Parafraseei o título da coluna passada, no título desse livro “Bem-vindos à livraria Hyunam-Dong”.

Como uma homenagem e inspiração para apaixonados por livros, livrarias e uma vida satisfatória, independente de validações sociais, esse é um livro que ao terminarmos, sentimos uma espécie de conforto nos corriqueiros da vida, essa beleza que fica no cotidiano e que por vezes, nos passa tão despercebido.

Como livreira na Palavrear, vejo essa nova onda de procura por livros coreanos em uma crescente. E é bonito ver livros sobre livros e todo amor e encanto que envolve uma livraria de rua.

Confesso que olhei para esse com uma certa dose de desconfiança, mas essa delicadeza singela com quem “Bem-vindos à livraria Hyunam-Dong” nos narra uma vida moldada por livros, e como ao longo da história também molda outras vidas, mostra o quão subjetivo é o conceito de sucesso.

A busca por mais sucesso, mais status, menos descanso ou culpa por descansar, em uma sociedade que celebra tanto o êxito a qualquer custo, é um convite à calmaria, o desapego e a situações que exigem mais do que podemos ser. Um livro que celebra a quietude e amor aos livros.

A autora faz uma crítica contumaz à busca incessante por conquistas, a validação social e a ansiedade que essa procura causa. Do que é o nosso desejo e o que é para realizar o desejo do outro, a projeção desse outro. 

Ao finalizarmos a leitura, temos a impressão de ser um livro que não diz nada demais. Porém, vejo coisas demais por trás dessas camadas:  valorização do tempo, o poder transformador dos livros, o amor – e mais ainda – a importância da existência e manutenção das pequenas livrarias de rua.

Pessoas comuns, vivendo suas vidas, mas que através dos livros, da livraria, conseguem ver a beleza do cotidiano e de ser exatamente o que se pode ser. Em “Bem-vindos à livraria Hyunam-Dong”, não temos grandes reviravoltas ou situações de tirar o fôlego. Temos situações que dialogam com os problemas que passamos, aqueles corriqueiros, da vida adulta, e que ninguém nos conta, nos prepara.  Mostrando, com muita delicadeza, que na maior parte das vezes, os acontecimentos são internos e pessoais.

Acredito que cada leitor lê do seu lugar, sob sua perspectiva de mundo e vivência. A minha, sempre será pelos livros, literatura e livrarias. Assim, novamente me pego discorrendo sobre o quão esse livro expõe uma pequena realidade das livrarias independentes: ao fazer de tudo para manter esse negócio afetivo, a personagem cria clubes de livro, rodas de conversas, fazendo com que essa pequena livraria se torne espaço de refúgio, abrigo e conforto para as pessoas.

Um ambiente que pode trazer calma e leveza para os dias, beleza e valor no cotidiano, fatores determinantes para gostar dessa narrativa, me lembrou muito de Lygia Fagundes Telles, em “Ciranda de Pedra”:

“Ouça, Virgínia, é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher as rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas. ”

Livrarias são isso que está aqui, nesse livro: a procura por um respiro em meio aos ruídos. Uma história sobre como os livros podem nos reposicionar e moldar nossa visão de mundo.

Leitura gostosa, rápida, nos faz transportar para uma livraria muito parecida: a pequena livraria Palavrear.

*Natália é sócia, curadora e livreira na Livraria Palavrear. Jornalista, crítica literária e pós graduanda em escrita criativa e teoria literária.