Neste mês, a cidade de São Paulo presta uma homenagem especial a Johannes Brahms com a execução de seu ciclo de sinfonias, oferecendo ao público uma rara oportunidade de percorrer a obra de um dos compositores que mais profundamente moldaram a história da música ocidental.

Recentemente, a revista CONCERTO revisitou sua trajetória em um texto de Leonardo Martinelli. Inspirada por essa celebração, a Coluna Música volta seu olhar para esse artista cuja produção permanece tão viva quanto indispensável.

Há compositores que transformam a linguagem musical. Outros se dedicam a preservar a tradição. Brahms realizou ambas as tarefas de maneira extraordinária. Em um século marcado por intensas transformações estéticas, quando a Europa assistia ao surgimento de novas correntes musicais e a acalorados debates sobre os rumos da arte, ele encontrou um caminho singular: dialogou profundamente com o legado de Bach, Beethoven e Schumann, ao mesmo tempo em que renovou as formas e ampliou as possibilidades expressivas da música de seu tempo.

Nascido em Hamburgo, em 1833, Johannes Brahms cresceu em uma família simples, tendo recebido do pai, contrabaixista, os primeiros ensinamentos musicais. Ainda criança revelou talento incomum ao piano e, sob a orientação de Eduard Marxsen, desenvolveu um rigor técnico e intelectual que o acompanharia por toda a vida. Foi nesse ambiente de imersão no aprendizado que consolidou sua profunda admiração por Bach, Mozart e Beethoven, mestres que permaneceriam como referências permanentes em sua escrita.

J. S. Bach (1685 – 1750) , L.v. Beethoven (1770- 1827)  e J. Brahms (1833 – 1897)

Talvez por isso Hans von Bülow tenha cunhado a expressão dos “três Bs” da música alemã: Bach, Beethoven e Brahms. A frase não pretendia apenas estabelecer uma linhagem histórica. Ela reverencia os dois primeiros e reconhecia em Brahms o herdeiro de uma tradição que encontrava na arquitetura formal, no contraponto e no desenvolvimento temático elementos capazes de manter viva uma herança musical construída ao longo de séculos.

Mas reduzir Brahms a um guardião do passado seria um equívoco. Sua escrita revela extraordinária liberdade criativa. Em suas sinfonias, concertos, obras de câmara e páginas para piano, a forma clássica convive com uma linguagem profundamente romântica, marcada por densidade harmônica, riqueza tímbrica e uma expressividade contida, distante dos excessos emocionais que caracterizaram parte do Romantismo europeu.

R. Schumann (1810 – 1856), Clara Schumann (1819 – 1896) e  J. Brahms (1833 – 1897)

Sua trajetória também foi marcada por encontros decisivos. Em 1853, Robert Schumann reconheceu de imediato o talento do jovem compositor e publicou o célebre artigo Neue Bahnen (“Novos Caminhos”), no qual o apresentou como o artista destinado a renovar a música alemã. Clara Schumann, pianista extraordinária e uma das maiores intérpretes de seu tempo, tornou-se não apenas uma incansável defensora de sua obra, mas também uma presença constante em sua vida. A profunda amizade entre ambos, construída sobre admiração mútua e afinidades artísticas, alimentou especulações e interpretações maliciosas que deram origem a uma das mais persistentes lendas da história da música do século XIX.Brahms jamais constituiu família. Viveu cercado de amigos, discípulos e admiradores, mas preservou uma existência discreta, quase reservada. Talvez por  isso,  sua música revele um universo interior tão intenso. Nela convivem serenidade e inquietação, força e delicadeza, disciplina e emoção, em um equilíbrio raro que continua sensibilizando ouvintes de diferentes gerações.

Foi em Viena que encontrou o  reconhecimento definitivo. A cidade que havia consagrado Haydn, Mozart, Beethoven e Schubert,  o colocou no patamar dos mesmos.  Ali escreveu grande parte de sua produção sinfônica e camerística, consolidando uma obra que ocupa posição central no repertório das principais orquestras e salas de concerto do mundo.

Ao ouvir Brahms, impressiona perceber como sua música atravessa o tempo sem perder o frescor. Sua  música s não busca efeitos imediatos nem concessões ao gosto passageiro. Exige escuta atenta, mas oferece, em troca, uma experiência artística de rara profundidade. Talvez seja justamente essa capacidade de falar ao intelecto e, ao mesmo tempo, alcançar o coração que explique sua permanência.

Mais de um século após sua morte, Johannes Brahms continua ocupando um lugar singular na história da música. Entre a tradição que preservou e a originalidade que conquistou, construiu uma obra que permanece como um dos mais altos testemunhos da criação humana.

Como sugestão desta semana, fica o 4º movimento da magnífica Sinfonia nº 1 em dó menor, Op. 68, frequentemente chamada de “a Décima de Beethoven” pela dimensão artística e pelo longo processo de maturação que antecedeu sua estreia. Uma interpretação da Filarmônica de Oslo, sob a regência de Klaus Mäkelä, registrada ao vivo no Wiener Konzerthaus, em Viena, em junho de 2024.

Vale observar a construção paciente da tensão musical. Após uma longa introdução, Brahms conduz o ouvinte a um dos momentos mais luminosos da literatura sinfônica, quando o célebre tema dos metais surge de forma serena e solene, como uma conquista alcançada depois de um longo percurso. Perceba como cada seção da orquestra participa desse processo: as cordas sustentam o discurso com densidade e profundidade, enquanto madeiras e metais ampliam gradualmente o horizonte sonoro até o desfecho triunfal. Em uma interpretação de rara maturidade, para um maestro tão jovem, Klaus Mäkelä privilegia a clareza das vozes, o equilíbrio entre as famílias instrumentais e um fluxo musical contínuo, revelando toda a arquitetura da escrita de Brahms sem perder a intensidade emocional.