Euler de França Belém
Euler de França Belém

Tite é o indivíduo que faz a diferença e leva a Seleção Brasileira à liderança das Eliminatórias

Desdungada, com espírito mais livre e forte taticamente, a Seleção chegou a golear a arquirrival Argentina

Foto: Lucas Figueiredo / CBF

Foto: Lucas Figueiredo / CBF

Marxicidas tendem a discordar, por certo avaliando que só o coletivo faz história. Curiosamente, é bem provável que, sem o aristocrata Vladimir Lênin, a Revolução Russa de 1917 talvez não tivesse acontecido, ou quem sabe teria sido adiada. É certo que, em determinado momento, aquele em que era preciso frigir os ovos, o bolchevique de excelente formação cultural — similar à de Liev Trotski — pensou em fugir. Os bolcheviques, que eram minoria, estavam perdendo terreno e seus líderes poderiam ter sido assassinados. O fato é que Lênin ficou e, com sua liderança precisa e autoritária, comandou a Revolução que arrancou, não o czar do poder exatamente, mas um grupo de democratas que começavam a se instalar na liderança da Rússia.

Habilmente, Lênin construiu a teoria antimarxista de que, para a esquerda chegar ao poder, saltando de um capitalismo incipiente para o socialismo, não era preciso de uma etapa, digamos, burguesa. O fato é que a chamada revolução industrial profunda acabou por ser feita, com altos custos humanos — dada a rapidez do processo —, pelo socialismo, não pelo capitalismo. Lênin era Stálin engatilhado e Stálin era Lênin atirando. Lênin não teve tempo de se tornar Stálin, mas Stálin se tornou Stálin rapidamente, assenhorando-se do poder de forma absoluta. De novo, o indivíduo fez história. Stálin, aprecie com ou sem moderação — eu esconjuro sem moderação —, tornou-se o verdadeiro capitão da industrialização da União Soviética. Um líder socialista moderado, ao estilo de Bukhárin, que era admirado por Lênin e pela velha guarda bolchevique, teria feito a revolução industrial com menos custos humanos, é certo, mas dificilmente a URSS teria se tornado uma potência rapidamente.

O nariz de cera, praticamente um corpo de cera, tem o objetivo mais modesto de falar, em “escassas” palavras, de Adenor Leonardo Bacchi, um homem simpático e ligeiramente corpulento de 55 anos (parece um pouco mais velho, dados os cabelos grisalhos). Trata-se, lógico, de Tite, o técnico da Seleção Brasileira de Futebol.

Tite não se considera gênio, até porque gênios, em termos de futebol, só mesmo em campo — Didi, Garrincha, Pelé, Gérson, Tostão, Jairzinho, Rivellino, Sócrates, Neymar. Mas Tite é, acima de tudo, um técnico notável. Entende o que faz e não é dado a firulas midiáticas, ao estilo de Vanderlei, aquele que hoje talvez more ou planeja morar em Luxemburgo. O técnico precisa entender de futebol, obviamente, mas precisa ser um líder confiável para os jovens que comanda. Os jogadores em geral são pós-adolescentes, imaturos, mas com muito dinheiro no bolso e famosos. Acabam se considerando acima de qualquer coisa — é o que ocorre com o brilhantíssimo Neymar, quase sempre nervoso, às vezes de maneira justificada, porque é caçado em campo, com ou sem bola. Tite é capaz de entender os jovens com os quais lida, comportando-se como pai e, ao mesmo tempo, avô. É firme, como um pai, mas sabe ser benevolente, como um avô.

O que Tite faz, com extrema categoria e certa candura, é trabalhar bem com os jogadores fora e dentro do campo. Fora, torna-se um amparo seguro — aquele que orienta, mas sem se tornar um guia fanático do estilo que exige discípulos robotizados. O técnico consegue entender que o dinheiro gera um modo de vida dionisíaco para os jovens, que sabem que a juventude é uma só, e passa, até rapidamente. Então, os jogadores precisam aproveitar o melhor da vida ao mesmo tempo em que precisam se comportar como atletas. É preciso encontrar um meio-termo entre a ética da vida, que puxa para os prazeres, e a ética do trabalho, que exige disciplina. Tite não retira o dionisíaco, porque o jovem fica triste e apático quando perde a festa, e acaba rendendo menos, mas oferece aquilo que os homens de mercado costumam chamar de foco.

Os jogadores, quando entram em campo, estão plenamente seduzidos pelo charme do pai-avô, sim, o Tite, um homem que, de certa maneira, ainda é jovem e, até, bonito, quase um latin lover.

A função de qualquer técnico é armar bem o time, conseguindo tirar de cada jogador o que tem de melhor. Não são todos os técnicos que conseguem fazer um bom jogador se tornar um jogador um pouco melhor do que quer e/ou pode. Tite, que entende de futebol como poucos, mas acima de tudo entende de gente, sabe extrair o melhor de seus comandados. Ele elogia, alegra-se, sofre e grita. Mas não tem aquele ar amuado-enfezado de Dunga, que passa a imagem de que pode até bater no jogador que for mal em campo.

Pode-se dizer que Tite pensa o jogo. Mas pensar o jogo é pouco. Tite consegue transformar o pensamento em ação, criando certa lógica para o jogador patropi, que tende a ser indisciplinado taticamente, mesmo quando joga na Europa, por se considerar um gênio, às vezes incompreendido. O que Tite diz não é o que se espera: “Não, meu filho, você não é gênio, não! Você é comunzinho, então faça o que eu mando”. O que o técnico diz é: “Você é brilhante, mas, se fizer isto ou aquilo, será ainda mais brilhante e, sobretudo, vai render mais para o time”. Na montagem tática de Tite, percebe-se que Neymar fica mais livre e, portanto, menos sobrecarregado. Tanto que as pancadas têm sido mais bem “distribuídas”. Gabriel Jesus, ótimo atacante, anda apanhando quase tanto quanto o jogador do Barcelona.

O que é Tite, então? É o indivíduo que chega, às vezes discretamente, e muda a história. A Seleção Brasileira de futebol estava mal, dunganizada, e, de repente, ganha de dois algozes terríveis, a Alemanha — nas Olimpíadas (o técnico era outro, mas o olhar de Tite estava ali, orientando, norteando) — e da Argentina, nas Eliminatórias para a Copa de 2018. Como se sabe, ganhar da Argentina só não é tão bom quanto ganhar da Alemanha — depois do 7 a 1. O Brasil, desdungado, se tornou, com galhardia, para usar uma palavra que ficava bem aplicar na Copa de 70, o líder das Eliminatórias. Arrancar o espírito de Dunga e instalar o espírito de Tite na Seleção era o caminho para a recuperação. Era, não. É. O Brasil por certo chegará à Rússia, sob a batuta do maestro Tite, como um dos principais favoritos.

Marx revira-se no túmulo, mas é preciso dizer: o indivíduo, no caso Tite, faz a diferença. E como faz.

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