Euler de França Belém
Euler de França Belém

Poesia completa de Emily Dickinson finalmente sai no Brasil

Espécie de Hércules intelectual, Adalberto Müller é autor da missão, que parecia impossível, de traduzir toda a poesia da Shakespeare dos Estados Unidos

Pense na “Ilíada” e na “Odisseia”, de Homero, e na “Eneida”, de Virgílio. Pensou? Pois é isto e aquilo: a “Ilíada”, a “Odisseia” e a “Eneida” da poesia americana, um feito de Emily Dickinson, finalmente estão chegando ao Brasil. Um entusiástico Harold Bloom comparou a poeta a Shakespeare — seria a Shakespeare do país de Abraham Lincoln — e, claro, ao pai-fundador da grande poesia dos Estados Unidos, Walt Whitman.

Yes, nós temos um Hércules da tradução, Adalberto Müller. O professor da Universidade Federal Fluminense teve a ousadia qualificada (algumas traduções foram publicadas na revista “Cult”, explicitando sua perícia e percepção) de traduzir toda a poesia de Emily Dickinson, uma das maiores poetas americanas. Ao lado de Walt Whitman e Marianne Moore, vale uma civilização. Ela e Whitman construíram, digamos, a nova Roma poética dos Estados Unidos.

São 1.800 poemas. Durante sete anos, Adalberto Müller “comeu” e “bebeu” Emily Dickinson, munido da coragem de Heitor, Aquiles e Eneias. O primeiro volume — com 888 páginas — está chegando às livrarias, numa parceria das editoras da Unicamp e da UnB — o que revela, tanto pela tradução quanto pela edição, a excelência acadêmica do Brasil (um meio tão depreciado, nos últimos dois anos, pelo governo de Jair Bolsonaro, líder de uma direita retardatária e anti-iluminista). O livro já pode ser adquirido nos sites das livrarias Travessa e Amazon. Os editores ainda não fixaram data para o lançamento do segundo volume.

Emily Dickinson

No sábado, 16, o repórter Ubiratan Brasil, do “Estadão”, publicou ótima reportagem-comentário a respeito do lançamento, sob o título de “Pela primeira vez, 1.800 poemas de Emily Dickinson são traduzidos”. O jornalista ouviu Adalberto Müller, uma ponte segura, pelas versões que li na “Cult”, para a travessia da poesia da autora que, em vida, publicou tão-somente dez poemas. Porque não quis publicar. Num poema, frisa que publicar é como leiloar a consciência. Só um bom verso, claro, porque, não publicá-la, e na íntegra, seria um desserviço à poesia, à cultura, à civilização.

Adalberto Müller disse ao “Estadão”: “É uma poesia que concilia um mergulho na linguagem com incursões filosóficas por territórios em que poucos escritores foram capazes de chegar”.

Ubiratan Brasil nota que a edição é apurada, com “notas explicativas e as chamadas variantes, ou seja, outras versões do mesmo poema. As margens das páginas contêm as alternativas (palavras ou expressões) que a própria Emily Dickinson anotava, como possíveis substituições a serem feitas”.

Emily Dickinson, poeta americana que viveu 55 anos entre 1830 e 1886, escreveu num poema: “A Verdade há de deslumbrar aos poucos/Os homens — p’ra não cegá-los” | Reprodução

Adalberto Müller assinala que, “apesar de haver escrito na segunda metade do século 19, Dickinson é bastante contemporânea, pelos temas de que trata (fama, anonimato, fobia social, amor lésbico, crise religiosa, preocupação ambiental). Por isso, da mesma forma que buscava a beleza, capaz de arrepiar, ela buscava a verdade dos fatos, inclusive científicos — tinha um conhecimento incomum de botânica, astronomia e geologia. Ela também escreveu sob o impacto da Guerra Civil (1861-1865) e da ‘polarização’ extremista. Seu pai e amigos eram abolicionistas, lutavam pela causa indígena e Emily conviveu com imigrantes”.

Há excelentes tradutores da poesia de Emily Dickinson no Brasil: Idelma Ribeiro de Faria, Aíla de Oliveira Gomes, José Lira (o que havia traduzido as coletâneas mais amplas até agora, antecedido, em menor escala, por Aíla de Oliveira Gomes e Augusto de Campos). A excelente biografia “The Life of Emily Dickinson” (Harvard University Press, 821 páginas), de Richard B. Sewall, está por traduzir.

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