Euler de França Belém
Euler de França Belém

Não roubem meu lugar de afeto

Por que é proibido demonstrar afeto no Sesc de Goiânia?

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Luana Silva Borges

Uma narração — triste e afetuosa — de um caso de homofobia praticado pelo Sesc-Goiânia. Para uma instituição que tem como missão promover a inclusão social, lanço a pergunta: por que não o afeto?

Meu nome é Luana Silva Borges, jornalista formada pela Universidade Federal de Goiás. Curiosa por nascimento, em menina andava de bicicleta e metia os olhos, por horas, em meio ao aguaceiro da chuva: observá-la caindo é a minha primeira lembrança de atitude contemplativa da vida. Mestra em Literatura, também pela Universidade Federal de Goiás. Gosto de Clarice Lispector, assim como gosto do centro da cidade, porque os dois podem ser percorridos à noitinha e, em meio à opressão narrada por Clarice, ou observada pelas casas velhas do sujo centro, sei que vou encontrar alpendre que lembra avó, grito forte de delicadeza em meio ao concreto, em meio às palavras. Ex-repórter do Jornal Opção, em Goiânia. Catadora de histórias, sendo que nesse jornal, pela primeira vez, institucionalizei e capitalizei minha prosa curiosa. Ex-encarregada do departamento de Jornalismo e Imprensa da Universidade Estadual de Goiás. Tenho amigos gays, heteros, bissexuais, ateus, judeus, católicos, da umbanda, do candomblé, do movimento negro, do movimento LGBT, do movimento das católicas pelo direito de decidir, do movimento da vida. Atualmente, professora. Bissexual. Tenho uma namorada, também jornalista.  Frequento o Sesc, da Rua 15, no Centro de Goiânia, pelo menos quatro vezes na semana.

Munch o grito 12

O Sesc é o lugar em que venho trabalhando, ora em minha pesquisa para a seleção do doutorado, ora dando aulas na sala de estudo em grupo da Biblioteca da Instituição, onde encontro alguns de meus alunos — estudantes do ensino médio ou do cursinho — para lhes ajudar com conteúdos de Redação ou Língua Portuguesa. O intuito é prepará-los para a prova do Enem. Dou aulas como quem faz hora, do tanto que gosto de falar. A sensação é de riso: como fazer para esticar o momento de graça?

A biblioteca do Sesc é um ambiente colorido. Predominam vermelho e branco, num misto de claridade de lâmpada e fresco de ar condicionado. No calor de 40 graus de Goiânia, entrar lá é refúgio. E não só pelo frescor, mas pelos livros. Eles estão em prateleiras vermelhas e, num súbito, você encontra desde as cartas de Elisabeth Bishop no Brasil, aos poemas de Borges e suas viagens, aos haicais de Leminski e Alice. Meu mundo de Alice. Ali estudo, paro, me concentro. Gosto da Ana Maria, que me parece ser uma espécie de bibliotecária-administradora do coreto. Ela é séria, mas nos deixa em casa. Um dia ela me falou das cores: a biblioteca tinha de ser um ambiente de quem tem prazer, nada de caixotes e paredes de madeiras que isolam os leitores, nada de mofo e traças. Luz. Muita luz. Existiam até estudos sobre isso: que a disposição dos móveis e lâmpadas conduzisse ao movimento e às aberturas das portas da leitura. De uma das portas de vidro, ali, via-se uma reprodução do quarto de José J. Veiga: suas máquinas extraviadas, seus cavalinhos de Platiplanto.

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Ao lado da Biblioteca — já em um saguão público de lazer —, um café, um teatro, atores, atrizes, cantores. Preços módicos. Entrada franca. Ambiente de arte. De se afetar. De afeto. No café, então, eu e minha namorada, que somos profundissimamente afetadas uma pela outra — além de afetadas pelo lugar-Sesc-nossa casa —, demos um selinho. Não tocamos nossas línguas, nada. Nunca ali, onde trabalho, onde tenho alunos, onde vou para estudar. Beijo que filho dá em mãe, beijo que, em criança, damos em irmãos. Não que seja absurda uma troca de afetos mais calorosos entre duas mulheres: mas ali eu não o faria, pelas relações de poder que transpassam a minha posição de professora- docente que usa o espaço e constantemente encontra, ali, seus alunos. E também endosso o fato de ser um selinho, mínimo, para que os leitores percebam a que máximo chega a intolerância.

Pois que: eu e minha namorada ríamos muito, em frente ao teatro repleto de gente, no café, durante o descanso dos livros… Ríamos de uma situação do dia e demos um beijo curto e imediato: para selar o riso. Pouco depois, fomos abordadas. A funcionária, visivelmente consternada e obrigada a fazer a represália, disse-nos, cumprindo ordens da gerência: “Aqui no Sesc não são permitidas manifestações de afeto”. Bem no meio da arte — que eu ingenuamente acreditava ser refúgio no Texas goiano — estava proibido afetar-se. Num ambiente público de atores, atrizes, cantores, cantoras, bailarinos, bailarinas (muitos deles gays ou bissexuais), estava proibido dar as mãos. “Não, eles não gostam.” Há câmeras. O sistema panóptico não perdoa: tudo vê e tudo sabe. Qualquer selinho se transforma em resistência e em quase rebelião. Era sério isso?

Detail of Klimt's "The Kiss" at the Belvedere Palace Museum in Vienna, Austria. © Julia Pelish Photography (freelance: $50 for print, $25 for online use) Subject: The Kiss - Detail On 2011-05-17, at 3:39 PM, julia pelish wrote: Julia Pelish www.juliapelish.com www.juliapelish.com/blog 416.389.3691 Kiss-Detail.jpg

Assim que ela soltou a frase, todas essas sensações vinham à tona. Pensei em minha afilhada, de 7 anos, quando a levei para a contação de histórias da Biblioteca. “Madrinha! Madrinha! Dá pra moraaar nesse lugar… Não é?” É o que ela falava, estendendo o “a” por quilômetros de sonho,  feliz da vida com uma “Ruth Rocha” nas mãos. Daria mesmo para eu morar ali, minha pequena? Pensei. Daria mesmo para não abraçar, sequer beijar? Como viver controlando a boca e as mãos? Senti que, a um só golpe, meu lugar de afeto era duplamente atingindo por um míssil de intolerância: o meu lugar de quem cuida e ama e zela de outra mulher; o meu lugar de quem ergueu um lar naquele espaço. De que adianta ter uma casa, se você não pode colocar um lar dentro dela? Pensava eu, retomando Clarice.

A funcionária, para fazer a represália, encontrou-nos no banheiro. Ali seria um ambiente, segundo ela, “que não ia nos constranger em frente a outras pessoas”. Já estávamos constrangidíssimas. Visivelmente, pelo jeito “sem graça” e pelo olhar triste da mulher, não era ela quem era homofóbica. Ela cumpria ordens. Tem filho para criar. Emprego a se manter. Olho de quem zela e cuida. Não me engano com olhares.

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As determinações realmente pareciam voar, a galope, da gerência, no terceiro andar. Segundo me disseram depois, a ação era institucional e respeitava os valores da casa, sendo a tal gerência composta por gente “muito humana” que só seguia os ditames institucionais.

Entretanto, retiro as palavras do site do próprio Sesc. Ali, constam os seus valores: “Contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e para a melhoria da qualidade de vida do trabalhador do setor de comércio de bens, serviços e turismo, prioritariamente de baixa renda, através de serviços subsidiados e de excelência”.

Ora, uma Instituição como o Sesc visa, como vimos, construir uma sociedade mais justa. Eu mesma sou prova, verdadeiramente, de que ali se contribui para avanços culturais: para a dinamização do acesso a livros, peças teatrais, música (arte, no geral). O Sesc é realmente uma casa que promove a inclusão por meio do conhecimento e do fortalecimento da cidadania. Será que, a essa instituição, é permitida uma posição de desrespeito frente a quaisquer tipos de cidadãos? Questionei. Disseram-me que não se podiam dar selinhos ou abraços, independentemente de orientação sexual. “Fazemos isso com heterossexuais também.” Entretanto, dezenas e dezenas de héteros se abraçam e se beijam respeitosamente nos meios públicos de Goiânia: no café, no saguão, no hall de entrada, nas escadas. Como deve ser.

Outro questionamento que me fiz: se o ser humano não puder se abraçar e se beijar em um lugar de arte — artifício para o afeto — onde sancionar os abraços em nossa sociedade? Ora, eles já são tão escassos nas repartições públicas, no concreto de avenidas, nas residências muradas, nos casebres de papel… Onde, então, permiti-los?

Não me importo de ter perdido uma casa de estudo. O concreto não me interessa. Importo-me mais em zelar pelo etéreo, pelo lugar de afeto: esse, sim, defendo neste texto.  Não sou pessoa que se esquece, como diz Clarice, que “embaixo da casa está o terreno”, o chão de mim onde nova casa poderá ser erguida. O lugar de arte está dentro e a esse não me feriram. Mas lanço palavras. Lanço-as para reiterar, em mim, a minha força e a minha raiz no terreno de mim e do que sinto.

Vale dizer que, no muro em frente ao Sesc da Rua 15, centro de Goiânia, há uma pichação em letras garrafais: “O AMOR É IMPORTANTE”. Sempre reparei nela, quando entro.

Junto-me aos pichadores e aqui também lanço meu grito — de afeto — nos muros da mídia. Recado dado.

Luana Silva Borges é jornalista e mestre em Literatura pela Universidade Federal de Goiás.

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Pedro Capela Cardoso

Deve ser conduta nacional do Sesc mesmo e, verdade, não foi homofobia, também acontece com heterossexuais.
Uma vez eu estava com minha namorada no Sesc em Palmas esperando um espetáculo de teatro começar. Chegamos cedo, havia pouquíssima gente no local. Ficamos abraçados na escadaria, no cantinho, encostados no corrimão, e sem beijos mais quentes, só uns selinhos bem ocasionais. O que mais tinha era abraço mesmo. Mas um funcionário (acho que era um segurança) esperou um dos selinhos, chegou bem educadamente e nos informou: “Boa noite, pessoal. Aqui não é permitido…”
Vai entender o Sesc.