Euler de França Belém
Euler de França Belém

Protesto das ruas é o primeiro impeachment contra Dilma Rousseff produzido pelos brasileiros

O PT permanece no poder, mas perdeu o Brasil, que disse não à continuidade da presidente no governo

Protesto de Goiânia em março de 2016 foto 494912331-4583-455b-8bfd-ff19a83b7d41

O leitor que foi à Praça Tamandaré, imediações — a praça não foi suficiente para acolher todos os manifestantes — e, depois, à sede da Polícia Federal, onde terminou o protesto, deve ter passado pela mesma via-crúcis. As ruas próximas da Praça do Ratinho (ou do que restou dela) estavam superlotadas de automóveis. Encontrar uma vaga para estacionar era uma missão quase impossível. Muitos motoristas tiveram de estacionar nas proximidades do edifício Excalibur e do Restaurante Vitória, no Setor Marista. Isto, de cara, sugeria que a multidão que estava nas ruas para protestar contra o governo de Dilma Rousseff, para pedir seu impeachment, renúncia ou cassação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e para condenar a corrupção — o governo do PT teria criado uma Corruptobrás —, era gigante. Ao chegar à porta da Academia Body Tech, o mundo, até então opaco, mudou de cor: tornou-se amarelo. Havia uma multidão nas ruas. Todos desciam rumo à Praça Tamandaré, no Setor Oeste, mas descobriram logo que a multidão em movimento marchava rumo a Avenida 85. A marcha era pacífica, apesar dos clamores fortes das pessoas, e democrática. Cada grupo, aparentemente sem partidarização ou com escassa partidarização, dizia mais ou menos o que queria, mas sempre focando o governo da presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula da Silva e o juiz Sérgio Moro, da Operação Lava Jato.

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Muitos se surpreenderam com a marcha crítica mas pacífica. Uma parada era necessária para observar a extensão da manifestação. Passava gente, passava gente, passava gente — a maioria vestida de amarelo, notadamente as camisetas, e por vezes de verde. Não parava de passar gente — o que faz pensar que, de fato, não apenas 30 mil participaram do protesto, e sim cerca de 60 mil pessoas. Há muito tempo, há muito tempo mesmo, Goiânia não via tanta gente reunida — nem mesmo em dia de jogo entre Goiás e Vila Nova ou Goiás e Flamengo (quando Brasília envia uma quantidade imensa de torcedores para a capital goiana). O povo de amarelo deste domingo, 13, quase equivale à multidão reunida pelo comício das Diretas Já, na década de 1980.

De onde saía tanta gente? Não dá para falar em coxinhas. Afinal, Goiânia não tem tantos coxinhas assim, não. Eram integrantes das classes médias, que finalmente aprenderam a protestar, a não ter vergonha de reclamar dos equívocos dos governos. Era gente que trabalha, era gente que produz. Havia ricos, sim—como Otavinho Lage, o potentado de Goianésia —, mas a maioria absoluta era gente de classe média (gente que só com o Imposto de Renda entrega quase 30% do seu salário todo mês para o governo gastar mal). Até ex-petistas, envergonhados, apareceram.

Protesto da ruas vanderley

Todos os corruptos na cadeia

De repente, uma faixa chama a atenção, marcando a independência da marcha (ou de parte da marcha; na verdade, a marcha continha várias marchas): “Queremos todos os corruptos na cadeia, independente de partido”. É um sinal para todos—não só para os petistas, pepistas e peemedebistas investigados pela Lava Jato e outras operações. O brasileiro, não só a classe média, está cansado, até muito cansado, de ser ludibriado por aqueles que dizem representá-lo. Os líderes do PSDB, do PPS, do PSB e da Rede que não se enganem: a insatisfação é geral e, por isso, não é partidária. A sociedade, com uma de suas armas mais eficientes — a presença nas ruas (a outra é o voto) —, está dizendo que não dá mais, que é preciso reinventar o país, mas não com belos discursos, e sim com práticas efetivamente democráticas.

Ao mostrar confiança em Sérgio Moro, o juiz da Lava Jato, o indivíduo das ruas está “agarrando-se” em alguém em que confia. Quer dizer: para a maioria dos manifestantes, Sérgio Moro é a Justiça, a Justiça que funciona e não serve a interesses de “A” ou “B”. Serve à Justiça e, portanto, à sociedade. Os cartazes, grande parte de cartolina, continham palavras de confiança: “Sérgio Moro — Fim da Impunidade”, “Vim de Graça! Moro, prende a jararaca”, “Tamo Juntos Sérgio Moro — Pau na máquina: vamos passar o Brasil a limpo” e “Apoiamos o juiz Sérgio Moro”.

Protesto das ruas em Goiânia em 13 de março de 2016

Quase chegando à Avenida 85, um grupo pede palmas para Sérgio Moro. As pessoas batem palmas. Quase não param de bater palmas. Elas dizem: “Nele a gente pode confiar”. É a mesma confiança que se tinha, no julgamento do mensalão, no então presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. O brasileiro descobre, aos poucos, que as instituições funcionam, que pressões de poderosos, como Dilma Rousseff e Lula da Silva, incomodam mas nem sempre surtem efeito. Mais do que o Legislativo, que bate “continência” quando as verbas do Orçamento da União são liberadas, especialmente se junto saírem cargos importantes, o Judiciário tem contribuído para barrar a “gula” do Executivo. Assim como a Imprensa, com a publicação de denúncias, tem acossado os acomodados e dado apoio aos que querem de fato agir para conter a corrupção.

Protesto das ruas foto feita por Candice em 13 de março de 2016

Mal as pessoas param de aplaudir Sérgio Moro, passando a observar e a ouvir uma mulher, postada em cima de um caminhão, clamar em voz alta: “Lula, cachaceiro, devolve o meu dinheiro!” Com seu bom humor típico, as pessoas repetiam: “Lula, cachaceiro, devolve o meu dinheiro!” Ao lado do repórter, um bancário aposentado corrige: “Não importa a cachaça, não; todos bebem o seu melzinho. Mas ele precisa devolver o dinheiro do povo”. As palavras, na sua opinião, deveriam ser outras: “Lula, seu ladrão, devolve o meu dinheiro!” O bancário votou três vezes em Lula da Silva para presidente. Está arrependido. “Joguei meus anos de crença fora.” Qual é o seu nome, pergunta o repórter. “Põe aí: Enganado da Silva”. Está posto.

Protesto das ruas em Goiânia foto 9

Quando a bonita moça do caminhão passa, deixando as pessoas com palavras críticas a Lula na boca, aparece um grupo carregando, acima das cabeças, uma cobra vermelha — uma jararaca com raiva, por certo. A cara da cobra não é sua cara — é a cara de Lula. A língua, venenosa, aparece — e é vermelha. Ao lado, um homem surge com um pau disposto a bater na cobra. Querem tocar na jararaca, quer dizer, no Lula. Ou melhor, querem socá-la. É uma catarse coletiva. A crítica é dura, mas usa as palavras recentes do ex-presidente, que se disse uma jararaca depois de ser levado para depor, de modo coercitivo, pela Polícia Federal — tudo com autorização da Justiça, quer dizer, não houve nenhuma ilegalidade. A cobra, sua exposição em praça pública, mostra também humor. O brasileiro protesta, mostra-se indignado, mas sabe rir do trágico — o que, a rigor, representa sanidade.

Protesto em Goiânia em 13 de março de 2016 foto 8 ce4d66e7-c47b-4dba-8c49-880d3a4249db

Pouco depois da cobra — que, de tão grande, parece mais uma sucuri—, um grupo de jovens apresenta uma faixa com os dizeres: “O brasileiro unido é invencível. Vamos esmagar a jararaca”. A palavra brasileiro está escrita na cor verde. A frase “a cabeça da jararaca”, numa menção ao PT, está grafada em vermelho. Apesar da palavra “esmagar”, o grupo e a manifestação são pacíficos — lembrando o indiano Gandhi.

Crianças, jovens e velhos, mulheres e homens — todos cantam, logo depois, o hino nacional. Alguém puxa o cantar, mas todos cantam direitinho, sem errar a letra e o tom, e sem nenhum ensaio. Tudo espontâneo.

Na trincheira da Avenida 85, construída pelo peemedebista Iris Rezende, ex-parceiro do PT em Goiânia, as pessoas, incentivadas por jovens que estão num caminhão, começam a cantar “Caminhando” ou “Para Não Dizer Que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré. É um belo momento. E um sinal de que não se trata de um movimento de direita, de um movimento golpista — aliás, ninguém falou de golpe durante o protesto, nem os aloprados de sempre. Trata-se, muito mais, de um movimento cívico (nacionalista, talvez), sem controles partidários diretos. Que ninguém se engane: havia militância no protesto—tucanos, democratas e integrantes do PSB e do PPS—, mas não teve coragem de expor suas bandeiras, de explicitar suas ideias. Pode-se dizer que os militantes seguiram e obedeceram a multidão e, dada a variedade dos cartazes — sugerindo até certo anarquismo —, é provável que as oposições nada guiaram. Pode-se sugerir, por fim, que houve um encontro entre as ruas e as oposições, mas com objetivos diferentes. O povo das ruas não quer limpeza apenas contra PT, PMDB, PP e PR. Quer limpeza geral. Faixas sugerindo independência puderam ser vistas ao longo do percurso. Mas, no momento, o que se quer é arrancar o PT do poder, por intermédio do impeachment, da renúncia da presidente Dilma Rousseff ou da cassação do mandato pela Justiça. Nada de golpismo, insista-se.

Protesto em Goiânia em 13 de março de 2016

Marx e Mises

No alto da trincheira da Avenida 85, um jovem negro, com jeito de intelectual, aparece com um cartaz que provoca, num primeiro momento, estranhamento, sobretudo pelo radicalismo suave e inteligente: “- Marx + Mises”. Karl Marx todos conhecem. É o alemão que se tornou “pai” do comunismo (Lênin e Stálin são padrastos). Ludwig Heinrich von Mises (1881-1973), economista e filósofo, defendia a liberdade econômica como base da liberdade individual. O manifestante quis dizer mais ou menos o seguinte: menos esquerdismo e mais liberalismo. É provável que a cartolina, com dizeres tão candentes, não tenha sido nem percebida ou, quem sabe, entendida por parte dos manifestantes.

Ao lado do cartaz em que se pede mais Mises — mais mercado e menos Estado —, dois homem seguram uma faixa mais sofisticada tecnicamente, confeccionada num plástico de qualidade, em que se propõe a privatização da Celg e da Petrobrás. São dois momentos liberais numa manifestação mais, digamos, nacionalista (ou, vá lá, cívica), de centro, do que liberal ou de direita.

Protesto Dilma Rousseff

“País mudo não muda”

Depois da onda liberal, que choca a esquerda ortodoxa — que, no poder, ganha ares liberais (é o significado de Henrique Meirelles no Banco Central, no governo de Lula da Silva) —, uma mulher de cerca de 40, bonita e circunspecta, mostra um cartaz lacônico e preciso: “País mudo não muda”. Ao lado, pixulecos são balançados de um lado para o outro.

Lembra-se dos enforcamentos dos filmes de faroeste? Pois de repente Lula da Silva aparece no cadafalso — enforcado e com roupa de presidiário. Atrás e na frente, jovens com os rostos e até os cabelos pintados de verde gritam palavras de ordem: “Lula corrupto!” e “Fora PT!” Parecia o clima do comício das Diretas Já!, em que o slogan “Fora Ditadura!” foi trocado por “Fora PT!” O PT é a “ditadura” a se remover do poder.

Um jovem de mais ou menos 18 anos faz um protesto solitário, com um cartaz malfeito mas com palavras candentes: “Quero o meu país de volta!” As palavras indicam o desencanto de um garoto que, com um pincel e uma cartolina, confeccionou um cartaz para dizer aos políticos e à sociedade que “roubaram” o seu país e que, por isso, o requer — passado a limpo.

Protesto mulheres contra Dilma Rousseff

Começa uma chuva fina, que engrossa e volta a afinar. As pessoas se dirigem para a sede da Polícia Federal, em frente ao campo do Goiás Esporte Clube. A chuva esvazia um pouco a manifestação, mas a maioria segue pela Avenida 85, sem se incomodar com os pingos e as gotas.

A chuva borra um cartaz, mas é possível ler o maldizer: “PT — A Zika do Brasil. Impeachment!” Um homem de 70 anos não desiste de seu cartaz: “Fora Dilma. Buzine!” A música de Geraldo Vandré continua, agora como se fosse um hino a respeito do fracasso do PT no poder. As pessoas gritam e, depois, dão-se as mãos, irmanando-se. Elas cantam: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber,/Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Algumas pessoas parecem emocionadas, algumas passam as mãos nos olhos discretamente. Muitos clamam: Justiça!” e, em seguida, um grupo mostra uma faixa: “Força, juiz Moro! Fora corruptos!” Fala-se, num grupo, de um “reencontro” entre o povo e o Brasil. Entre a nação e as ruas.

Três mulheres, de camisas amarelas e shorts, carregam uma frase sugestiva: “Quem dorme numa democracia acorda dentro de uma ditadura”. O PT quer instalar uma ditadura? Não parece, nem há condições para tal. Mas há mesmo correntes autoritárias no partido, que querem o controle da Imprensa e do Ministério Público. As mulheres estão certas: não se pode dormir no ponto quando se trata de defender a democracia. Os rostos delas expressam, a um só tempo, indignação e esperança. Indignação com a corrupção, a da Petrobrás e outras, e esperança em dias melhores. O protesto é o começo de alguma coisa. Promotores e magistrados que não temem os poderosos é outro começo. É o primado do Brasil institucional.

Protesto contra Dilma o pt morreu

Um homem de bigode farto, aparentando ter uns 60 anos, carrega um cartaz discreto: “Apoio à Polícia Federal”. Ao lado, um jovem, com seu cartaz meio hippie, é assertivo: “Fora petralhas!” Uma jovem loira exibe um cartaz irônico: “Somos palhaços. Fora!” Numa cadeira de rodas, um homem sugere: “Mais Brasil, menos corrupção”. Uma mulher de pouco mais de 30 anos, com seu pastor belga branco, integra-se à manifestação, subindo a Avenida 85 e caminhando para a sede da Polícia Federal.

Numa caminhonete, transformada em palanque, quatro homens criticam o governo de Dilma Rousseff e o PT e, em seguida, articulam pregações religiosas, evangélicas. Alguém grita: “O Estado é laico”. Sem agressividade, um ocupante do veículo responde: “Mas o país é democrático”. Ficou por isto mesmo e não houve mais discussão. Os contendores querem mais a saída de Dilma Rousseff do governo federal do que discutir a separação entre Igreja e Estado.

A moça que gritou que o Estado brasileiro é laico pegou seu cartaz e o expôs: “Quem tem medo de jararaca, seu babaca!” Uma referência agressiva à agressividade de Lula da Silva. Sua colega exibe outro cartaz: “Prendam o Lula!” Não são militantes políticas — são estudantes.

Uma faixa mostra a indignação da Maçonaria com a “corrupção generalizada” no governo de Dilma Rousseff.

Protesto jovens contra Dilma

Durante a manifestação, como ninguém é de ferro e a crise está instalada—com milhares de desempregados sobrevivendo graças a bicos —, homens e mulheres vendem água (a 3 reais), sombrinhas e guarda-chuvas, picolé (a 1 real e 50 centavos), cerveja, refrigerantes e até capas de chuvas (dessas baratinhas). Um dos vendedores, homem do povo, lamenta: “Lula é uma decepção”. Para o sr.? “Não, para todos”. Ao lado, dois homens, um negro e um branco, vasculham o lixo. Buscam latinhas de cerveja e refrigerante. No processo, derrubam e não pegam garrafas de vidro. Um deles diz, entredentes: “No Brasil só tem ratazana”.

A conclusão é óbvia: o PT mantém o poder, mas perdeu o Brasil, que ganhou as ruas. A presidente Dilma Rousseff perdeu o apoio dos brasileiros. É seu primeiro impeachment.

[Fotos de Candice Marques de Lima e Euler de França Belém. O vídeo abaixo foi gravado por Candice]

A música de Geraldo Vandré

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Uma resposta para “Protesto das ruas é o primeiro impeachment contra Dilma Rousseff produzido pelos brasileiros”

  1. O repórter que mora no sangue (ou seria no coração?) do Editor palmilhou as ruas e com um olho de observador privilegiado registrou com maestria o que foi o ato. E ao enxergar no catador de latas um pensamento agregador da massa, vê na mobilização (mob: bagunça no original inglês) uma ordenada direção rumo à mudança que as tratativas do alto (partidos, elite política, profissionais da política – com p minúsculo não querem enxergar:

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