Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro sugere que diretor da UNE pode ter delatado Honestino Guimarães para a ditadura

Dois “infiltrados”, Gilberto Prata Soares e Chico, contribuíram para a prisão do estudante de Geologia na UnB

“Paixão de Honestino” (Editora UnB, 412 páginas), de Betty Almeida, é uma obra valiosa sobre o líder estudantil Honestino Guimarães, que a ditadura civil-militar matou logo depois de prendê-lo, em 1973. O capítulo “A última prisão” relata a articulação do regime, o indefectível delegado Sérgio Fleury à frente, para capturá-lo.

Betty Almeida é uma pesquisadora a favor do personagem de sua história, mas, ao escrevê-la, é ponderada e conscienciosa, raramente cedendo à tentação de fazer discurso político. Ao registrar a vida de Honestino Guimarães, dimensiona-a com precisão, definindo-o como um homem de seu tempo, um libertário que pregava a igualdade social, devorado por uma estrutura fortemente repressiva.

A ditadura saiu à caça de Honestino Guimarães e, para tanto, contou com o apoio de dois “cachorros” (delatores infiltrados). Um deles, Gilberto Prata Soares, morou em Goiânia e, ao entregar o cunhado José Carlos da Mata Machado, acabou entregando Honestino Guimarães. Eles mantinham contato político.

Gilberto Prata “disse que, embora não tivesse sido torturado, por ‘medo e covardia’ fez um acordo para que as vidas de sua esposa e de sua irmã Madalena fossem poupadas em troca da vida de José Carlos, marido de Madalena. Afirmou que, em 1973, todos os membros da APM-L com quem teve contato direto ou indireto foram presos e mortos. O CIE, para quem trabalhava, seguiu todos os passos de José Carlos — pois Gilberto restabelecia sua pista logo que era perdida — e saiu prendendo militantes da APM-L, um a um”, relata Betty Almeida.

O livro conta que Pedro Calmon Marques Teixeira, o Chico, “diretor da UNE e encarregado do setor estudantil”, em pânico, “pediu para deixar a organização”. Mas, “acalmado pelos companheiros”, foi “convencido a ficar”. Betty Almeida conta que “Gilberto Prata Soares fala desse Chico: ele teria estado com José Carlos da Mata Machado, no Rio e em seguida iria encontrar Honestino. Agostinho Guerreiro, na época dirigente regional em São Paulo, também fala de alguém que supunha ser de Goiás, de codinome Chico, ligado ao movimento estudantil”. Na gestão de Honestino Guimarães, Chico era “um dos vice-presidentes da UNE eleitos em 1971”.

Os militantes de esquerda que mantiveram contato com Chico — como Osvaldo Rocha e Paulo Stuart Wright —, a partir de determinado momento, foram presos por delegados e militares. Betty Almeida sugere que Chico pode “ter atraído Honestino para a armadilha montada no Rio de Janeiro”, em outubro de 1973. O desaparecimento do líder estudantil foi comunicado por Alexandre Lafetá e João Luiz Lafetá. Jornais obtiveram a informação, mas não deram a notícia, por receio dos tentáculos da ditadura ou, ao menos num caso, conivência.

Betty Almeida frisa que “não se conhecem relatos de presos que tenham visto Honestino”.
O livro cita fartamente o político goiano Pedro Wilson Guimarães, uma das reservas morais da esquerda e do PT. Ele era amigo de Honestino Guimarães e chegou a ser preso.

Uma resposta para “Livro sugere que diretor da UNE pode ter delatado Honestino Guimarães para a ditadura”

  1. Avatar Luciano Almeida disse:

    Consta que o suposto delator de Honestino, o “-Chico”, reside atualmente em Goiânia, Goiás. Seria interessante que o Jornal Opção ouvisse a sua versào.

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