“O Escritor Como Personagem” contém contos tradicionais e inventivos de alta qualidade

A literatura é múltipla. Porém, depois de James Joyce — grandemente influenciado pelo francês Édouard Dujardin¹ (felizmente, admitiu a inspiração) —, costuma-se exigir que a prosa seja “unidimensional” (só serviria a dita “inventiva”, joyciana). Muitos escritores são levados, por certa crítica, a se tornarem clones do escritor irlandês. Começou-se a sugerir que “menos é mais” — como se toda a literatura tivesse de obedecer a um estilo literário. Mas o que dizer de Proust e Thomas Mann, prosadores notáveis e caudalosos? O mínimo: são escritores eternos, revolucionários ao modo deles. O que se quer postular é que, para ser bom escritor, não é preciso, necessariamente, clonar a prosa inventiva do autor de “Ulysses” e “Finnegans Wake”. É possível ser um autor poderoso escrevendo uma prosa dita tradicional, mas que, em alguns casos, não o é. Pode-se ser inventivo — um criador-mestre — contando uma história muito bem. Quem conta bem acaba por, direta ou indiretamente, revolucionar a linguagem.

A coletânea “O Escritor Como Personagem” contém contos mais tradicionais e contos mais inventivos. Uns são melhores do que os outros? Não. Há excelentes contos entre os tradicionais e os inventivos. A ideia do conto — proposta pelo historiador, Ademir Luiz — é, por si, criativa. Foi proposto que prosadores que escrevessem contos tendo escritores como personagens. Carmo Bernardes e Pio Vargas (é quase mediúnico; crítico e escritor fica-se com a impressão de que a história é um registro do poeta vivo) renderam bons e divertidos contos. Assim como Kafka, Jorge Luiz Borges, entre outros.

A qualidade dos contos é alta, revelando capacidade inventiva, às vezes uma imaginação poderosa. O que prova que os escritores brasileiros — radicados em Goiás — estão atentos e produzindo com qualidade. Uma crítica atenta de alguns contos sugere que tanto podem ser ampliados para um conto mais extenso quanto podem se tornar romances.  O fato é que o conto, quem sabe um romance em miniatura, esgota-se em si mesmo, se o autor quiser.

Pode-se falar que os contos foram, por assim dizer, escritos às pressas? São contos de “oportunidade”, escritos a pedido, e os autores não tiveram muito tempo para burilá-los. Entretanto, longe de sugerir que são “fracos”, deve-se dizer que, apesar do prazo curto, os contos são, no geral, muito bem escritos e imaginados.

Mais: a coletânea sugere que há uma geração de novos escritores altamente gabaritada (que dará o que falar, local e nacionalmente). E a geração mais velha permanece escrevendo muito bem, de maneira imaginativa.

Há duas coletâneas à espera de edição: os “Contos da Pandemia” e os “Contos Marcianos” (há vários contos de alta qualidade, como “La Pulse”, de Itamar Pires Ribeiro). O editor Iúri Rincon Godinho, sempre alerta, certamente vai publicá-las.

Os contos foram publicados originalmente no Jornal Opção.

Serviço

O livro “O Escritor Como Personagem” será lançado na terça-feira, 7, às 20 horas, na sede da União Brasileira de Escritore-Goiás (UBE), na Rua 21, nº 262, Setor Central, em Goiânia.

Nota

¹ O livro “Os Loureiros Estão Cortados” (Brejo, 120 páginas), de Édouart Dujardin, saiu no Brasil com tradução (precisa) de Hilda Pedrollo (autora de uma introdução competente) e apresentação de Donald Schüller (tradutor de “Finnegans Wake” para a Ateliê Editorial, casa dirigida pelo goiano Plínio Martins Filho, professor da USP e ex-editor da Edusp).