Venho falando muito sobre formas pensadas pelas livrarias de rua para se manterem, manterem seus espaços ocupados e a sua própria existência física e viabilidade financeira.

A Palavrear, como livraria de rua, independente, não foge dessa busca (de uma luta infrutífera, por vezes), contra a grande varejista do bilionário norte-americano.

Uma das maneiras pensadas, é através do Clube Palavrear de Literatura Contemporânea, que para além de ser uma forma de atrair mais leitores para a livraria, também nos brinda com indicações de livros que não teríamos conhecimento ou leríamos se não fosse por essa indicação do curador.

A literatura que possibilita o contato com vozes diversas.

Assim, escrevo sobre tudo isso para discorrer sobre a indicação desse mês para o Clube: “E se eu fosse pur(t)a?”, da travesti Amara Moira, indicado pela drag queen, professor, Rita Von Hunty.

Professora de literatura, doutora em letras pela Unicamp e prostituta, Amara faz um relato sobre suas experiências como profissional do sexo.

Um livro escrito para nos chocar desde a primeira página, mas que nos mostra as várias faces e formas de existência, Amara conta sobre seu processo de transição, ao mesmo tempo que aponta o caminho que escolheu: a prostituição.

Amara Moira nos mostra realidades sobre o ofício, os desejos, essas verdades que a sociedade quer ver bem escondidinhas embaixo do tapete. Apontando os preconceitos, angústias, medos e também os prazeres que ali conheceu.

Mas aqui, quero fazer um paralelo com o excelente filme que está em cartaz nos cinemas, “Pobres criaturas”: o que acontece quando somos donas dos nossos desejos? Uma liberdade absoluta, fora dos padrões normativos e autonomia feminina, livre das inibições criadas pelos condicionamentos sociais?, ou o estranhamento, olhares enviesados, existências apagadas?

Assim como Bella Baxter, o que move Amara é a coragem aliada a uma curiosidade pelo seu redor. E em ambas, isso incomoda os homens. Dessa forma, eles tentam controlar seus corpos, medos e os seus desejos.

A ideia de tomar rédea da própria história, vontades e desejos, pode ser encontrado tanto no livro quando no filme. Ambas as narrativas contadas pelos olhares do estranhamento, mas sob a perspectiva das múltiplas vozes, múltiplas existências. Ainda nos brindam com reflexões sobre sexo, gênero, masculinidade e a manutenção do capitalismo sobre corpos femininos.

Assim como no filme, nesse livro precisamos nos despir de todos os PREconceitos que sobrepujam nossas vidas. Gosto como os títulos são uma provocação que permeia essas narrativas: e se eu cobrar por algo que as mulheres já vendem ou cedem de outras formas que não o dinheiro?

Que pobres dessas criaturas que não questionam o mundo ao seu redor e se deixam permear pela opinião alheia, que conduzem seus desejos e formas de existir, fazendo com que isso não se torne ponto de libertação para ser o que se é.

Os dois nos fazem refletir sobre como seriam se as normas que nos ditam o que fazer, o que dizer, não fossem tão cruéis com corpos considerados divergentes.

Ambas obras deliciosas e que tem o principal que a arte exige: um certo desconforto, o impacto da estranheza. Mas apesar de tudo, são obras carregadas de humor, envolventes e fluídas.

Como venho reforçando e falarei sempre: meu modo de enxergar e vivenciar o mundo, será pelos livros. Assim, ao ver esse filme, os paralelos com a literatura foram quase impossíveis de não serem feitos, mas com o “E se eu fosse pur(t)a?”, para mim foi o melhor e mais feliz casamento.

Aqui fica aqui meu convite para você, leitor, conhecer a Palavrear e participar do Clube de Literatura Contemporânea, tendo acesso a livros que você não leria ou conheceria se não fosse pela primorosa escolha de um curador.

O encontro será na próxima quarta, dia 28 de fevereiro, a partir das 18h30 e é aberto a todos.