Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Restrições fazem prefeito de Goiânia discutir com jornalista no Twitter

Rogério Cruz entrou em embate virtual ao reagir a postagem de Cileide Alves. Transparência se torna ponto mais questionado da gestão

Cileide Alves e Rogério Cruz: prefeito respondeu rispidamente a questionamento pertinente da jornalista feito nas redes sociais | Fotos: Reprodução

Uma pandemia grave é novidade para quase todos os humanos vivos – há provavelmente poucos longevos na Terra que viveram a gripe espanhola que matou pelo menos 50 milhões de pessoas no fim da segunda década do século 20 e se lembram de como foi.

Natural, portanto, que, no decurso de dois anos no cenário sombrio causado pelo coronavírus, com mais de 5,5 milhões de mortes, houvesse mudanças na rota do que deve ser feito e de como deve ser feito, seja por cientistas, seja por autoridades políticas.

Um exemplo: a máscara não era algo tão importante quanto o álcool gel no início da crise sanitária. Hoje, com o maior conhecimento sobre o contágio (quase que totalmente por vias respiratórias, em gotículas ou aerossóis) e a altíssima transmissibilidade da variante ômicron, uma boa proteção facial é algo literalmente vital. Por outro lado, se sabe que a contaminação por contato físico (evitável pelo álcool gel) se mostrou bem menos comum.

Da mesma forma as medidas de restrições de circulação foram se adaptando. Uma ferramenta importante para que elas fossem reduzidas foi a vacina, que tornou a doença muito menos letal, a ponto de médicos de ponta, como a intensivista goiana Ludhmila Hajjar, dizer que somente os casos de UTI se concentram quase que totalmente em não vacinados.

Com a chegada da nova onda ao Brasil, gestores preparam-se para o enfrentamento de nova fase crítica. Mesmo com uma porcentagem menor de óbitos, infelizmente a contaminação muito maior neste momento devem fazê-los subir: nos Estados Unidos, já são quase 3 mil mortes diárias, um número assustador. Há necessidade de preparar as unidades de saúde e, para isso, é preciso controlar o fluxo de pessoas e as aglomerações.

Diante do aumento de casos em Goiânia, que pós a cidade em observação pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), havia a expectativa de que, na sexta-feira, 14, o prefeito Rogério Cruz (Republicanos) anunciasse um decreto com novas restrições. Uma decisão a respeito ficou, porém, para a próxima semana.

O decreto não veio, embora no momento não precise nem ser cientista para observar o rápido avanço da contaminação. A jornalista Cileide Alves compartilhou em sua conta no Twitter uma matéria do site Poder Goiás, com o título “Rogério Cruz adia anúncio de medidas restritivas em Goiânia para quarta-feira, 19”. Completou com o seguinte comentário: “Por certo (a) ômicron vai descansar no fim de semana à espera da decisão daqui a cinco dias”.

Foi um comentário um tanto sarcástico? Sim, mas feito para seus seguidores e sem nenhuma crítica pessoal.

Rogério Cruz – que recentemente passou por sua segunda infecção pelo coronavírus –, porém, parecendo se sentir pessoalmente atingindo, “apareceu” para responder ao tuíte: “Por certo que não! Mas eu, a equipe da saúde (sic) e os que estiveram na reunião de ontem, estaremos trabalhando também para tratarmos desta pauta. Você não tem conhecimento dos detalhes da reunião.”

A resposta, no mínimo ríspida, foi a deixa para que Cileide, em seu papel de questionar para melhor informar – aliás, papel de qualquer bom repórter –, perguntasse ao prefeito: “Tenho as informações divulgadas pela @prefeituradegyn em nota em seus vídeos. Há mais informações não divulgadas?”, replicou. “Os detalhes são que os produtores de eventos se propuseram a reunirem neste fim de semana para levantar e repassar as informações à Saúde. Isto para que uma decisão seja tomada com a maior brevidade possível, observando o momento sanitário e a manutenção do emprego”, tornou Cruz.

“Esses detalhes eu conheço, que são esperar as decisões deste setor até a semana que vem. Enquanto isso…”, reagiu a jornalista, deixando o prefeito irritado: Não senhora! A senhora não sabe os detalhes do que foi dito na reunião. Enquanto isso, nós como bons cidadãos e conhecedores dos fatos, precisamos nos unir para orientar as pessoas, e por favor, ao invés de usar o poder que tem na comunicação para confundir, ajude a construir.”

A irritação do gestor não se justifica. O “poder” da comunicação social, a que o próprio Rogério Cruz se refere, está em ser veículo para o repasse de informações claras que possam ser aproveitadas por quem a recebe – no caso, pelo menos, a sociedade goianiense.

O fato é que o prefeito tropeçou na própria fala desde a primeira resposta, não tanto pelo tom rude como por ter deixado implícito que o comentário de Cileide estava prejudicado porque ela não conhecia os “detalhes da reunião” (realizada com representantes do setor de eventos, ressalte-se). Ora, se os tais “detalhes” fizeram com que fosse adiado um decreto para evitar maior contaminação da população, haja vista todos os alertas, a única coisa que qualquer autoridade pública responsável deveria fazer era divulgá-los amplamente. O nome disso é transparência.

O bate-boca virtual terminou com uma carteirada às avessas de Cruz: ao ressaltar o poder da profissional, o prefeito diz que ela o usa para “confundir”, enquanto “precisamos nos unir” – no caso, poder público e imprensa, supõe-se – “para orientar as pessoas”.

Quem parece confuso, no caso, é o prefeito. Foi justamente para orientar as pessoas que ele foi questionado sobre detalhes da reunião. A pandemia está menos mortal, por conta da vacina, mas as pessoas precisam estar esclarecidas sobre os riscos que correm. O adiamento de um fim de semana cheio de eventos certamente não terá impacto positivo no recrudescimento do quadro de contaminação.

As referências que todos os que convivem mais proximamente com Rogério Cruz é de que ele é uma pessoa gentil, acessível e dinâmica. Como administrador de uma metrópole no entanto, lhe está faltando uma qualidade importante: a de homem público transparente em seus atos. Foi assim com a questão do Código Tributário, novamente com o envio do Plano Diretor e, agora, nesse episódio de desgaste evitável por conta da pandemia.

O destino pôs no caminho de Rogério Cruz, há um ano, a oportunidade de gerir Goiânia que foi dada pela população a Maguito Vilela. Não só os jornalistas, mas toda população goianienses, espera que ele dê o melhor de si – inclusive em transparência.

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