Euler de França Belém
Euler de França Belém

Publicação de todos os contos revela uma Clarice Lispector poderosa como escritora

46284675A edição do livro “Todos os Contos” (Editora Rocco, 656 páginas) é de rara utilidade pública. Primeiro, porque atesta que Clarice Lispector é mesmo uma contista de primeira linha. Segundo, porque é possível perceber que há textos de segunda linha. Terceiro, e sobretudo, o leitor terá elementos para avaliar sua obra de maneira mais objetiva.

Nem tudo de Clarice Lispector é bom, mas muito da autora é excelente. Como se tornou um mito, a Machado de Assis de saia, há uma tendência a considerar que toda sua obra é como “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Que se trata de uma escritora brilhante, com mais altos do que baixos, não há a menor dúvida. Mas que só escreveu obras-primas, sem obras-madrastas, é papo de leitores-fãs.

Há uma espécie de Estado Islâmico pró-Clarice Lispector. Os que se atrevem a mencionar uma ou duas inconsistências, aqui e ali, logo são alvos de artilharia pesada. Pode-se dizer que a religião literária do Brasil — que Benjamin Moser, organizador dos contos e autor de uma biografia seminal da autora, espalha pelo mundo — é a “claricelispectormania”.

De resto, é muito importante que o leitor brasileiro possa pôr os olhos e as mãos na obra completa — contos e romances — de Clarice Lispector. A obra de um escritor é sua melhor biografia. No caso de Oscar Wilde, pelo contrário, a biografia é a grande obra.

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