Elder Dias
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O Pop fica mais pobre (e mais vulnerável) com fim de seus cadernos

Direção do jornal optou por extinguir o “Almanaque” e o “Magazine TV”, que se tornaram páginas de outro suplemento

Divulgação

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Uma surpresa nada agradável aguardava os assinantes do jornal “O Popular” no domingo, 27. Ao abrir a principal edição semanal da publicação e procurar o “Almanaque” para repassar à meninada da casa, cadê? Não estava lá. E para conferir o universo das celebridades globais, onde enfiaram o “Magazine TV”? Sem aviso prévio, a direção do jornal acabou com ambos os cadernos. Eles foram transformados em páginas dominicais de um outro, o “Magazine” — que, dessa forma, também acaba sofrendo redução do espaço para seu conteúdo, já que parte dele passa a abrigar os ex-suplementos.

Uma “Nota da Redação” no espaço das cartas foi o único comunicado que os leitores receberam sobre a eliminação dos cadernos. Mas “eliminação” — ou “extinção”, ou ainda “supressão” — não foi a palavra utilizada. Ao melhor estilo FHC de modalização das más notícias, deram ao caso o termo “incorporação” e intitularam o texto com “Magazine mais encorpado”. O corpo da nota diz que o caderno “ganha, assim, mais páginas e aumenta sua oferta de informação e entretenimento para todos”. Nada como o marketing para mostrar o lado bom das coisas, não?

Capas dos suplementos extintos pela direção do jornal e a nota “positiva”: decisão trará perda institucional

Capas dos suplementos extintos pela direção do jornal e a nota “positiva”: decisão trará perda institucional

A informação do fim dos suplementos foi restringida ao máximo até dentro da própria redação, cujos integrantes foram avisados “sigilosamente”, segundo uma fonte. A mesma pessoa disse que a intenção, ao acabar com os cadernos, é cortar gastos com papel. “Só com o fim do ‘Alma­naque’, Maurício Duarte [vice-presidente do Grupo Jaime Câmara] disse que vão economizar 150 toneladas.” E a mesma fonte sentencia: “É um tiro no pé.”

Seria mesmo uma economia um tanto fora de senso. Mesmo que seja preciso ressaltar que na avaliação de qualquer profissional pese sempre algum interesse corporativo, principalmente no caso do “Almanaque”, o Pop realmente perde bastante. Até mesmo em termos institucionais: era um caderno bem visto, “simpático” e que servia como material de apoio didático para a 1ª fase do ensino fundamental muitas escolas. Seu fim não deixa de ser uma bola fora em responsabilidade social — milhares de exemplares seguiam para a rede pública de ensino, dentro de um projeto chamado Almanaque Escola. O fim do “Magazine TV” — que já foi “Revista da TV” — é menos lamentável para a marca “O Popular”, mas não quer dizer que cause menor prejuízo.

É provável que esse “emagrecimento” do jornal reflita na renovação das assinaturas. É bom lembrar que o “Campo” também havia sido extinto, no início do ano, bem como o suplemento de Esporte (em formato tabloide) das segundas-feiras.

A decisão editorial do Pop foi criticada abertamente por alguns profissionais da imprensa e ex-integrantes da redação. Um deles foi Rogério Borges, até pouco tempo pertencente ao quadro do jornal — um dos mais destacados, diga-se. Ressaltando estar falando como assinante, ele relatou, via Facebook, a surpresa “nada boa” de ver os cadernos acoplados ao “Magazine”.

“Diminuir o espaço para um projeto de formação de leitores, como o ‘Almanaque’, é um erro crasso. É abrir mão de novos leitores em prol de visões de curto prazo”, resumiu, para completar com o que sente, como leitor: “Uma grande tristeza pessoal por decisões flagrantemente equivocadas e que se acumulam em ‘O Popular’ de maneira preocupante nos últimos meses.”

A postagem de Rogério foi curtida por mais de 120 pessoas, muitas delas profissionais que passaram ou ainda estão no jornal. Entre os que saíram, o editor João Carlos de Faria — que foi demitido juntamente com os também editores Karla Jaime, Rosângela Magalhães e Wanderley de Faria, há quatro meses — aproveitou para comentar sobre o “desmonte” que está vendo acontecer com o trabalho que toda a equipe havia feito “para acabar com a imagem de Diário Oficial” que o Pop tinha.

O fundo do poço do descontentamento e da insatisfação no maior jornal de Goiás parece não ter fim. E a supressão dos cadernos parece ter sido apenas um episódio a mais em uma redação triste. O fechamento das edições, que até anos atrás costumava ser, quando não em atmosfera festiva pelo menos com alguma interação, agora corre em “clima de velório”. Os horários foram mexidos para que o jornal comece a ser fechado mais cedo e esteja praticamente pronto para ser rodado às 21 horas — o deadline, antes, era as 23 horas.

A sensação de desgosto por parte de alguns é tanta que “a sensação é de que a qualquer momento eles vão avisar que não vai mais ter jornal. ‘O Popular’ virou plano B de todo mundo aqui”, diz a mesma pessoa da equipe. Outro profissional, este demitido do Pop este ano, disse à coluna “Imprensa” nunca ter observado nada igual em 20 anos de empresa. “Os jornalistas estão com medo da demissão, insatisfeitos com a nova filosofia dos ‘gênios’ de São Paulo e do Rio Grande do Sul”. Ninguém sabe o que esperar do novo ‘O Popular’”.

A vaga de repórter ocupada pelo repórter Luís Gustavo Rocha, demitido há duas semanas, não será preenchida. Mais um sintoma de que o jornal vai ser mesmo “enxugado” até o limite. O lema por lá, dizem, é: “menos é mais”. Do jeito que caminham as coisas, não vai demorar a chegar ao “nada é tudo”.

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