Euler de França Belém
Euler de França Belém

Shirley Hazzard sugere que uma das funções da literatura é expor o caráter acidental da vida

A escritora australiana, que morreu em dezembro de 2016, deixou ao menos dois romances excepcionais, “O Trânsito de Vênus” e “O Grande Incêndio”

Shirley Hazzard é uma espécie de Liev Tolstói, mas, enquanto o russo esmiuçava grandes painéis históricos, a escritora australiana era uma mestre da história miúda, da percepção do indivíduo “movendo-se”, de maneira relutante, na vida e na história

A escritora Shirley Hazzard (1931-2016) morreu no dia 12 de dezembro do ano passado, nos Estados Unidos, aos 85 anos. No Brasil é mais conhecida por dois romances, “O Trânsito de Vênus” (Companhia das Letras, 480 páginas, tradução de Sonia Coutinho) e “O Grande Incêndio” (Companhia das Letras, 367 páginas, tradução primorosa de Luiz Antônio Oliveira de Araújo). Às vezes, é vista como uma espécie de “Henry James de saia” (leia mais abaixo), expressão que não lhe agradava. De fato, sua prosa enviesada lembra, aqui e ali, a do norte-americano. Em termos estruturais, são literaturas diferentes; é provável que a australiana seja, digamos, menos pessimista e seus personagens menos cínicos e cruéis. Tratar a brutalidade da vida, e não apenas da guerra, como faz em “O Grande Incêndio” (no qual há personagens portugueses, como Rita Xavier e Jerônimo da Silva, que vivem na China), com certa delicadeza é um de seus méritos.

“O Trânsito de Vênus”, de 1980, e “O Grande Incêndio”, de 2003, deram a Shirley Hazzard o National Book Criticz Circle e o National Book Award. São obras-primas.

Em “O Grande Incêndio”, a mãe da adolescente italiana Raimonda Mancini diz a respeito do jovem britânico Aldred Leith: “Aldred tem bom coração”. Aldred, um grande personagem, contrapõe: “Nem tanto”. Raimonda complementa o dito da genitora: “Muito bom. Mas não gosta de mostrá-lo”. O inglês arranja uma explicação: “Fui educado assim. Colégios rigorosos. Pais reservados”. Raimonda conclui a respeito da responsabilidade do indivíduo pelo que é: “Isso era problema deles. Agora é com você”.

Apesar da excelência de sua literatura, há quase nada de fortuna crítica sobre Shirley Hazzard em português e só dois romances traduzidos. É uma maior abandonada pelas editoras. No livro “Conversas Entre Escritores — As Entrevistas da Believer” (Arte & Letra, 215 páginas, tradução de Irinêo Netto, Miguel Nicolau Abid Neto e Ernesto Klüpel), organizado por Vendela Vida, há uma curta e excelente entrevista da escritora.

Na apresentação da entrevista, Vendela Vida sugere que a comparação com Henry James ocorre provavelmente porque, como o autor de “As Asas da Pomba”, Shirley Hazzard “apimenta seus romances com pistas para o leitor mais astuto. Em ‘O Trânsito de Vênus’, fica a cargo do leitor desvendar as circunstâncias que levaram ao suicídio de Ted Tice. Ao longo de ‘O Grande Incêndio’, referências repetidas são feitas a um livro grosso que a personagem Aldred Leith está lendo, mas Hazzard nunca diz com todas as letras que se trata de ‘Guerra e Paz’. De fato, a própria Hazzard — em seu tratamento do amor e da guerra e do fardo da história — talvez seja o mais próximo que possamos chegar de Tolstói”.

Trata-se de uma interpretação possível e avançada. Porém, ao menos em “O Grande Incêndio”, não se percebe uma influência marcante da literatura de Liev Tolstói. Os grandes painéis históricos do russo, com seu detalhismo extremo na sua reinvenção da invasão da Rússia por Napoleão Bonaparte, em 1812, têm pouco a ver com a história em miniatura da escrita de Shirley Hazzard. A percepção do indivíduo como sujeito, e só eventualmente como vítima da história, é um dos trunfos da literatura da australiana. A relação de Aldred Leith, um homem maduro, e Helen Driscoll, uma garota de 17 anos, lembra, levemente, a relação de André e Natasha, os personagens do cartapácio russo. Entretanto, embora aponte a destruição provocada pela Segunda Guerra Mundial na Europa e no Japão (Hiroshima), além da China, Shirley Hazzard não se preocupa em fazer uma descrição minuciosa das batalhas. A guerra é o fato central, que muda as vidas de maneira irremediável, mas o que os indivíduos fazem com suas vidas, apesar de não conseguirem controlá-las inteiramente — a autora dá uma importância basilar ao que é acidental —, é o forte de suas narrativas.

“O Trânsito de Vênus” e “O Grande Incêndio”, romances de excelente qualidade, podem ser adquiridos, no sítio do Estante Virtual, por 3 e 9,90 reais. Não há desculpa para não ler as obras-primas da autora australiana

Livros no palco

A entrevista foi concedida a Vendela Vida em 2003, em Manhattan, onde Shirley Hazzard morava. As duas começam falando da importância dos livros, de como, antes da televisão (poderiam ter acrescentado, da internet), eram centrais nas vidas das pessoas. Uma vez, Graham Greene, ao recitar um poema de Robert Browning, esqueceu da última linha. A escritora recitou, de cor, o que faltava. Eles estavam num café de Capri, na Itália.

Vendela Vida assinala, com propriedade, que “em muitos” dos livros de Shirley Hazzard “é a poesia ou a literatura que aproxima as pessoas”. A escritora concorda: “Sim, isso é bastante intencional. Livros eram tema da vida, de uma época, para toda uma população que cresceu antes dos anos 50, quando a televisão adentrou o mundo. Em um de seus romances, ‘Travels with My Aunt’, o protagonista de Graham [Greene] comenta que a vida de um indivíduo é mais formada de livros do que de pessoas. ‘É a partir dos livros’, ele diz, que ‘o indivíduo aprende por tabela sobre amor e dor. Ele uma vez me disse que nós — aqueles da minha geração e da dele — conhecemos um mundo onde a poesia atravessava as classes e as gerações”.

Em “O Grande Incêndio”, cuja história se passa em 1947, há dois jovens impressionantes, de cultura vasta, que leem Gibbon, Erasmo de Roterdã, Carlyle, entre outros. Tratam-se dos irmãos Benedict e Helen Driscoll (a paixão de Aldred Leith). Eles têm uma vida “do espírito”. Shirley Hazzard diz que percebeu que alguns críticos duvidaram da maturidade cultural dos garotos. “Os críticos não percebem que os livros eram um elemento central para milhares de vidas, e era um prazer predominante e uma forma primordial de educação”, afirma a autora. “Durante minha infância e no começo da minha adolescência, homens e mulheres que tinham o hábito de ler se beneficiavam do conforto de uma grande variedade de expressões humanas. Através de expressão autêntica, nos reconhecemos a nós e aos outros, e já não estamos isolados. Essa é a noção do compartilhamento que podemos ter com todas as formas de arte.”

A literatura diverte, instrui e amadurece os leitores. “Por meio da leitura, eu cresci. Ainda tenho esperanças de crescer mais ao passo que leio, ouço mais música, tenho outras experiências”, sublinha Shirley Hazzard”. Vendela Vida ressalta que, em “O Trânsito de Vênus”, ao mencionar duas pessoas que viajam num ônibus do interior, a autora escreve: “Nós só podemos nos aproximar um do outro quando queremos”. A escritora menciona outro trecho do romance: “Não se ousaria colocar em um romance a quantidade de coincidências que ocorrem na vida real”.

Para Shirley Hazzard, prosadora de matiz filosófico, “a vida não precisa se justificar. Ela acontece; temos que aceitar. Lendo ficção, o crítico cético gosta de se sentir no controle. No entanto, sua própria existência — toda existência — é sujeita a elementos acidentais, à intervenção inexplicável ou mágica, ou amedrontadora, que não pode ser justificada pela lógica”.

Logo no início de “O Grande Incêndio”, ao chegar ao Japão, o major Aldred Leith é recebido pelo motorista Brian Talbot, um soldado australiano. Ao desculpar-se por ter feito Talbot esperar, este diz: “Ora, que nada. Eu trouxe um livro”. Os dois estavam lendo um romance de Oliver Leith, pai de Aldred. “Nos dias de hoje”, lamenta Shirley Hazzard, “o jovem motorista teria com certeza um celular ou um walkman. Naqueles dias, você lia um livro. Tudo isso soaria completamente natural”. No mundo atual, há uma ansiedade coletiva, as pessoas estão sempre apressadas, querem sair de um lugar e correr logo para outro. Para fazer o quê, não se sabe — talvez para assistir à última série da Netflix. Vamos ler o romance “Moby Dick” (o Brasil conta com duas belas traduções, uma de Péricles Eugênio da Silva Ramos)? Pra quê, se existem filmes e ao menos uma série? “Hoje, ninguém tem tempo para isso [um passeio e uma conversa descompromissados]. Eu sinto a agitação da cidade batendo nas minhas janelas. O que quer que eu esteja fazendo, sinto que deveria estar fazendo outra coisa; deveria estar me dedicando a afazeres insuperáveis.”

A entrevista de Shirley Hazzard pode ser encontrada no livro “Conversas Entre Escritores — As Entrevistas da Believer”, organizado por Vendela Vida

Memória e imaginação

A imaginação é um dos instrumentos seminais do escritor. A realidade imaginada às vezes é mais rica, e se pode compreender de maneira mais ampla o quadro descrito, do que o registro puramente factual. Por isso é que se diz que não raro escritores compreendem e explicam mais bem determinados acontecimentos do que jornalistas, que, de tão preocupados com a anotação “rigorosa” dos fatos, eventualmente perdem as nuances, a vivacidade, por assim dizer, do que ocorreu. Ao escrever sobre Graham Greene, no livro “Greene on Capri”, Shirley Hazzard conta que “raramente” tomou notas: “Uma obsessão por anotar muda a natureza das coisas, aniquila a espontaneidade e a receptividade: é uma imposição, como uma sequência de fotografias”.

A memória e a capacidade de observar com atenção, para depois recriar a realidade, são algumas das virtudes de Shirley Hazzard. “Tenho uma boa memória para o que me interessa. Não tão boa assim, admito, para o que é útil. Às vezes consigo me lembrar de longas conversas muito depois.” A entrevistadora repara que seus romances “são ricos em detalhes e lugares” e pergunta: “Você faz anotações ou trabalha só de memória?” A autora responde que “de memória”. “Tenho uma memória incrível. Sempre recordei o que me deu prazer, o que me interessou. E também o que tem sido emocionante: a natureza da tristeza, a angústia própria da tragédia, o arrependimento. Sou formada por poesia, impressões, experiências, palavras. (…) Vejo, ao olhar para trás na minha juventude, que mantive uma reserva do que era belo, prazeroso e até mesmo triste, como uma lista de coisas que me atraem e talvez como evidência de alguém melhor que eu poderia apresentar ao mundo.”

Entrevistada por Michiko Kakutani, a crítica literária do “New York Times”, Shirley Hazzard disse: “Há uma tendência de se escrever anotações sobre a própria psique, e chamar isso de romance. Meu livro, entretanto, é realmente uma história. Isso pode ter contribuído para o seu sucesso”. Ela está falando de “O Trânsito de Vênus”.

Shirley Hazzard conta que tinha três moradas — Nova York, Capri e Nápoles. Era caro, mas ela queria assim. “A continuidade — o hábito e as memórias do hábito — é valiosa para mim.”

Depois de escrever contos, Shirley Hazzard começou a escrever um romance. Ao editor-chefe da “New Yorker”, William Maxwell, confidenciou o receio de que temia que suas primeiras obras ficassem carimbadas como imaturas, juvenis… por ela mesma. Maxwell contrapôs: “Em vez disso, você vai olhar para elas como coisas absolutamente novas e espontâneas, com um tipo de inocência que você vai recapturar raramente em trabalhos posteriores. Eles poderão ser mais maduros, mais desenvolvidos, talvez mais inventivos. Mas haverá sempre o vigor dos trabalhos iniciais”.

Nada populista, ainda que não cabotina, Shirley Hazzard admite que sua prosa tem força e que a aprecia, inclusive as sátiras de “People in Glass Houses”. “As pessoas no poder, mesmo que seja um poder burocrático insignificante, raramente são boa influência. Elas se tornam inalcançáveis, a não ser pela sátira. Alexander Pope as vê como “Salvas do bar, do púlpito e do trono,/Apesar de tocadas e envergonhadas apenas pelo ridículo./Oh, arma sagrada! Deixada para a defesa da verdade,/Único medo da estupidez, do vício e da insolência!”

Influências literárias

Vendela Vida conta que Shirley Hazzard era uma “leitora ávida de Elizabeth Bowen”. Nascida na Irlanda, Bowen era amiga de Virginia Woolf e escreveu literatura (e crítica) de primeira linha. Bowen era, no dizer de Shirley Hazzard, “uma pessoa incomparável”. “O melhor do seu trabalho é inimitável. Como uma influência… Realmente não sei. Tantos poemas e romances me influenciaram, desenvolveram meu ouvido. Browning foi o primeiro, talvez. Os grandes poemas de Hardy e, mais tarde, seus romances excruciantes. Conrad permanece um companheiro. Seu romance ‘Vitória’ viaja comigo”. “The Secret Sharer” é “um dos maiores contos de todos os tempos”.

“O Coração da Matéria” — e não “O Poder e a Glória”, talvez não o mais lido, mas sim o mais respeitado de suas obras — é apontado, por Shirley Hazzard, como o melhor romance de Graham Greene. “D. H. Lawrence? Não o leio há anos. Eu o aprecio, mas não vou atrás dele avidamente. Existiram alguns livros em particular que tocaram minha imaginação de modo peculiar: ‘The Small Back Room’, de Nigel Balchin, ‘Wide Sargasso Sea’, de Jean Rhys, ‘A Defesa Lujin’, de Nabokov, ‘The Girl of Slender Means’, de Muriel Spark. O quanto cada um desses livros me influenciou, não sei dizer. É só a noção de que alguns livros o emocionam e você não consegue mais esquecê-los. Eles se tornam íntimos, indeléveis. Com frequência, dizem que sou influenciada por Henry James, embora eu tenha escrito durante anos antes de sentar para ler um livro de James. Ele tem alguma grandiosidade, mas mesmo agora tenho reservas com relação ao Henry James. Falam que Patrick White me influenciou. Ele não me influenciou, mas considero o romance ‘Voss’ um dos mais importantes do século 20”. A escritora afirma que um crítico escreve que tal autor influenciou outro autor e aí todos ficam repetindo a mesma coisa, e, mesmo que não seja verdade, se torna uma verdade, algo aceito pela maioria. Críticos, afinal, “citam”… “A maior influência literária reside no estímulo às palavras, ao discurso expressivo.”

O filósofo Isaiah Berlin costumava escrever a respeito do que é acidental na vida das pessoas, sobre a impossibilidade de controlar a história, de dar um rumo “certo” aos acontecimentos e às vidas. Shirley Hazzard pensa parecido: “Devido à crescente insegurança do mundo, as pessoas querem acreditar, ansiosamente, que estão acima das coisas, que estão no controle. Sobretudo nos Estados Unidos, no topo do poder mundial, existe o impulso de ficar com o que é atestado, de expressar e de explicar; de excluir o mistério, a imaginação, os poderes intuitivos da existência individual. E o ‘inattestable’, que informa tudo que mais importa para nós? E a natureza acidental da nossa vida? Os eventos mais importantes da vida privada são sempre marcados pelo acidental. Dos psiquiatras e sociólogos, nunca ouvimos uma palavra sobre o acidental, o que não pode ser atestado. Sobre isso, Max Beebohm disse: ‘Eles explicam porque não podem entender’. Talvez esse seja o porquê de, mesmo com tanta explicação, nós ainda estarmos no escuro”.

Apesar de sua importância como escritora, a imprensa patropi praticamente não registrou sua morte. Michael Cunningham, autor do romance “As Horas”, escreveu: “Shirley Hazzard é, pura e simplesmente, uma das maiores escritoras de língua inglesa da atualidade”.

Livros

Shirley Hazzard é autora de livros de ficção e de não ficção: “People in Glass Houses” (“uma coleção satírica de esquetes”), “Defeat of na Ideal” (não-ficção sobre “as fraquezas da ONU”), “Coutenance of Truth” (“sobre a ONU e o caso de Kurt Waldheim”), “Coming of Age in Australia” (não-ficção), “Greene on Capri (sobre o escritor inglês Graham Greene, de quem era amiga), “Cliffs of Fall and Other Stories” (contos), “The Evening of the Holiday (romance), “The Baby of Noon” (romance), “O Trânsito de Vênus” (pode ser adquirido por 3 reais no site “Estante Virtual”) e “O Grande Incêndio” (9,90 reais).

E-mail: [email protected]

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Adalberto De Queiroz

Uma alentada resenha pode ser avaliada como boa quando leva o leitor a procurar o(s) livro(s) e autor(es) resenhados. Esta que li é ótima, pois me levou direto à EV em busca de livros de Shirley Hazzard. De fato, tenho os livros “O Grande Incêndio” e “O trânsito de Vênus” por algo em torno de R$ 15,00, que pechincha. Obrigado, Euler pelas dicas de leitura sempre enriquecedoras.
AQ.