Euler de França Belém
Euler de França Belém

Uma carta inédita de Honestino Guimarães, ex-presidente da UNE

O professor italiano Antonio Cappi recebeu uma carta de Honestino Guimarães, na Itália, comentando a sua prisão

A reportagem sobre José Carlos da Mata-Machado e Honestino Guimarães, publicada no nº 1.332 do Jornal Opção, continua a repercutir. José Carlos e Honestino foram delatados ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, o chefão do Dops, que morreu, misteriosamente, aos 44 anos (a versão oficial fala em afogamento. Suspeita-se de queima de arquivo e de vingança da máfia italiana. Além de prender, Fleury teria roubado o dinheiro do mafioso Tomaso Buscetta), por Gilberto Prata, cunhado de José Carlos. O professor italiano Antonio Cappi, da Universidade Federal de Goiás (UFG), leu o texto e lembrou-se que, em 1967, quando estava na Itália, recebeu uma carta de Honestino Guimarães, aqui publicada, integralmente, pela primeira vez. No seu comentário enviado ao editor (Euler de França Belém), o professor Cappi escreveu: “Parabéns pela reportagem ‘Uma história que a esquerda não vai esquecer’ [Jornal Opção, 21 a 27 de janeiro de 2001]. Espero que não somente a esquerda, mas toda a população goiana não esqueça. Não tive o prazer de conhecer José Carlos. Mas conheci Honestino. E num mundo tão banal e medíocre, estas lembranças machucam a alma. Honestino tinha sido preso no dia 15 de fevereiro de 1967. Eu estava em Roma, preparando a defesa do meu primeiro mestrado, na Pontifícia Universidade Gregoriana, quando recebi — por via indireta — esta carta. É uma lição de vida difícil de esquecer”.

Honestino Guimarães, que estudava Geologia UnB e morreu nas mãos do regime militar | Foto: Reprodução

A carta de Honestino, ainda um garoto, revela uma pessoa madura: que diz detestar sensacionalismo. O presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) escrevia bem e, em certos momentos, poeticamente. A carta indica um jovem articulado, uma capacidade perdida para sempre. Honestino fazia parte de uma geração de jovens brilhantes — tanto que os sobreviventes, como José Serra, que também pertenceu à Ação Popular (AP), estão hoje¹ no poder ou bem situados politicamente em partidos de oposição.

Antonio Cappi, professor do curso de Filosofia da UFG

A história da prisão de José Carlos da Mata-Machado e de Honestino Guimarães está contada no livro “Zé”, do jornalista Samarone Lima, ex-repórter da revista “Veja”. Foi publicada pela Mazza, pequena editora de Belo Horizonte. Embora lançado há pouco tempo, é difícil de encontrar algum exemplar nas livrarias. O Jornal Opção adquiriu seu exemplar direto da editora.

Nota

¹ Vale lembrar que o texto acima foi publicado na edição do Jornal Opção de 4 a 10 de fevereiro de 2001 — há 18 anos.

A carta de Honestino Guimarães para Antonio Cappi

“Brasília 21-02-67

Meu caro Cappi

Como quisesse ao mesmo tempo dar notícias aos amigos daí e ter certeza de uma atuação coerente (e amiga) a um favor e contra sensacionalismo barato (que detesto), recorro ao Sr.

Já fiquei sabendo de que a minha prisão foi sabida aí na terra, e por isso faço questão de que a versão exata seja conhecida.

Uma madrugada (destas que nos põe liricamente sonhando com uma manhã geral para o mundo e para os homens), há seis dias, quando com outros amigos escrevíamos frases alusivas ao atual ‘status’ ditatorial, fomos presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional. As frases eram do tipo: ‘Mais escolas, menos quarteis’; ‘Abaixo o salário da fome’; ‘Abaixo o novo ditador’; ‘Liberdade sindical’, todas acompanhadas da sigla MCD (Movimento Contra a Ditadura).

Sei perfeitamente que o senhor já teria imaginado a causa da minha detenção, mas creio que alguns detalhes serão melhores para sua compreensão.

Um de meus colegas é metodista e com ele veio uma bíblia onde descobri frases que foram transcritas para as paredes da cela>

‘Bem-aventurados os que têm sede e fome de justiça porque eles serão fartos.’ Mateus 5.6

‘Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte não temerei mal nenhum porque Tu estás comigo… oh liberdade.’ Samo 23.4 David [As duas últimas palavras eu as introduzi].

‘Toda injustiça é pecado…’ I epístola de João 5.17

Além dessas já encimei uma que traz a superioridade moral em que eu me encontro:

‘Eu também não sou um homem livre, mas bem poucos estiveram tão perto da liberdade quanto eu.’ Millôr Fernandes.

Apesar de ser esta uma prisão de presos comuns, há aqui, conosco, um padre boliviano radicado no Brasil (Oliveiras-MG) também detido por ‘subversão’ e ameaçado de extradição. É lógico, porque ajudava os pobres, e camponeses, agrupando a estes últimos em cooperativas agrícolas, fazendo ao mesmo tempo uma afronta aos latifundiários e com que seus camponeses tivessem consciência do justo valor de seu trabalho. Guarde seu nome: Pe. Luiz Alarcon.

É provável que sejamos transferidos para a IV Auditoria Militar, em Juiz de Fora, onde deveremos ser julgados.

Gostaria de receber alguma carta do Sr. ou dos padres amigos, e neste caso o endereço seria o da minha casa: Bloco 34 apto 304 Asa Norte Residencial, Brasília-DF.

O Brasil (Quinan) esteve comigo hoje. Tenho de confessar-lhe que uma das causas que me levou a escrever foi a da necessidade de um desabafo amigo.

Dê minhas lembranças subversivas ao padres e receba um abração do amigo de sempre

Guimarães.

  1. Um autor desconhecido, para mim neste momento, disse: ‘Há momentos em que calar é mentir’… e eu detesto mentir. G.”
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