Euler de França Belém
Euler de França Belém

Theodore Dalrymple escreve ensaio nada perceptivo sobre D. H. Lawrence, que Harold Bloom valida como gênio literário

Theodore Dalrymple: o novo xamã da direita | Foto: reprodução / Youtube

Theodore Dalrymple: o novo xamã da direita | Foto: reprodução / Youtube

No livro “O Cânone Ocidental — Os Livros e a Escola do Tempo”, Harold Bloom diz que D. H. Lawrence “continuará enterrando seus coveiros, como Whitman enterrou sucessivas gerações de papa-defuntos que o descartaram”. A escritora Doris Lessing, num ensaio perceptivo, escreve: “Lawrence pregava o sexo como uma espécie de sacramento e, mais ainda, um sacramento capaz de nos salvar dos efeitos da guerra e dos males de nossa civilização. ‘Denegrir o sexo’, anatematizou ele, ‘é o crime do nosso tempo, porque precisamos é de ternura pelo corpo, pelo sexo’”. Se W. H. Auden (“A Mão do Artista – Ensaios Sobre Teatro, Literatura, Música”), Richard Ellmann (“Ao Longo do Riocorrente – Ensaios Literários e Biográficos”), J. B. Priestley, Frank Kermode (“D. H. Lawrence – Biografia Literária”), F. R. Leavis (“D. H. Lawrence, Novelista”), Peter Gay, Jeffrey Meyers (“D. H. Lawrence – A Biography”) e Bloom percebem Lawrence como gênio literário, o psiquiatra e filósofo Theodore Dalrymple, no ótimo livro “Nossa Cultura… Ou o Que Restou Dela” (É Realizações, 397 páginas; os textos sobre Shakespeare são magníficos), mostra como um crítico extremamente perceptivo pode analisar, por má vontade ou moralismo, de maneira equivocada uma obra de qualidade, como o romance “O Amante de Lady Chatterley”. Trata o livro como “safadeza” e “obsceno”.

Não dá para reduzir e submeter a literatura à moral, pois, se o fizermos, raramente grandes escritores, como Petrônio, Boccaccio, Flaubert, Marcel Proust e James Joyce (como Lawrence, teve “Ulysses” censurado como “obra pornográfica”), escaparão aos censores de plantão. Theodore Dalrymple pega um trecho do livro de Lawrence e diz que a história é improvável e pornográfia e, por isso, a condena ao Inferno. “Seria difícil encontrar uma passagem mais horrorosa, tosca e insensível em toda a literatura inglesa.” Isto é crítica literária ou filosófica? Ou mera má leitura não-estética? Outra coisa: aquilo que não se aprova, que se condena, não existe na realidade? Auden assinala que aprendeu a admirar no poeta Lawrence aquilo que, de algum modo, ia contra seus princípios poéticos (“O que me fascina em certos poemas de Lawrence é que sou obrigado a reconhecer que ele jamais poderia tê-los escrito se tivesse ideias sobre poesia coincidentes com as minhas”). Admirar e respeitar a diferença — o que se não aprova — é ter senso estético e, também, um ato civilizado. Auden: “No caso de Lawrence, um inimigo era a reação convencional, a indolência ou medo que fazem as pessoas preferirem experiências de ‘segunda mão’ ao invés do choque de verem e ouvirem por si mesmas”. Acrescente-se que a crítica de Auden, no geral, não é condescendente, mas não é uma abordagem moralista, condenatória.

Nossa Cultura“Lawrence era um escritor honesto, mas nunca foi um escritor sério — se por sério considerarmos alguém cuja perspectiva sobre a vida tem um real valor moral ou intelectual”, afirma Theodore Dalrymple. Com uma frase peremptória, por discordância mais “moral” do que estética, o psiquiatra, que se apresenta como filósofo, decreta a “morte” do autor de “Mulheres Apaixonadas” e de uma poesia que os críticos avaliam cada vez mais positivamente. No livro “Gênio — Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura” (Objetiva, 828 páginas), Bloom diz que a força estética e espiritual de seus contos é incontestável. “Com o passar do tempo, Lawrence será visto como figura comparável a William Blake.”

Ao contrário da percepção do psiquiatra, que sugere que Lawrence “foi um pornógrafo” — porque expôs o sexo sem pudor —, Bloom (e Kermode) vai por outro caminho: “O que Lawrence expressa, com eloquente desespero, é a necessidade de um renascimento espiritual em nossa sociedade mercantil e uma ressurreição sexual no corpo do indivíduo”. O crítico americano frisa que “O Arco-Íris” e “Mulheres Apaixonadas” são romances “que ficarão para a eternidade”.
Segundo Bloom, “visionário demoníaco, Lawrence é o gênio mais autêntico que a literatura do século 20 pode ensejar. Sete décadas após sua morte [o livro de Bloom é de 2002], as páginas mais marcantes da sua obra continuam a transmitir energias ferozes de espírito, determinação e mente”. Ele dizia que “o romance é o livro da vida”.

Curiosamente, e ao contrário do que sugere Theodore Dalrymple, novo xamã da direita patropi, Bloom diz que “a escrita tornou-se a religião de Lawrence, e a ‘vida moral’ era o objetivo de tudo o que ele compôs”. Há em Lawrence — o que uma mente excessivamente moralista e não necessariamente moral não percebe —, na sugestão de Bloom, “uma moralidade implícita, apaixonada, não didática. Uma moralidade que altera o sangue, em vez da mente. Altera primeiro o sangue. A mente segue depois, como se fora na esteira”.
Como poeta, Lawrence é filho, admitido, de Walt Whitman (“à frente de Whitman, nada”). A opinião de Bloom: “Lawrence escreveu um número razoável de poemas que ficarão para sempre, com efeito, mais do que o fez Eliot”. Uma leitura eminentemente herética, considerando que T. S. Eliot é apontado como o maior poeta do século 20.

Theodore Dalrymple chega a dizer que Lawrence influenciou autores de baixa qualidade artística — sem força estética alguma —, mas sem apresentar nenhuma evidência da influência. É o mesmo que responsabilizar o compositor Wagner e o filósofo Nietzsche pela existência de Adolf Hitler.

Os arcontes, ironiza Bloom, não aceitam Lawrence. Porque não o compreendem, ou melhor, não querem compreendê-lo. Querem combatê-lo por aquilo que não é, nem quis ser: pornógrafo (Kermode cita Lawrence: “Nada me provoca mais asco que o sexo promíscuo”. Mais Lawrence: “O resultado do tabu é a insânia. E a insânia, em especial a insânia das massas, é um perigo temível que ameaça nossa civilização”.). É o caso do ensaísta Theodore Dalrymple. A chancela de filósofo não lhe cai bem, porque lhe falta a profundidade de Isaiah Berlin, John Gray e Roger Scruton.
Ainda bem que Isaiah Berlin voltou a ser editado no Brasil.

O que T. S. Eliot disse de D. H. Lawrence

Em dezembro de 1922, numa carta para o irmão, Henry Eliot, o poeta e crítico T. S. Eliot escreveu: “O que quero particularmente é tempo para preencher as inúmeras fissuras na minha educação em literatura e história do passado. Há muita pouca escrita contemporânea que me fornece qualquer satisfação; certamente não há romancista contemporâneo, exceto D. H. Lawrence, e James Joyce a seu jeito, é claro, que me importo em ler“. (Página 475 do livro “Constelação de Gênios – Uma Biografia do Ano de 1922”, de Kevin Jackson, Editora Objetiva.)

Opinião de E. M. Forster sobre D. H. Lawrence

O maior romancista imaginativo da nossa geração.” (Página 504 do livro “Constelação de Gênios – Uma Biografia do Ano de 1922, de Kevin Jackson.)

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