Euler de França Belém
Euler de França Belém

A odisseia de andar de Uber em São Paulo e em Goiânia. Lá o serviço é mais eficiente

O preço do Uber compensa e o atendimento no geral é de qualidade. Mas um motorista do Uber deixou eu e minha mulher na mão na porta do Aeroporto Santa Genoveva

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Eu e minha mulher, a psicanalista Candice, para aproveitar passagens mais baratas, vamos para São Paulo — terra natal dela — por Guarulhos. Em julho, usamos um serviço de táxi compartilhado, tendo como companheiros de jornada uma pernambucana, servidora da Universidade Federal, e um pernambucano, funcionário de uma empresa da área de tecnologia (curiosamente, não se conheciam). Nós pagamos 90 reais pelo transporte de Guarulhos a São Paulo. Voltamos à capital paulista, para a Bienal do Livro, em agosto, e optamos pelo Uber. Pagamos 61 reais pelo serviço, além de contar com a agradável companhia do motorista, o baiano Cláudio. Além de motorista de ambulância (“a empresa tinha 25 ambulâncias e agora só tem 12”), canta samba e aprecia a música caipira e a música sertaneja. Chegou a citar o cantor Leandro, falecido, mas não seu irmão, Leonardo. Quando disse que mora em São Paulo há 53 anos, Candice comentou: “O sr. é praticamente paulista”. Rindo, enfatizou: “Não, baiano”. Tem orgulho de ser baiano e mantém a afabilidade de seus conterrâneos.

No sábado, 27, na porta de nosso hotel, na Avenida Paulista, pegamos o automóvel de um motorista associado ao Uber. Ele trabalhou numa oficina mecânica, mora em São Paulo com a mulher e filhos e agora alugou um automóvel para reorganizar sua vida financeira. O objetivo é voltar para Arapiraca, em Alagoas, onde mora sua família e é dono de um caminhão. “A vida de São Paulo é muito doida”, assinala, desacorçoado. Nas suas próprias palavras, como “ficava preso na oficina”, quase não conhece a cidade. De fato, para ir ao Anhembi, mesmo usando o Waze, deu uma longa volta e, de repente, disse, alarmado: “Faltam 215 quilômetros!” Candice pegou o celular e, com o Waze, descobriu que estávamos a 11 quilômetros do Anhembi, onde se realiza a Bienal do Livro.

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Mais tarde, ao examinar a fatura do cartão de crédito, descobrimos que a viagem de Guarulhos para São Paulo, um percurso muito mais longo, havia custado o mesmo valor de uma viagem da Avenida Paulista até o Anhembi. Ao deixar a Bienal do Livro — fraca, por sinal —, optamos mais uma vez por um veículo de um motorista associado ao Uber. Agora, no Uber Pool. O motorista, pernambucano de Recife, não localizou a outra passageira. Mesmo assim, do Anhembi à Paulista, pagamos menos de 15 reais. Com base neste dado, Candice entrou em contato com o Uber, que se prontificou a averiguar o que havia ocorrido com o motorista anterior. Mais tarde, os 61 reais se tornaram 20 reais e economizamos 41 anos. O Uber mostrou respeito ao usuário de seu serviço.

O Uber em São Paulo é eficiente e, sobretudo, mais barato do que o serviço de táxi. O único problema é que, enquanto os taxistas conhecem a cidade, muitos motoristas do Uber não têm informações sobre locais básicos da capital. Eles se perdem mesmo usando o Waze ou o Google Maps. Nas conversas com os motoristas, percebe-se que a maioria é desempregada ou, então, está fazendo bico. Na visita de julho, uma motorista nos levou à Pizzaria Braz, em Pinheiros. Era cuidadora de uma senhora, que faleceu, e, para manter o padrão de vida, pegou o Sandero do genro e pôs-se a trabalhar, inclusive à noite. O motorista que nos levou ao Tuca, o teatro da PUC, onde assistimos a peça “Histeria”, com Pedro Paulo Rangel e elenco em estado de graça, estava desempregado. Parecia não ter noção do trajeto mais curto, mesmo usando tecnologia avançada.

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Chamamos um Uber para nos levar ao Centro Cultural da Caixa Econômica Federal, no Centro, nas proximidades da Catedral da Sé. Fomos ver a exposição A Valise Mexicana, de Robert Capa, Gerda Taro e David “Chim” Seymour. São as fotografias do trio a respeito da Guerra Civil Espanhola. Um verdadeiro portento. O motorista deu voltas e mais voltas, pois não conhecia o trajeto e usava mal o Google Maps. Candice, mais atenta do que eu, que sou distraído e não enxergo muito bem, chegou a tentar orientá-lo. O Uber refez seus cálculos, tornando a corrida um pouco mais barata. O que ocorreu? Além das voltas a mais, o chofer não finalizou a corrida ao nos deixar na porta do local da exposição fotográfica.

O motorista que nos levou ao Instituto Tomie Otahke, um senhor de rara distinção, havia se aposentado, mas, para melhorar a renda, havia voltado a trabalhar (ele tem casa própria, quitada). Ao perder o emprego, pôs seu automóvel a serviço do Uber. Conhece a cidade e fornece informações precisas sobre bairros e locais interessantes.

Compensa se associar ao Uber?

A todos os motoristas, fiz a mesma pergunta: “Compensa ser associado ao Uber?” Todos disseram que “sim”, uns de maneira enfática, outros não. Há os que estabelecem uma meta de faturamento diário — entre 200 e 300 reais. Enquanto não conseguem cumpri-la, não voltam para casa. Assim, trabalham de 13 a 14 horas por dia. Alguns precisam pagar o aluguel do carro; outros, a prestação do veículo. Eles dizem que os automóveis não podem ser velhos, até por uma exigência do Uber, porque senão a manutenção, com revisões e peças, e o custo com combustível levam todo o lucro.

O Uber é um bom negócio para os proprietários do Uber, em primeiro lugar, para os usuários, em segundo lugar, e para os motoristas, em último lugar. Parece que esta é a síntese verdadeira. Em Goiânia, conheço motoristas que abandonaram o Uber rapidamente, alegando que o negócio é “excelente” para a empresa, mas não para eles. Mas há muitos motoristas que se mostram satisfeitos por dois motivos: afirmam que têm lucro, ainda que não muito alto, e finalmente conseguiram o que avaliam como um “emprego”.

Se em São Paulo não tivemos problemas com o Uber, em Goiânia podemos apontar pelo menos um. Ao chegar ao Aeroporto Santa Genoveva, na segunda-feira, 29, acionamos o Uber. Logo apareceu a informação de que um motorista de um Citröen C-4 Pallas nos buscaria. Ficamos tranquilos, pois o Uber é confiável. O motorista está chegando, avisava o visor do celular. Está a 3 minutos. E nada. Depois de meia hora, e de tentativas infrutíferas de entrar em contato com o motorista, cancelamos a corrida e o Uber nos cobrou 6 reais. Candice deixou o seu celular e pegou o meu e fez nova ligação. De novo, o mesmo motorista, que supostamente estava na região, informou que estava indo nos pegar. Esperamos um bom tempo, e nada. Depois, o próprio motorista cancelou a viagem, não se sabe por quê.

Tivemos de pegar um táxi, bem mais caro do que o Uber e com um motorista — vestido com uma camisa da Seleção Argentina, com o nome do craque Messi estampado nas costas — que corria feito um alucinado tanto na BR-153 quanto na GO-020. Precisava voltar para pegar outros passageiros, pondo sua vida e a nossa em risco. Chegou a nos dizer que o outro motorista do táxi havia batido o automóvel recentemente.

Uma coisa é certa: o Uber veio para ficar e, portanto, é incontornável. Resta ao serviço de táxi modernizar-se, como já está ocorrendo (os descontos, por exemplo, pode equipará-lo ao Uber).

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