Euler de França Belém
Euler de França Belém

Quentin Tarantino mistura brutalidade da literatura de Faulkner ao cinema cruento de Sam Peckinpah

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Poucos escritores são tão brutais quanto William Faulkner, autor de “O Som e a Fúria”, “Luz em Agosto” e “Absalão, Absalão!” Mas a brutalidade que descreve é menos uma invenção literária e mais um fato da vida. Não é um artifício para atrair leitores. Poucos autores mostraram tão bem, sem a típica retórica americana, a maldição da escravidão.

Porém, se a literatura é a arte suprema — a que mais se aproxima é a música, que às vezes é literatura oralizada —, cinema não é arte; é entretenimento. Quem o percebe como arte são os críticos, cada vez mais numerosos, dada a vitalidade da internet — a meca das oportunidades culturais. Os espectadores, se não persuadidos pelos críticos, percebem o cinema como mero entretenimento. Trata-se, por vezes, de divertimento de primeira linha.

É provável que o diretor Quentin Tarantino, narrador tão implacável quanto Faulkner, perceba o cinema tão-somente como entretenimento, ainda que saiba refiná-lo — estetizando a violência, diriam adeptos, conscientes ou inconscientes, da Escola de Frankfurt — e torná-lo artificioso.

Tarantino choca pela violência, que parece desmedida — a vida supera seus filmes, mas a violência exposta na sala de anatomia que se tornam as salas dos cinemas é mais brutal —, porque a adorna, quase repetindo as cenas, e porque parece tomá-la como um fato do cotidiano. Uma segunda pele do indivíduo.

O filme “Os Oito Odiados” é drama, comédia e western. O “Estadão”, no qual militam ótimos críticos de cinema, chegou a mencionar John Ford — o Ingmar Bergman das pradarias — e Anthony Mann como “padrinhos” do filme de Tarantino. Aqui e ali — a diligência e os personagens durões — há ecos de Ford e Mann. Ecos, porém não marcas muito acentuadas. O pai ou avô do ótimo (mesmo admitindo-se que há certa chatice palavrosa e enrolada) “Os Oito Odiados” é o excelente “Meu Ódio Será Sua Herança”, filme de Sam Peckinpah.

As cenas de violência, pacientemente montadas, dando a ideia de que o espectador examina-as com um microscópio eletrônico — pode repassá-las —, ecoam Sam Peckinpah, um grande diretor. A falta de linearidade da história lembra, e não vagamente, as histórias de Faulkner, quase sempre intrincadas e descontínuas. Tarantino nos dá a verdade aos poucos, dosando-a — como se fosse uma Emily Dickinson de calça: “A verdade há de deslumbrar aos poucos/Os homens — p’ra não cegá-los”.

Os homens de Tarantino estão cegos aparentemente pela cobiça, mas, de algum modo, buscam alguma coisa a mais — uma carta de Abraham Lincoln, falsa ou verdadeira, sabe-se lá. A verdade “chega” e é exibida, com os jogos (inteligentes e maliciosos) de todos explicitados, por meio de um poderoso strip-tease visual e palavras candentes, quase declamadas, como se as personagens estivessem num recital de poesia.

Críticos apontam que a violência é, por vezes, gratuita. E, como na vida, é. Tiros que destroem cabeças mais espantam do que chocam, quem sabe. Parecem desnecessários. Mas a Guerra Civil Americana, na primeira metade da década de 1860, que opôs o Sul, os Confederados, ao Norte, os ianques de Lincoln, Ulysses S. Grant e George Sherman, foi tremendamente brutal. Mais de 600 mil pessoas foram mortas e milhares ficaram feridas e mutiladas. As armas não eram tão poderosas quanto as atuais — mata-se hoje com certa distância asséptica, por assim dizer —, o que, paradoxalmente, reforçava ainda mais a crueldade das batalhas.

“Os Oito Odiados” conta histórias do pós-Guerra Civil — terminada em 1865, com o grande Lincoln assassinado, num teatro, por um sulista —, quando as brutalidades não haviam cessado.

Samuel L. Jackson (o major Marquis Warren) — notável mesmo quando canastrão — e Kurt Russell (John Ruth), que lutaram na Guerra Civil, são agora caçadores de recompensas. O primeiro prefere entregar os procurados pela Justiça mortos. O segundo, numa ética diferente, a dos durões relativamente honrados do Oeste, entrega suas presas vivas, para serem julgadas. John Ruth (Russell) leva a criminosa Daisy Domergue (a formidável Jennifer Jason Leigh), mulher de boca suja, cuspindo literalmente e cuspindo palavras bravias, como se estivesse atirando com a língua, para ser enforcada. Daisy é tão brutal quanto os homens — todos filhos do Oeste selvagem, com seus próprios códigos, sem dúvida vitais para sobrevivência à época. Os personagens não se chocam com nada e nem se assustam. A vida endurecia o corpo e a alma.

Tarantino parece fazer discursos, com imagens e textos — sabe casá-los às vezes com perfeição —, e, como Faulkner, percebe que a maldição da escravidão não é superável. Permanece viva em cada ser — branco ou negro. O fim da escravidão, abolida pelo presidente Lincoln — homem de gênio, leitor de Shakespeare e autor de uma prosa extraordinária, que teria influenciado a literatura enxuta norte-americana, de Mark Twain a Ernest Hemingway, na avaliação do crítico Edmund Wilson —, não eliminou as chagas profundas que dividiram os homens antes, durante e depois da Guerra Civil. Embora pareça retórico, além de dado à grandiloquência, Tarantino mais mostra do que demonstra. Ao modo de Faulkner. A violência era um fato (e fardo) da época (e de hoje) e o diretor não tem pejo em mostrá-la em toda a sua crueza — chocando os puros da aldeia, especialmente os críticos de cinema. O major Marquis Warren é uma espécie de Sherman negro. Tão virulento quanto.

Veja o trailer do filme:

Os heróis são todos vilões

Não surpreende que, para recontar a história da e do pós-Guerra Civil, Tarantino tenha usado oito criminosos — os caçadores de recompensa não são, a rigor, homens da lei e o suposto xerife, Chris Mannix (Walton Goggins), parece tudo, menos um xerife. Os sete homens — o fato de serem sete é uma referência a outro filme de western — e a mulher são bandidos sem nenhuma piedade. Vítimas e sujeitos da imensa batalha que, terminada, levou, anos depois, os Estados Unidos a se tornarem uma potência industrial e imperialista. Mas, no meio tempo, prevaleceu o banditismo em várias partes do país. Lincoln queria pacificar os Estados Desunidos, mas, como morreu, sua causa resultou, num primeiro momento, relativamente perdida. Os sulistas sofreram profundamente nas mãos dos vitoriosos nortistas — tanto que muitos escaparam do país. Alguns mudaram-se para o Brasil, onde fundaram colônias em São Paulo, Rio de Janeiro e Pará. A família da cantora Rita Lee — e Lee é uma referência ao extraordinário general confederado Robert Lee — é de origem sulista. Tarantino mostra que, com a relativa falência do Estado, os homens estavam por conta própria. Eram, digamos, o mercado e, também, o Estado. A lei e a falta da lei. O western “Os Oito Odiados” conta uma história alternativa. O western é isto: uma história paralela. O lado “B” da história americana.

A bela música de Ennio Morricone “colore” o filme, tornando-o ainda mais um western (de “interiores”, como anota a crítica especializada).

Os críticos, para apreciar os filmes e para convidar os leitores e espectadores a apreciá-los, deveriam levá-los menos a sério. É o excesso de pretensão dos críticos que “piora”— e, às vezes, “melhora” — os filmes.

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