Euler de França Belém
Euler de França Belém

A polícia, a se aceitar o que diz O Popular, pode produzir “Mutirama — O Parque Assassino”

No afã de poupar o prefeito Iris Rezende, o presidente da Agetul e o supervisor do Mutirama, o Pop contribui para a tentativa de se produzir um bode expiatório

Adaptado de um livro do escritor americano Stephen King, o filme “Christine — O Carro Assassino”, de John Carpenter, fez sucesso. A coisa — objeto — que ganha vida, tornando-se sujeito, costuma impressionar no cinema. Porque é mais assustador, até, do que se fosse uma pessoa. Pois, a se aceitar uma reportagem de “O Popular” — “Engenheiro pode ser indiciado após parque apresentar documento”, de Thales Dias (que escreve “Twsiter” no lugar de Twister) —, a polícia de Goiás pode produzir, no inquérito “caçada ao bode expiatório”, “Mutirama — O Parque Assassino”, dirigido por… quem mesmo?

A reportagem, talvez dado seu caráter amadorístico, sugere, mais do que afirma, que os culpados pelo acidente que deixou feridos 11 pessoas, no Parque Mutirama, em Goiânia, são o engenheiro mecânico José Alfredo Rosendo Coelho e, diria Stephen King e John Carpenter, o próprio centro de lazer.

Tudo indica que, para tirar o foco do prefeito Iris Rezende e, talvez, de Alexandre Magalhães, presidente da Agência de Turismo e Lazer, a polícia irá indiciar não os “grandes responsáveis”, aqueles que se omitiram, e sim os “pequenos”, os do andar de baixo. Daí que o supervisor geral do Mutirama, Wanderley Alves Silveira — que demorou a aparecer nas reportagens do jornal —, apresentou um documento que “comprova” que o engenheiro José Alfredo era “responsável”, ainda que de maneira “voluntária”, pelo parque. O que Wanderley Alves e a polícia não conseguem explicar é: como o prefeito Iris Rezende e Alexandre Magalhães, além do próprio supervisor geral, aceitam que um não-funcionário, um voluntário, se responsabilize por um parque, sobretudo um parque apontado como “sucateado”? É um ato de responsabilidade (ou irresponsabilidade) administrativa — a manutenção de uma pessoa sem contrato legal — dos dirigentes, como Iris Rezende, Alexandre Magalhães e Wanderley Alves. A aceitação de um “funcionário” ilegal ou à beira da ilegalidade certamente será motivo para uma batalha quando o caso chegar à Justiça. O delegado Izaias Pinheiro, apontado como “extremamente capaz”, se indiciar José Alfredo, mas, se não atentar para o que se está sugerindo aqui, verá seu inquérito ser estraçalhado por advogados experientes e, mesmo, pela Justiça.

No quarto parágrafo da reportagem, “O Popular” assinala, talvez com o repórter incorporando o espírito do filme “Christine — O Carro Assassino”: “Apesar da confirmação do vínculo [frise-se que o jornal não apresenta cópia nem imagem do “documento”], o termo não possui força criminal para isentar o parque de um contrato formal ou registro em cartório, segundo o delegado”. O delegado, experimentado, percebeu que o “documento” é frágil, mas sem notar a principal razão da fragilidade: está sendo usado para tentar reduzir a responsabilidade dos principais agentes da Prefeitura de Goiânia, como Iris Rezende, Alexandre Magalhães e Wanderley Alves, na questão do acidente ocorrido no Mutirama. Já o “Pop” confere uma autonomia ao “parque”, como se fosse um ser vivo, portanto passível de responsabilidade penal. “O trabalho voluntário é legal, porém ele não isenta o parque da obrigação de possuir um engenheiro oficial que assine e reporte ao conselho sua responsabilidade”, afirma o repórter, mais uma vez, dando uma “vida” ao parque que ele evidentemente não tem e não pode ter.

Reificação

Do “Dicionário Básico de Filosofia”, de Hilton Japiassu e Danilo Marcondes: “A reificação é o último estágio da alienação do trabalhador, no sentido de que sua força de trabalho se transforma e valor de troca, escapando a seu próprio controle e tornando-se uma ‘coisa autônoma’”. De algum modo, a reportagem de “O Popular” transforma o Parque Mutirama numa “coisa autônoma”, em “Christine — O Carro Assassino”.

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