A Igreja Católica derrubou o comunismo no Leste Europeu? Sozinha não. Mas colaborou com os Estados Unidos do presidente Ronald Reagan (1911-2004), a Inglaterra da primeira-ministra Margaret Thatcher (1925-2013) e a Alemanha Ocidental de Helmut Kohl (1930-2017) para minar as estruturas da União Soviética e seus satélites, como Alemanha Oriental, Hungria, Tchecoslováquia, Polônia.

Altamente atuante, o papa João Paulo 2º (1920-2005) operou com Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Helmut Kohl na derrocada do sistema comunista. Na Polônia, para ficar num exemplo, colaborou com o Solidariedade, de Lech Walesa.

A Igreja Católica, com seus 2 mil anos, é, seguramente, a instituição mais antiga da história. Permanece irremovível — poderosa, influente e espraiada por todo o mundo. Muitos acreditaram que poderiam derrotá-la. Mas acabaram vencidos… pelo tempo.

Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev: o presidente tinha bom senso | Foto: Reprodução

Prestes a completar 80 anos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é, sem dúvida, um homem poderoso. Porque dirige o maior império dos últimos 100 anos. Mas passará e a Igreja Católica permanecerá. Todo presidente é breve, por mais longevo que seja (oito anos de mandato: entre eleição e reeleição), porém a Igreja Católica é milenar.

Então, num conflito entre o papa Leão XIV e Trump, fica-se com a impressão de que, por comandar um império — tremendamente bélico —, o segundo vencerá o primeiro. Mas é óbvio que não vencerá.

Trump não é, claro, néscio. Mas, pelo visto, usa as informações como quer, de maneira idiossincrática. O presidente americano do norte afirma que Leão XIV deveria “se concentrar em ser um grande papa, não um político”.

O igualmente conservador Ronald Reagan não pensava assim quando, por assim dizer, “recrutou” João Paulo 2º — altamente político e, crucial, litúrgico — para sua cruzada anticomunista.

João Paulo 2º e Ronald Reagan: parceiros na luta contra o comunismo | Foto: Reprodução

Trump assinala que Leão XIV é um papa “muito liberal”. Pode até ser “avançado”, mas é muito menos liberal que o papa Francisco. Na verdade, o religioso americano é moderado, nem de esquerda nem de direita. Talvez seja um “político” e religioso de centro.

Leão XIV planeja “atualizar” a Igreja Católica, torná-la contemporânea de seus fiéis, mas sem mudanças na doutrina católica. Projeta, por certo, mudanças mais lentas. Ainda assim, mudanças. Tal é o espírito da Igreja Católica: mudar mas sem balançar suas estruturas. Francisco era, até para aliados, “avançado demais”. E talvez nem fosse. A expectativa (inclusive a minha) provavelmente era maior do que a realidade.

Trump não percebe o que está acontecendo: Leão XIV é um agente — religioso — da moderação. Um evolucionário, e não um revolucionário. Tende a se tornar um grande papa, no espírito do que realmente é a Igreja Católica. É possível que seja um agente da mudança, mas da mudança consistente, sem recuo. Por isso, na sua visão, é preciso avançar passo a passo, e não aos saltos.

Ilusão da onipotência de Donald Trump

O que a civilização cobra dos contendores no Oriente Médio? Fim das agressões — de parte a parte. Por isso, Leão XIV está certo quando prega a paz e o “fim” da guerra.

No ataque, Trump diz que o papa é “fraco no combate ao crime” e “péssimo em política externa”.

No lugar de atacar Trump, Leão XIV mostra-se, mais uma vez, moderado e, claro, crítico. “Eu não sou um político. Não tenho intenção de debater. A mensagem é a mesma: promover a paz”, diz o papa.

O papa não está dizendo que não é político, está informando que não é “um” político, quer dizer, não tem mandato para participar do circuito mundial do poder. Não figura na ONU. Não figura na Otan. Mas é alguém tão influente que tem direito a opinar. Porque, se não é escutado por Trump, é ouvido pela comunidade internacional.

Leão XIV enfatiza que o apelo do Vaticano pela paz está baseado no Evangelho. “Colocar minha mensagem no mesmo patamar do que o presidente tentou fazer é não compreender qual é a mensagem do Evangelho”, frisa o religioso.

Provando que tem coragem, não a dos bravateiros, Leão XIV disse: “Não tenho medo do governo Trump”. Apontou também a “ilusão da onipotência” do presidente da terra de Abraham Lincoln e Franklin D. Roosevelt. São declarações fortes de um religioso armado tão-somente pelas palavras e pelo bom senso. Não um contendor, e sim um pacifista não paralisante.

Se Trump avalia que conquistará eleitores e apoios ao atacar o papa Leão XIV, um agente da paz, está, por certo, muito mal orientado por seus marqueteiros. O mais provável é que o marqueteiro de Trump seja… Donald. Na contenda, o papa é a figura iluminista — a voz do bom senso — e o presidente americano do Norte é a voz das trevas.