Euler de França Belém
Euler de França Belém

Príncipe Charles, se for gay, fica mais nuançado e rico como homem. Jornais refletem preconceitos

Jornais, revistas e sites repercutiram a história de que o britânico é gay desde terça-feira. O Popular só descobriu o assunto na sexta-feira, 3

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Depois da publicação sensacionalista “Globe Magazine”, jornais, revistas e sites de praticamente todo o mundo deram a notícia de que o príncipe britânico Charles, de 67 anos, beijou um rapaz e, portanto, seria gay. O texto original saiu na segunda-feira, 30 de maio. Na terça-feira, 31, o Jornal Opção Online publicou a informação com destaque (e mais de 50 mil visualizações únicas). Na quinta-feira, 2 de junho, jornais, revistas e sites continuaram repercutindo a notícia. Pois o impoluto “O Popular” só descobriu o “palpitante” assunto na sexta-feira, 3, com um título anódino: “Tabloide publica que Charles beijou rapaz”. É notícia velhíssima, morta — exceto se tivesse um enfoque diferenciado.

“O Popular” prova que é sempre o primeiro a chegar atrasado às notícias batidas da internet. Tanto que disse que a notícia saiu no fim de semana, quando foi publicada na segunda-feira, 30.

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Curiosamente, as publicações brasileiras repetiram os preconceitos de sempre contra os gays — como se fossem uma “aberração”. Segundo elas, endossando o tabloidismo doidivana, os filhos de Charles estariam se sentindo humilhados e sua mulher, Camila Parker-Bowles, pediu ou irá pedir o divórcio. É muito escândalo por muito pouca coisa.

Primeiro, não há mácula alguma em ser homossexual. Segundo, se for mesmo gay, Charles, ao menos para mim, se torna um ser humano mais nuançado e complexo — menos unidimensional. Torna-se um homem mais rico.

Terceiro, duvido que os ingleses da nobreza, mesmo os familiares, estejam “ofendidos”, “humilhados” ou “indignados”. Durante anos, a Inglaterra lidou mal com a homossexualidade, punindo os gays, como os brilhantes Oscar Wilde e Alan Turing. O maior sociólogo patropi, Gilberto Freyre, estudou na Inglaterra e relatou que era praxe mesmo aqueles que se consideravam heterossexuais manterem relações sexuais com homens. O brasileiro admite que se relacionou com outro homem.

Mas hoje, apesar dos preconceitos de qualquer sociedade — umas são mais e outras são menos tolerantes —, a Inglaterra é “aberta” para os homossexuais.

Por fim, a impressão que resulta das várias publicações, todas ecoando o sensacionalismo americano e inglês — jornais da Inglaterra, notadamente, e dos Estados Unidos apostam alto no sensacionalismo mais rastaquera —, é que os jornais, revistas e sites brasileiros contribuíram para reforçar preconceitos contra Charles e os gays em geral. Poderiam ter feito uma análise da qualidade do jornalismo do exterior, mostrando que explora os baixos instintos, mas ficaram quietos, tão-somente repercutindo a “abobrinha” de que o príncipe é gay — como se isto tivesse mesmo alguma importância.

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