Dois acontecimentos recentes, separados por milhares de quilômetros, chamaram minha atenção. À primeira vista, são apenas notícias policiais. Mas talvez digam alguma coisa sobre nossa relação com a arte, e sobre a estranha vulnerabilidade daquilo que criamos para tornar a vida um pouco mais bela.

 Estatuetas retratam Mozart com seu cachorro | Foto: Divulgação/Wolfgang Lienbacher

Em Salzburgo, cidade de Mozart, uma instalação concebida para celebrar os 270 anos de nascimento do compositor terminou antes da hora. Das 320 pequenas figuras douradas de Mozart espalhadas pelos Jardins de Mirabell, 210 desapareceram. As estatuetas, de cerca de 50 centímetros, foram criadas pelo artista alemão Ottmar Hörl e mostravam um Mozart pouco solene, acompanhado de seu cachorro Pimperl. A intenção era justamente aproximá-lo das pessoas: retirar o gênio do pedestal e devolvê-lo, por alguns instantes, à dimensão humana.

As estatuetas, de cerca de 50 centímetros criadas pelo artista alemão Ottmar Hörl | Foto: divulgação

Foi justamente no espaço público, pensado para essa aproximação, que a obra se desfez.

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Guadagnini italiano, verniz dourado, com veios largos | Foto: divulgação

Poucos dias depois, do outro lado do Atlântico, outra notícia causou perplexidade no meio musical. Em São Paulo, a violinista e professora Elisa Fukuda teve sua casa invadida durante a madrugada. Ela e o irmão foram rendidos. Os assaltantes procuravam ouro, joias e dinheiro e, não encontrando o que esperavam, levaram dois violinos italianos, três arcos e outros pertences. Os instrumentos eram um Giuseppe Gagliano e um Guadagnini.

São acontecimentos muito diferentes. Não seria justo colocá-los na mesma medida. Em São Paulo houve invasão de uma casa, ameaça e medo. Em Salzburgo, o furto atingiu uma instalação exposta deliberadamente ao espaço público. Ainda assim, alguma coisa aproxima essas duas histórias. Talvez seja o vazio.

Nos Jardins de Mirabell, ficaram os lugares onde antes havia pequenos Mozarts dourados. Na casa de Elisa, ficaram os estojos que já não guardam os instrumentos que acompanharam sua vida de musicista. Um objeto de arte nunca é apenas um objeto.

Um violino antigo pode ter um preço, naturalmente. Pode ser avaliado, segurado, transportado, vendido. Mas seu verdadeiro valor começa justamente onde a cifra termina. Um instrumento tocado durante anos guarda uma intimidade difícil de explicar para quem não convive com a música. A madeira responde ao músico, o músico conhece suas possibilidades, suas resistências, suas cores. Há uma espécie de memória construída entre os dois. Talvez por isso um detalhe do relato de Elisa Fukuda seja tão comovente.

Em pleno assalto, ao perceber que um dos homens colocaria o violino dentro de uma mala, ela pediu que tivesse cuidado e explicou que o instrumento era sensível e precisava permanecer em sua caixa.

Que estranho instante. Diante de quem lhe roubava o violino, a violinista ainda cuidava dele.

Há algo profundamente revelador nesse gesto. Para o ladrão, naquele momento, o violino era um objeto que poderia ter algum valor. Para ela, continuava sendo um instrumento a ser protegido. Um via a possibilidade de dinheiro; a outra enxergava madeira, história, som, trabalho, memória. Talvez seja essa a diferença entre possuir uma obra e verdadeiramente reconhecê-la.

As pequenas figuras de Mozart também tinham preço. O artista pretendia vendê-las ao final da exposição por cerca de 90 euros cada. Mas não estavam nos Jardins de Mirabell apenas para serem compradas. Formavam uma instalação, ocupavam aquele espaço, conversavam entre si e com quem passava. Retiradas dali, individualmente, tornam-se outra coisa. O objeto permanece; a obra, de certo modo, desaparece.

A arte vive de uma contradição antiga. Pode alcançar valores extraordinários no mercado e, ao mesmo tempo, possuir um valor que nenhum mercado consegue determinar.

Quanto custa um Stradivarius? Quanto custa um quadro de Van Gogh? Quanto vale o manuscrito de uma partitura de Mozart? Existem respostas para todas essas perguntas. Mas nenhuma delas responde ao essencial.

Porque podemos estabelecer o preço da tela, do papel, da madeira, da proveniência, da raridade. O que não conseguimos precificar é aquilo que essas coisas provocam quando encontram alguém disposto a olhar, ouvir ou sentir. Talvez por isso esses dois episódios, tão distantes, provoquem desconforto semelhante.

A arte costuma aproximar. Colocamos esculturas nos jardins para que desconhecidos compartilhem uma experiência. Abrimos salas de concerto para que centenas de pessoas escutem juntas. Um violinista passa décadas estudando para transformar madeira e cordas em algo que chegará a alguém sentado na última fileira de um teatro. Tudo isso depende de uma delicada confiança.

Confiamos que o outro compreenderá que algumas coisas, embora estejam ao alcance das mãos, não existem simplesmente para serem tomadas. Quando essa confiança é rompida, alguma coisa se quebra para além da perda material.

Os pequenos Mozarts talvez reapareçam. Tomara que os violinos de Elisa Fukuda também sejam encontrados e possam voltar às suas mãos. Mas os dois episódios deixam uma pergunta que permanece além da notícia.

Em um mundo tão acostumado a perguntar quanto vale?, talvez precisemos reaprender a perguntar o que significa? Porque proteger a arte não é apenas proteger objetos raros, museus, esculturas ou instrumentos valiosos. É preservar aquilo que eles carregam: memória, beleza, conhecimento, identidade e a possibilidade de emoção.

A beleza é, por natureza, vulnerável. Talvez justamente por isso precise tanto de nós. E talvez uma sociedade revele muito de si pela maneira como cuida daquilo que não é necessário para sobreviver, mas que torna a sobrevivência verdadeiramente humana.

Elisa têm, certamente, elevado valor material. Mas há algo que nenhum ladrão consegue levar: o valor que nasce quando o objeto se transforma em experiência artística.

Um violino pode ser roubado. A música que passou por ele, não.

Vamos ouvir Mozart, a Sonata para piano e violino em Sol maior, K. 301, interpretado pela violinista Elisa Fukuda, ao lado da pianista Vera Astrachan. Essa audição vai  nos lembra justamente disso: instrumentos existem para ganhar voz, atravessar o tempo e chegar até nós.

Pode ser essa uma das formas mais bonitas de resistência da arte: aquilo que verdadeiramente nos toca não pode ser roubado.