Euler de França Belém
Euler de França Belém

“Contos de Kolimá”, o melhor livro de 2015, vem da velha e onipresente Rússia

A obra mostra a brutalidade dos campos de trabalhos forçados criados por Stálin na Sibéria. Um conto relata os últimos dias do poeta Óssip Mandelstam

“Contos de Kolimá”, de Varlam Chalámov: uma obra-prima da literatura testemunhal da Rússia

“Contos de Kolimá”, de Varlam Chalámov: uma obra-prima da literatura testemunhal da Rússia

Há quem avalie que a literatura russa é muito diferente da literatura ocidental e por isso é difícil, senão impossível, incluir Púchkin, Gógol, Dostoiévski, Ivan Turguêniev, Liev Tolstói e Tchekhov — ou alguns deles, sobretudo Tolstói — num cânone ao estilo do elaborado pelo crítico literário americano Harold Bloom (que “canoniza” o autor de “Guerra e Paz” e “Anna Kariênina”). Eles seriam diferentes, até muito diferentes. O fato é que, questiúnculas à parte, de matiz mais acadêmico, a literatura russa rivaliza-se em qualidade às literaturas inglesa, francesa, alemã, americana e brasileira. Não perde em nada. Sua literatura de testemunho também não fica a dever a nenhuma outra. “Arquipélago Gulag”, de Aleksandr Soljenítsin, é romance ou é história? A história é contada como se fosse um romance, portanto romance é, mas o que se relata é real. A imaginação recria a realidade para mostrá-la em toda a sua crueza. O que a pesquisa histórica mostrou é que a precisão do livro é impressionante.

Em 2015, com notável tradução de Denise Sales e Elena Vasilevich, a Editora 34 iniciou a publicação dos “Contos de Kolimá”, do russo Varlam Chalámov (1907-1982). O primeiro volume, “Contos de Kolimá”, contém 303 páginas e já está nas livrarias. É uma obra-prima dolorosa e, ainda assim, bela. O autor conta histórias dos campos de trabalhos forçados em Kolimá, região da Sibéria. Mesmo doente, trabalhava 16 horas por dia. Preso por razões políticas, viveu quase 20 anos no Gulag. Ao ser libertado, impôs-se uma tarefa: contar o que viu — a vida nos campos — mas de maneira impecável, deixando que as histórias falassem por si, que se tornassem o discurso sobre o fracasso do comunismo (e de Stálin) em criar o “novo homem”.

O conto “Xerez” relata a história dos últimos momentos do poeta Óssip Mandelstam, que morreu de tifo, em dezembro de 1938, num campo de trabalhos forçados, em Vladivostok.
Publicar as mais de 2 mil páginas dos “Contos de Kolimá”, em seis volumes, com tradução direta do russo, com notas precisas e esclarecedoras, apresentação de Boris Schnaiderman e prefácio de Irina P. Sirotínskaia, não é um lançamento de uma obra isolada qualquer. É um grande empreendimento cultural.

Não há como não avaliar “Contos de Kolimá” como o livro do ano publicado no Brasil em 2015. (O Jornal Opção publicou dois textos sobre o livro, que podem ser consultados AQUI e AQUI)

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