Euler de França Belém
Euler de França Belém

Sonho de moto-taxista é ter um par de coturno militar e lavador de carro pensa numa Harley-Davidson

imprensa2Uma nota pessoal. Saio do Hemolabor, onde faço exame de sangue com frequência, dada a trombofilia, e subo a República do Líbano. Paro na banca de revistas da Praça Tamandaré, leio uma notícia no jornal “Valor Econômico” e decido comprar um exemplar. Trata-se de reportagem informando que o grupo Votorantim vai paralisar, em fevereiro, a produção de níquel, no município de Niquelândia, em Goiás. Sento-me num banco da praça e começo a ler a reportagem, pensando nos 900 trabalhadores que serão dispensados e que certamente terão dificuldade de encontrar outro emprego de imediato.

Ao lado, um lavador de carro e um moto-taxista conversam animadamente sobre carros, motos e mulheres. Os dois são casados, mas, rindo, admitem que “pulam a cerca” algumas vezes. O moto-taxista, um jovem bem apessoado de aproximadamente 28 anos, conta que um de seus sonhos é trabalhar nos Estados Unidos para, “mais tarde, voltar com a ‘vida feita’”. Em seguida, afirma: “Mas meu sonho imediato é ter um coturno”. Levanto os olhos (ouvidos da alma) e deixo o jornal de lado. “O quê?”, surpreende-se, como eu, o lavador de carro. “Seu sonho é ter um par de coturno?”, pergunta. “Sim, mas não dos comuns. Eu quero um coturno desses do Exército.” Aí, intrigado, entro na conversa: “Isto é mesmo importante para você?” Ele diz que “sim” e acrescenta: “É demais! Quase tão importante quanto torcer para o Vila e para o Corinthians”.

A pergunta que, perplexo, não fiz, o lavador de carro faz: “Mas por que você quer o raio de um coturno?” O moto-taxista explica-se, rindo (com bons dentes): “Eu acho que, com o coturno, ganho mais respeito, fico mais macho”. Fiquei curioso, mas nada mais falei e voltei para a reportagem sobre a crise da Votorantim. Aí, continuando a conversa, o moto-taxista perguntou para o lavador de carro: “E qual é o seu sonho?” A resposta foi curta e precisa: “Só tenho dois sonhos — ganhar na Mega-sena e comprar uma Harley-Davidson. Aí, meu amigo, vai ‘chover’ mulher”. Como perceberam que eu estava prestando atenção na conversa, os dois perguntaram sobre o meu “grande sonho”. Não sei se tenho um, mas, para não desagradá-los, disse: “Viver pelo menos 150 anos, mas lúcido e andando”. Eles riram muito, divertidos e, aparentemente, me achando meio doido. Gostaria de ter dito que um sonho é aprender russo para ler o romance “Anna Kariênina”, de Liev Tolstói. Outro, quem sabe o grande sonho, o verdadeiro, é aprender a tocar acordeom. Mas aí teriam me visto como pedante.

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