Elder Dias
Elder Dias

No pódio do Pan, medalha vira detalhe: a polêmica sobre a continência dos atletas

Discussão mostra que, 30 anos depois, parte do Brasil ainda não superou trauma da ditadura e faz ligação automática entre militarismo e repressão

Luciano Corrêa, Leonardo de Jesus e Joice Silva: continência como agradecimento por apoio |Fotos: AP Photo/Felipe Dana| AP Photo/Mark Humphrey|  WARREN TODA/EFE

Luciano Corrêa, Leonardo de Jesus e Joice Silva: continência como agradecimento por apoio |Fotos: AP Photo/Felipe Dana| AP Photo/Mark Humphrey| WARREN TODA/EFE

Entre as coisas que a centro-esquerda negligenciou, ao assumir o poder no Brasil com o PSDB, em 1995, e continuar com o PT, a partir de 2003, está a retomada dos símbolos pátrios como propriedade da Nação e não mais de um agrupamento — no caso, as forças militares, protagonistas de uma ditadura que durou 21 anos (1964–1985). Com a ligação mais profunda que os petistas tinham com o socialismo e a falta de interesse em buscar esse resgate, sobrou ao partido e à própria imagem do governo que comanda, então, a pecha de “vermelhos”, explorada agora pela direita, nesses tempos de maniqueísmo ideológico-partidarista.

Mais até do que os tucanos, os companheiros do PT não teriam feito nada de mal se assumissem o verde-amarelo para si. Pelo contrário, a exaltação das cores nacionais, da bandeira, do Hino etc. é algo que talvez trouxesse ao brasileiro um reposicionamento importante na forma de lidar com seu próprio civismo. No período pós-ditadura, porém, a associação desses símbolos com o regime militar tem feito com que eles sejam renegados.

Com exceção dos momentos de Copa do Mundo, parece haver um uso praticamente envergonhado dessas referências. Ou desavergonhado, no caso da corrupção a céu aberto na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ou nas recentes manifestações explícitas por intervenção militar(!). Coisas que mereceriam, no máximo, um riso amarelo.

Resumindo, seria preciso que o patriotismo “benigno”, por assim dizer, fosse extraído do monopólio das forças militares (há, sim, a forma “maligna”, a que estabelece o “nós contra eles” e exalta um nacionalismo que nada mais é do que xenofobia). Mas isso não ocorreu e hoje encarar o Brasil como a Pátria-mãe é algo que, de forma um tanto bizarra, causa repugnância aos próprios cidadãos daqui.

E se colocar dessa forma — rejeitando tais símbolos e tudo o que possa se associar a eles — virou uma forma de demonstrar estar sendo progressista, democrata, “antenado”. É um fenômeno que afeta principalmente (mas não exclusivamente) quem tem status ideológico mais à esquerda. Agindo dessa forma, a pessoa parece se sentir mais cosmopolita — o que, em realidade, pode também não ser nada mais do que um vira-latismo a ser explicado por Freud.

E passamos, semana passada, por duas controvérsias que giraram sobre questões patrióticas: o polêmico “país de m…” expresso por uma atriz, Thaila Ayala, irritada por ter de pagar impostos por um computador adquirido nos Estados Unidos à alfândega, ao retornar ao Brasil; e o uso (e abuso, para alguns) da continência militar por atletas brasileiros no alto do pódio dos Jogos Pan-Americanos de Toronto, no Canadá.

Sejamos rápidos com a atriz, até por ser uma declaração isolada e que não tem maior relevância. Ao que parece, ela teve de pagar imposto conforme a lei preconiza e ficou chateada. Trazia do exterior um aparelho que poderia comprar aqui provavelmente para pagar menos por ele. Nada injusto buscar uma forma de economizar. Mas insultar o país por estar mal informada sobre as leis alfandegárias só revela um infeliz ato falho. Se o Brasil não corresponde hoje às expectativas de seus cidadãos não é por causa do que se paga de tributos na importação — ou então boa parte do mundo desenvolvido também teria de ser xingada por Thaila Ayala.

Mas o que realmente causou reação foi o fato de que, pela primeira vez, atletas militares brasileiros estão prestando continência no pódio de uma competição de maior audiência — o Pan-Americano de Toronto. Na delegação, com 590 integrantes, 123 deles são ligados às Forças Armadas. E, como em competições continentais o Brasil tem certa relevância, surgem medalhas, muitas medalhas, todo dia. E todo dia tem continência.

Nos jornais e blogs, vários artigos foram escritos, recriminando ou defendendo a atitude dos atletas. Os primeiros dizem que a saudação expõe uma forma de propaganda ou que seria um ato político. Ambas as situações, caso confirmadas, causariam punição pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), com a consequente perda da medalha conquistada.

Desde 2008, uma parceria entre os Ministérios do Esporte e da Defesa possibilitou um programa pelo qual atletas de alto rendimento podem aceder à carreira militar. Em troca, recebem um incentivo na forma de ajuda de custo (algo estimado em torno de R$ 2,3 mil) e mais estrutura para desenvolvimento de seu plano de treinamento.

Naturalmente, os atletas militares, como militares que são, receberam a doutrina militar. E, no pacote, está a reverência ao Hino Nacional e à bandeira, cuja execução e cujo hasteamento, respectivamente, invariavelmente ocorrem nos pódios das competições internacionais. O judoca Luciano Corrêa, o nadador Leonardo de Jesus e a lutadora Joice Silva, todos medalhistas de ouro no Pan de Toronto e todos militares também, foram alguns entre tantos que “bateram continência”. E se mostraram muito felizes.

Na verdade, o ato tem causado incômodo pela “lembrança” das Forças Armadas. Muitos consideram que a chaga do regime ditatorial ainda é muito recente para se mexer nesse tipo de questão. Outro assunto em que se mostra reticência de certa parte da sociedade — novamente dos setores mais à esquerda, de forma predominante — é a implantação de colégios militares para o ensino básico. Para esse segmento, qualquer militarismo é visto antecipadamente como algo negativo, castrador e repressor da individualidade. Podem ter razão, em parte, mas se alguém opta em seguir carreira militar, a ação é autoexplicativa: foi uma opção. Seria igualmente castrador impedir alguém de fazer o que queira.

Na verdade, o que se mostra essencial é a superação da visão do Exército, da Aeronáutica e da Marinha como forças políticas — esfera que, é verdade, no passado brasileiro eles ocuparam, e por mais de uma vez, a última delas realmente bem traumática. O problema é que não é dessa forma que a discussão vai sendo conduzida via redes sociais. No contexto atual, em que lados ideológicos preferem denominar, um ao outro, de “esquerdopatas” ou “coxinhas”, debates de qualquer natureza têm recaído em uma pobreza argumentativa de fazer inveja a humorísticos de sábado à noite. E até seria mesmo cômico, senão fosse trágico para o desenvolvimento de uma democracia madura. Estágio este que, quando for finalmente alcançado, fará a discussão sobre o comportamento de um atleta no pódio se tornar irrelevante.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.