Porta dos Fundos tenta ser o Python tupiniquim num país sem censura

Diante de tanta besteira sem pé nem cabeça, é melhor que não fiquem curiosos e não percam o tempo

João Paulo Teixeira

Especial para o Jornal Opção

Monty Python é neném de berçário perto do especial do Porta dos Fundos, este ano, na Netflix. O vídeo de 46 minutos do streaming mais famoso do mundo serve apenas para uma coisa: provar com todas as hipóteses que não há censura no Brasil.

Nenhum crítico do governo Bolsonaro, por exemplo, ou mesmo um historiador, daqui a 200 anos, pode ver esse especial do Porta e dizer que há (ou havia) mecanismos de travamentos ideológicos em terras tupiniquins no início do século 21. Definitivamente nada para “a arte” quase no ano 2020.

Será que é o movimento antropofágico de nossa era? Confesso que desconheço se tem a mesma capacidade racional de um Oswald de Andrade e de uma Tarsila do Amaral. Afirmo apenas que eles ultrapassam todos os limites possíveis, inimagináveis.

Não só ultrapassam, mas explodem, literalmente, um Lúcifer homossexual, que havia tentado (e conseguido, como ele diz) Jesus no célebre retiro no deserto narrado na Bíblia.

A salada maluca começa com os diálogos absurdos dos reis magos catando presentes no meio do caminho e terminam com um Deus convidando Maria para morar em Urano (que!) alegando que “qualquer um toca esse planeta”.

Há poucos momentos hilariantes, como o diálogo de Jesus com Jah, Shiva e Buda, e a música de Porchat, que é perturbadoramente bem escrita — mas é só.

O resto é uma mistura de um roteiro que parece feito por adolescentes, com Jesus e Orlando dando “hadukens e kamehamehás” e um José que é “especialista em móveis planejados” e vive perdendo um braço (que?!).

Todo soa totalmente absurdo, mas é isso que você verá se quiser dar um play nessa pequena porcaria (não se quer, claro, ofender os porcos — tão úteis, inclusive nas válvulas para salvar os corações humanos).

Junta-se tudo isso a partes que são totalmente desnecessárias, como a entrada de “Tânia”, amiga dos Romanos, e “Lázaro”, que no livro santo e, lá também, sempre ressuscitam depois de um susto.

Digo que, além do nonsense, outro debate suscitado pelo especial é tão antigo como os da época de Jericó (repare o pôster do JericóBoys): o humor tem limites e a arte possui barreiras? Há séculos se tenta responder e, confesso, estou certo de que não consigo matar essa charada hamletiana. Prefiro pensar que a pergunta é mais importante que a resposta.

O Porta, que é politicamente incorreto desde o DNA, nasceu da internet e fez seus astros milionários com a televisão. Fico-me a me perguntar como os prováveis evangélicos que assistem o talk-show “Programa do Porchat” na programação da TV Record reagiriam se o vissem interpretando um demônio que faz Cristo dançar “Macarena” e “Passa Negão, Passa Loirinha”. (Que?! ao cubo).

Se eu pudesse anunciar aos povos como fazem os profetas, diria a todos que é preferível que não se assista. E, se assistirem, que a vejam como uma piada de mau gosto.

Mas isso o próprio Tablet (Deus, no especial, e Quibe Loco, na internet) já o fez, no merchandising do produto, ao posar, como no meme famoso, depositando numa bacia: “uma pitada de “Com Deus não se brinca”, e duas porções’ de “O Porta já foi melhor”.

Ah, há também pequenas e vagas referências a célebres clássicos provocativos do cinema, como “A Última Tentação de Cristo”, filme de Martin Scorsese (vou escrever no Jornal Opção, em breve, sobre o seu ‘O Irlandês’, também na Neflix) com um Jesus Defoe apaixonado carnalmente por Maria Madalena, e ainda variações de “Jesus Cristo SuperStar”,  onde o Salvador é mais amante da propaganda e da fama que da Palavra.

Se você olhar muito de perto, também verá o sanguinolento filme de Mel Gibson, na parte que Jesus explode Satã como uma abiogênese. É isso mesmo. Então, diante de tanta besteira sem pé nem cabeça, é melhor que não fiquem curiosos.

João Paulo Teixeira é diretor da JPP Propaganda.

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