Morre a brasileira Beatriz de Moura, editora da Tusquets que mesmerizou a Espanha
18 abril 2026 às 16h05

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O leitor sabe que uma das maiores editoras da Espanha era uma brasileira? Depois de ter trabalhado na Lúmen, com Esther Tusquets, a carioca Beatriz de Moura uniu-se ao marido, o arquiteto Óscar Tusquets, e criou a Tusquets Editores, uma das mais bem-sucedidas da Europa, em 1969.
Filha de um diplomata brasileiro — Altamir de Moura (1903-1988) —, Beatriz de Moura morreu na sexta-feira, aos 87 anos. Morava em Barcelona desde a adolescência. Chegou à cidade em 1956.
“Sou brasileira de origem, minha língua é o espanhol e o francês é minha outra língua de estudos. Não sou de nenhum país, nem me sinto ligada a bandeira alguma. Estou aqui por casualidade, mas gostei de Barcelona e aqui fiquei”, expôs seu “credo” Beatriz de Moura. Era uma mulher do mundo, universal.

O escritor mexicano Carlos Fuentes chamava Beatriz de Moura de “deusa cariocacatalana”.
Entre os feitos de Beatriz de Moura está a “descoberta” de Gabriel García Márquez, o Gabito, que circulava por Barcelona matando cachorro a grito, por assim dizer. Era desconhecido, mas a editora encantou-se com aquele jovem inteligente e criativo. Apresentou-o à célebre agente literária Carmen Barcells… e o resto é história.
Entretanto, Beatriz de Moura não publicou “Cem Anos de Solidão”, e sim “Relato de um Náufrago”, que vendeu como água benzida, digamos, por Gaudí.
Dada a profissão, o pai de Beatriz de Moura mudava-se de país com frequência e sempre levava sua biblioteca. A jovem era encarregada de organizá-la e, por isso, acabou se tornando uma grande leitora.
De acordo com o jornal “El País”, a editora Beatriz de Moura “não publicou nada de que não gostasse”. Por isso, sua preocupação não era best-seller, e sim obras de alta qualidade literária. Seu interesse era a permanência, não o provisório. Mais do que a aparência, a essência.

Quando decidiu publicar a obra de Milan Kundera, Beatriz de Moura recebeu uma intimação do escritor tcheco: “Será você que irá me traduzir”. E assim foi. Do francês saltaram para o espanhol, de suas mãos seguras, “Os Testemunhos Traídos”, “A Lentidão”, “A Identidade” e “A Ignorância” etc.
“El País” sublinha que Beatriz de Moura era “uma mulher que nunca deixou de fazer de seu ofício uma paixão que contagiou uma época inteira da literatura”.
Óscar Tusquet disse de sua mulher: “Era atraente, desinibida, inconformista, cosmopolita, culta e poliglota”. Daí a paixão à primeira vista.
Dotada de uma “curiosidade sem barreiras”, Beatriz de Moura disse, ao criar a editora Tusquets, que queria “uma editora divertida, de esquerda e elegante”.

A imprensa espanhola, nos seus obituários, disse que a fundadora da Tusquets foi “peça-chave da história editorial da Espanha”. Porque publicou o que havia de melhor em termos literários.
Nos anos 1970, Beatriz de Moura disse: “Não havia Constituição, e Franco estava morto. Se podia fazer de tudo. Era a liberdade no sentido do que a pessoa imagina. Passávamos bem. Era a felicidade [dada a queda do fascismo franquista]. A felicidade de ficar até quatro horas da madrugada sentada em um banco de Gaudí”.
Durante quarenta anos, até 2014 — mesmo depois de a Tusquets ter sido vendida para o grupo Planeta, em 2012 —, Beatriz de Moura editou grandes autores, como Almudena Grandes, Czesław Miłosz, E. M. Cioran, Ernst Jünger, Fernando Aramburu, Gabriel García Márquez, George Bataille, Haruki Murakami, Henning Mankell, Italo Calvino, Javier Cercas, John Irving, John Steinbeck, John Updike, Jorge Semprún, Leonardo Sciascia, Marguerite Duras, Mario Vargas Llosa [“História Secreta de um Romance”], Milan Kundera, Samuel Beckett, Sergio Pitol, entre outros.
A obra póstuma do escritor francês Albert Camus ficou aos cuidados de Beatriz de Moura na Espanha.
Dois livros atestam a importância de Beatriz de Moura como editora e impulsionada da cultura: “Aquellos Años del Boom — García Márquez, Vargas Llosa y el Grupo de Amigos Que Cambió Todo” (Debate, 558 páginas), Xavi Ayén, e “Carmen Barcells — Traficante de Palabras” (Debate, 508 páginas), de Carme Riera.
O livro de Carme Riera conta o conflito entre Beatriz de Moura (e seu segundo marido, Toni López Lamadrid) e Carmen Balcells por causa da obra de Javier Cercas.
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