Euler de França Belém
Euler de França Belém

Valdeci Rodrigues, com sua voz musical e riso estrondoso, era um estilo e um personagem

“O ‘Sí’ me ensinou um pouco de poesia, violão e liberdade. Me inspirou a sair de Porangatu e enfrentar a vida” — Célio Rezende, publicitário

Para os amigos Ivan Vieira, Célio Rezende, Donizete Santos, Euclides de Souza Goianinho e Antônio Macedo

Na década de 1980, quando eu morava numa república, na Rua 91-A, uma viela do Setor Sul, em Goiânia, o jornalista Valdeci Rodrigues me visitava com relativa frequência. Conversávamos sobre temas variados — música (sabia muito mais do que eu a respeito), literatura, história e “coisas de Porangatu” (nossa Ítaca, e para onde, como Ulisses do Cerrado, voltou nos dias finais). Era divertido ouvi-lo. Sobretudo, apreciava o esplendor de sua gargalhada —que era mais bem-humorada, cadenciada, do que estrondosa (havia um ritmo sutil, quiçá musical). Não deixava ninguém indiferente — gostava-se ou daquele risão tromba-da-água, riocorrente. Conversar com ele era um acontecimento, pois sempre tinha algo interessante a dizer.

Valdeci Rodrigues: poeta, músico e jornalista-radialista | Foto: Facebook

Certa feita, pediu um cortador de unhas, e havia um, meio enferrujado, mas ainda útil. Cortou as unhas e colocou os pedaços numa vasilha que estava em cima da mesa — o que deixou irritado o meu colega de república, o então estudante de História na Universidade Católica de Goiás (UCG) Antônio Luiz de Souza. Este “fechou” a cara, mas não houve briga, pois Valdeci “abriu” um sorriso, mostrando os dentões simpáticos. Ele era assim — não dava importância às irritações derivadas de coisas pequenas. Parecia um pássaro, livre e leve, e, às vezes, um mago.

Valdeci gostava de examinar meus discos (de vinil). Quando lhe contei que larápios haviam roubado vários discos, porém nenhum livro, ele riu tanto que acabou me contagiando, e ri, não como ele, mas quase. Pós-riso, sua manifestação primeva, disse: “Que ladrão boçal, mas pelo menos, se não tinha bom gosto literário, parece apreciar música, porque seus discos são muito bons”. Em seguida, perguntou: “Não levou nenhum de Adoniran Barbosa?” Respondi: “Não, felizmente. Mas levou de Noel Rosa e Mário Reis, que certamente nem conhece — infelizmente”. Aí, nova gargalhada e a indagação: “Infelizmente por quê?” Expliquei: “Porque levou os discos”. “Ah, bom. Entendi. Havia pensado que era porque não conhecia o ‘gago’ e o ‘pré-João Gilberto’”. Aí, rimos juntos.

Valdeci Rodrigues | Foto: André Bianchi

Valdeci era jornalista e era músico. Um grande jornalista, que brilhou no rádio, em Brasília, em especial, e Goiânia. Mas sua alma era muito mais de artista, de músico, de poeta.

Carismático, aos poucos se tornou praticamente um personagem. Não era vaidoso, não tinha temperamento de estrela, mas, dotado de temperamento artístico — era bom músico —, acabou por se tornar uma estrela, uma pessoa que chamava a atenção. Falava-se dele, quase sempre bem. Igualmente importante: Valdeci não se importava com o que diziam dele. Dava de ombros, se falavam mal. Estava acima das picuinhas de redação e da política.

Inteligente, de ótima memória, entendia assuntos complexos com rapidez e podia explicá-los minuciosamente. O rádio parece tê-lo ajudado a concentrar informação e esclarecê-las, com rapidez, objetividade e precisão, para os ouvintes.

Há algum tempo, ao me visitar na redação do Jornal Opção, me fez um longo relato (desabafo) sobre uma filha, com a qual queria ter contato e, por algum motivo, não tinha (dizia amá-la, “muito”). Estava nervoso e, até, chorou. Depois, pediu dicas de livros (lembro-me que sugeri “O Complexo de Portnoy”, de Philip Roth, que ele há havia lido, e “Reparação”, de Ian McEwan), e foi embora. Parecia mais tranquilo do que quando chegou. Uma coisa faltou: se a voz continuava musical, ainda que ligeiramente trêmula, o riso ficou represado pela tristeza. A gargalhada famosa (era uma segunda fala), que merecia registro de “patente”, faltou ao encontro.

Valdeci Rodrigues: dono de uma gargalhada poderosa e musical | Foto: Facebook

Só recentemente fiquei sabendo que estava morando em Porangatu, com sua mãe. Meu primo Ivan Vieira, um radialista de primeira linha, apreciava conversar com ele e o levava para uns rolés pela cidade e em sua fazenda. Dono de um papo agradável, sempre informado, encantava Ivan com sua vivacidade e capacidade de notar e registrar cidades.

Valdeci morreu na quarta-feira, 12, em Porangatu, onde foi enterrado. Não era velho, não se comportava como velho (havia algo nele que o tornava jovem, de rara vivacidade). Poderia ter vivido mais. Uma pneumonia o levou. Mas talvez a depressão (e uma potente tristeza interior) tenha seu quinhão de “culpa” na sua morte. Porém, o que o define não é a morte, mais “curta” do que “vasta”, e sim sua rica vida.

O publicitário Célio Rezende escreveu no Facebook: “O ‘Sí’ me ensinou um pouco de poesia, violão e liberdade. Me inspirou a sair de Porangatu e enfrentar a vida”.

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