A Fundação Clóvis Salgado apresenta, neste mês de setembro, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, a ópera Chica da Silva, obra inédita encomendada pela instituição, com música de Guilherme Bernstein e libreto de Marcos Bernstein e Flávia Bessone. Depois da pré-estreia em Diamantina, no dia 12, a produção foi apresentada no Grande Teatro Cemig Palácio das Artes para récitas nos dias 19, 21 e 23 de setembro próximo passado.

A escolha de Chica, enquanto protagonista, traz um diferencial nas narrativas até então conhecidas. Durante séculos, o repertório operístico consagrou grandes heroínas europeias, mulheres que amam, sofrem, desafiam convenções, enlouquecem, resistem e morrem diante de nossos olhos. Mas quantas mulheres negras brasileiras tiveram suas histórias transformadas em matéria para o palco lírico?

Trazer Chica da Silva para esse universo significa, portanto, ampliar temas que consideramos merecedores de serem evidenciados em forma de música.

Há algo particularmente interessante na proposta desta montagem:  afastar-se da imagem consolidada da personagem apenas como mulher sedutora e exótica. O cinema ajudou a eternizar uma Chica exuberante na interpretação inesquecível de Zezé Motta, no filme Xica da Silva, de Cacá Diegues, de 1976. Duas décadas depois, Taís Araújo voltaria a colocá-la no imaginário popular por meio da televisão. Na ópera, Chica da Silva está sendo interpretada pela soprano Marli Montoni.

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Zezé Motta, Taís Araújo e Marly Montoni | Foto: divulgação

A ópera adota outro caminho, não para contradizer essas narrativas, que pertencem à nossa memória cultural, mas de lançar uma pergunta aparentemente simples e, ao mesmo tempo, difícil de responder:

Quem foi aquela mulher?

Chica da Silva viveu em uma sociedade escravocrata, patriarcal e profundamente hierarquizada. Nascida escravizada conquistou a liberdade e estabeleceu uma longa relação com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, com quem teve numerosa descendência. Sua trajetória de ascensão social no século XVIII chama atenção justamente porque aconteceu dentro de uma estrutura que reservava às mulheres negras possibilidades extremamente limitadas.

É nesse ponto que a arte pode alcançar lugares aos quais a simples enumeração dos fatos históricos nem sempre chega. Entre documentos, datas e registros, existe uma dimensão humana que inevitavelmente nos escapa.

Não se trata, portanto, de transformar Chica em heroína segundo os parâmetros de nosso tempo, muito menos de romantizar sua trajetória. Interessa perceber suas contradições, estratégias, afetos, medos, desejos e escolhas. Retirá-la tanto da caricatura quanto do pedestal talvez seja uma das formas mais interessantes de nos aproximarmos dela.

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Ewandro Stenzowski, tenor e Marly Montoni, soprano | Foto: divulgação

A própria concepção da montagem parece caminhar nessa direção. Sob direção-geral de Cláudia Malta, direção cênica de Julianna Santos e direção musical e regência de André Brant, a produção reúne a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, o Coral Lírico de Minas Gerais e a Cia. de Dança Palácio das Artes. A soprano Marly Montoni assume o papel de Chica da Silva, enquanto o tenor Ewandro Stenzowski interpreta João Fernandes.

E é justamente quando chegamos à música que essa história ganha outra dimensão.

Guilherme Bernstein aproxima diferentes universos sonoros. Elementos da música contemporânea encontram referências da cultura musical brasileira e, entre elas, surgem os vissungos, cantos de origem africana ligados à história da população negra em Minas Gerais.

Essa presença tem uma força especial. A memória não está apenas no enredo. Ela também habita o som.

E talvez resida aí um dos aspectos mais interessantes desta ópera. Durante muito tempo, a história da música de concerto brasileira foi contada privilegiando determinados personagens, centros e tradições. Ampliar esse repertório não significa negar o que veio antes. Significa reconhecer que nossa história musical é muito mais extensa, plural e complexa.

Falar da força de Chica também não significa criar uma personagem sem fragilidades. Ao contrário. Sua força pode ser percebida justamente na mulher que precisou viver, negociar, amar, administrar sua casa, criar seus filhos e construir espaços possíveis dentro de uma sociedade que lhe impunha limites brutais.

Os relatos dos bastidores da produção ajudam a compreender essa escolha. A pesquisa para a montagem parece partir justamente da tentativa de encontrar uma Chica possível para além da personagem que o imaginário brasileiro construiu.

Ao afastá-la da caricatura da mulher preta cuja capacidade de ascensão estaria associada essencialmente à sedução de um homem branco, a montagem não lhe retira força. Faz o contrário, procura restituir-lhe complexidade.

Chica deixa de ser apenas o corpo que seduz para tornar-se a mulher que vive, ama, cuida, decide, negocia e encontra maneiras de existir dentro das possibilidades, e das violências, de seu tempo.

Há ainda uma dimensão simbólica muito bonita nessa produção. A ópera recupera uma personagem profundamente ligada à história de Minas Gerais e retorna ao território de sua própria memória.

Chica da Silva atravessou mais de dois séculos sendo narrada por outros. Historiadores, escritores, compositores, cineastas e autores de televisão construíram diferentes Chicas,  algumas mais próximas dos documentos, outras alimentadas pelo imaginário de cada época.

Agora, ela chega à ópera.

E existe algo de especialmente simbólico nisso, uma mulher preta que durante tanto tempo foi objeto de narrativas finalmente ocupa o centro do palco para cantar a própria história.

Talvez nunca saibamos inteiramente quem foi Chica da Silva. A história raramente nos concede essa possibilidade. Mas podemos continuar fazendo perguntas.

Talvez seja essa a maior virtude dessa nova versão de Chica da Silva, não tentar transformar uma mulher do século XVIII em uma mulher do século XXI, mas procurar escutá-la a partir do mundo em que viveu.

A arte não pode corrigir o passado. Pode, no entanto, revisitá-lo, interrogá-lo e iluminar personagens que durante muito tempo conhecemos mais pelo mito do que por sua humanidade.

E, no caso de Chica, há algo ainda mais poderoso: depois de tantos séculos sendo narrada, agora ela canta.

Assista abaixo o vídeo dos Bastidores da ópera Chica da Silva.