Euler de França Belém
Euler de França Belém

O dia em que Markus Wolf, o homem da Stasi, iludiu um agente cubano com a história do gogofone

O famoso espião da polícia secreta da Alemanha Oriental ajudou Raúl Castro a montar o serviço secreto de Cuba 

Markus Wolf capa do livro de memórias download

“O Homem sem Rosto — Autobiografia do Maior Mestre de Espionagem do Comunismo” (Record, tradução de Gilson Soares, 430 páginas), de Markus Wolf, com Anne McElvoy, tem uma série de problemas, porque o chefe do serviço secreto da Alemanha Oriental o escreveu para justificar suas ações e se apresentar como democrata, o que nunca foi. Mas há histórias muito boas. Um delas envolve os cubanos.

Markus Wolf conta que, convocado por Raúl Castro, Manuel Piñero e Ramiro Valdez para ajudar na organização do serviço secreto de Cuba, em 1965, era vigiado dia e noite pelos espiões latinos, como Umberto. Certa noite, Markus Wolf comemorou seu aniversário com camaradas europeus, o que chamou a atenção dos arapongas cubanos.

Eis o relato de Wolf, na página 383: “No dia seguinte, Umberto tinha feito o seu trabalho de detetive e perguntou insistentemente sobre o motivo da celebração noturna. Com a devida solenidade, eu lhe disse que tínhamos comemorado o lançamento bem-sucedido do primeiro Sputnik da RDA. Claro que só havia um Sputnik, que fora lançado pelos soviéticos poucos anos antes. Mas Umberto engoliu a história, pediu outra garrafa e copos e fez um penoso discurso sobre o projeto espacial da RDA e o quanto isto marcava — mais exatamente, o quanto deixava incerto — um grande avanço nas relações entre cubanos e alemães orientais”.

Markus Wolf da Stasi 10wolf_lg

“Mas havia outra coisa que o intrigava: como conseguimos receber aquela notícia fresca sem que ele soubesse? Fazendo-o jurar segredo absoluto, contei-lhe que a notícia sobre o lançamento do Sputnik nos chegara por um minitransmissor especial, pequeno o bastante para caber no bolso e potente o suficiente para receber sinais de Berlim Oriental. Chamei este artefato fictício de ‘Gogofone’ e disse ao crédulo Umberto que sua própria existência era segredo de Estado, que eu era o único no mundo a ter um e que ainda estava em fase experimental. Umberto jurou por sua vida que não contaria a ninguém.

“Ele conseguiu manter a palavra por um dia inteiro. Na noite seguinte, num jantar oferecido pelo ministro do Interior, fomos pressionados de todos os lados para dar detalhes de alguma coisa nova na RDA. Respondi que, ali em Cuba, estávamos inteiramente desligados do que acontecia em casa. Houve uma pausa curta e significativa, e então o comandante Piñero explodiu:

“— Mas e quanto ao Gogofone?

“Tive de admitir que tínhamos feito uma piada com nosso segurança, depois do que o pobre Umberto ganhou o apelido de Gogofone.”

Brincadeiras à parte, soviéticos e alemães ensinaram os cubanos na construção de um Estado totalitário, no qual o indivíduo que diverge é vigiado e perseguido implacavelmente. Muitos foram assassinados, milhares saíram do país (Miami “é” o maior bairro cubano) e outros milhares (talvez milhões) querem sair. A esquerda brasileira, que chora a morte dos esquerdistas que pegaram em armas contra a ditadura civil-militar, não lamenta a morte dos que desafiaram a ditadura de Fidel Castro.

O serviço secreto cubano, tido como eficiente, foi montado com o apoio de Markus Wolf, o homem da Stasi da Alemanha Oriental.

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