instrumentista para quem Vivaldi escreveu numerosos concertos.
O diretor evita transformar essa aproximação em uma história de amor. O vínculo entre os dois nasce da música, da solidão, da ambição artística e da necessidade de encontrar uma voz própria.
Há algo especialmente interessante nessa escolha. Durante muito tempo, a história da música foi contada a partir dos grandes nomes inscritos nas partituras. Conhecemos Vivaldi, Bach, Händel, Mozart, Beethoven. Sabemos muito menos sobre aqueles que tocaram suas obras pela primeira vez e, especialmente, sobre tantas mulheres cuja atividade permaneceu às margens da narrativa histórica. Ao colocar uma jovem violinista no centro da trama, Primavera procura lançar luz sobre esse outro lado da história, sem romancear.
Uma primavera que, infelizmente, ainda não chegou a Goiânia. E fica a pergunta: por quê?
Goiânia forma instrumentistas, cantores, compositores, regentes, professores e pesquisadores; recebe artistas nacionais e internacionais; mantém temporadas de concertos e projetos de formação de público. O mesmo vigor pode ser encontrado no teatro, na dança, nas artes visuais e na literatura. Existe uma vida cultural que pulsa na cidade.
Filmes como Primavera não interessam somente aos músicos. Podem interessar a quem gosta de história, de Veneza, de cinema europeu, de educação e de arte. Podem ainda despertar em alguém a curiosidade de ouvir Vivaldi pela primeira vez. Afinal, formação de público também se faz criando oportunidades de encontro.
Por enquanto, a Primavera de Vivaldi chegou aos cinemas brasileiros, mas não floresceu nas telas goianienses. Resta esperar pelo streaming, ou que os responsáveis pela programação cinematográfica percebam que Goiânia já possui aquilo que talvez imaginem não existir: público para a música e para filmes que a tratam com inteligência e sensibilidade.
Enquanto o filme não chega, fica um convite à escuta. Sugiro As Quatro Estações na interpretação da extraordinária violinista alemã Anne-Sophie Mutter. Para além da solista, cuja técnica e intensidade impressionam, ouça aquilo que Vivaldi nos convida a enxergar por meio dos sons.
Fique atento. Na Primavera, os pássaros, as águas e a tempestade; no Verão, o calor que se transforma em inquietação até a violência da tormenta; no Outono, a festa, a dança e a caçada; no Inverno, o frio, os passos sobre o gelo e o aconchego diante da chuva.
Preste atenção também ao diálogo entre o violino e a orquestra: ora o solista conduz a narrativa, ora responde ao conjunto, ora parece confrontá-lo.
Talvez esteja aí parte do segredo de uma obra que atravessou três séculos sem envelhecer.

Vivaldi escreveu uma música que podemos ouvir, mas também, de certa maneira, ver. E Anne-Sophie Mutter nos ajuda a enxergá-la.


