Marília Mendonça, a poeta

Ela cantou o amor infinito que pode durar apenas uma rodada de cerveja, uma noite regada a suor e lágrimas, e terá sido ótimo desde que essa eternidade momentânea tenha sido feliz

Nilson Gomes

Imagine ter seus versos cantados por multidões em três continentes. Fãs ensandecidos recitando cada sílaba que você rascunhou num guardanapo. Seus amores falando diretamente a corações num idioma que só coração traduz, pois você escreve em Português e as pessoas que se emocionam com suas frases falam Espanhol, Inglês. Aquele rabisco no caderno dentro do avião caído na cachoeira agora ser um Grammy na estante. Seu filho eternizado em linhas memoráveis. Você emoldurado numa canção de Caetano Veloso, num adjetivo de Gal Costa, na cobertura do The New York Times. Aquela estrofe escrita na mão transportar o seu rosto para imenso painel na Times Square. Uma poeta conseguiu. Uma poeta goiana do interior e de um interior que resplandecia na face. Uma jovem poeta. Uma poeta chamada Marília Mendonça. Lidas, sem qualquer nota musical a acariciar os tímpanos, suas palavras provocam efeitos superiores aos segredos de liquidificador, criação de outro músico danado de bom autor, Cazuza.

Abra a gaveta e atire nela seus preconceitos contra o sucesso alheio. Vendado, venda a mesa para uma loja de sucatas, pois nem no lixo cabe a discriminação – em lugar de recicláveis não sobra espaço para preconceitos, nem no inferno de Dante – o poeta italiano, não o do vôlei. Dante, o atleta, é de Itumbiara. Marília, a poeta, é de Cristianópolis. Não importa – ela está mais para o autor da Divina Comédia, respeitando-se a devida proporção. Se você acaba de chegar de Saturno, informe-se que Marília morreu na sexta-feira 5 de novembro na Caratinga natal de Ziraldo, nas Minas Gerais de outra Marília famosa na literatura, a de Dirceu, objeto de adoração de Tomás Antônio Gonzaga. A Marília de Dirceu era criação. A Marília Mendonça era criadora. E que boa obra deixou…

Marília Mendonça é sujeito de adoração de um povo inteiro. E começou cedo. Sua produção ocorreu principalmente entre os 12 e os 22 anos de idade. Noticia-se que agora, aos 26, já havia reduzido drasticamente a produção intelectual. Mas para quem versejava desde os 12… Os 12! Imagine traduzir sentimentos ainda criança… Ela foi capaz. E com certo apuro. Se, em vez de Spotify e YouTube, estivesse sendo apreciada em e-book, talvez seus versos não obtivessem 14 bilhões de visualizações ou seu cortejo não emendasse o Goiânia Arena ao Autódromo Internacional, 15 quilômetros de carro e gente em três pistas. Mas os resquícios na cabeça seriam igualmente eternos enquanto durem – e a referência é a outro poeta que também começou apenas compondo, depois assumiu as luzes da ribalta. Diga que os sonetos de Vinicius de Moraes estão em outro patamar e a resposta é acariciar-lhe os tímpanos com a voz de Marília Mendonça.

(Já que os parágrafos anteriores não foram suficientes, parênteses exclusivos ao metido a sabichão. Você é refratário ao repertório de Marília porque o considera ruim ou apenas porque é chato mesmo – você, não o repertório? Fez jus ao bis: Chico Buarque, o incrível letrista, meteu-se a cantor e revelou-se notável romancista. Ou você também não gosta das composições de Chico? Nunca apreciou as frases de Marília e, adepto do “não li e não gostei”, desanda a falar mal e postar asnices? Então, procure especialista em inveja.)

Além da elogiada voz, Marília cometeu versos como o de comparar o amor a um beija-flor errante pelo outono, com

“As folhas caídas no chão

Da estação que não tem cor”.

Era uma adolescente quando escreveu as aspas acima e sua sensibilidade percebia que o único pássaro que consegue parar no ar não parou no ar que ela respirava, foi beijar outras flores e com ele carregou o colorido dos ipês. A ave lhe apresentou o amor e deu-lhe a consciência de que a mais bela flor da primavera é a que suporta passar pela fase ruim (“o frio”) baseada na lembrança do amor de que se julga merecedora e que a aquecerá. Versos assim foram ditos ao vivo em praças públicas do País dos extremos num projeto social de Marília para realizar o sonho cantado por Milton Nascimento, o de ir aonde o povo está e o povo está onde sempre esteve: à espera de seus ídolos. A letra de que trata este parágrafo é “A flor e o beija-flor”, que assim como dúzia e meia de composições de Marília está na memória de uns 80% da população brasileira.

Noutro triunfo estrondoso, “Infiel”, estabeleceu o que é saudado como a revolução feminina no machista mundo da música sertaneja – como, aliás, quase tudo no lado Sul do Equador. Um sujeito se acha o tal para ser dividido entre duas mulheres e uma o dispensa fazendo pouco caso do convencido:

“Estou te expulsando do meu coração

Pus as malas lá fora”

De si.

E o entrega à outra, como se fosse bela porcaria:

“Deve estar feliz achando que ganhou

Não perdi nada”.

E não perdera mesmo.

Foram frases expressas a plenos pulmões por mulheres que se vingavam em rima e métrica de relacionamentos frustrados, de homens tóxicos piores que entorpecentes e drogas afins. Antes de Marília, o velho normal no sertanejo universitário do machismo pré-primário dos primatas eram versões de filmes nos quais, com o perdão de Rita Lee, o “sexo frágil” fugia à luta. Marília espantou o método patriarcal e retratou mulheres construtoras do próprio destino, responsáveis pelas próprias escolhas, que vão da profissão às companhias, que vão ao bar para beber, não para ser destinos de infâmias expelidas em perdigotos de alguns que se acham (e ninguém os acha), mulheres independentes que preferem ser felizes no Motel Afrodite a viver de aparências na suíte presidencial de um cinco-estrelas à beira mar. Esclareça-se: “Motel Afrodite” é também lira de Marília campeã de exibições em áudio e vídeo.

Como Chico Buarque, escrevia sob um eu-lírico, digamos, de outro gênero ou qualquer termo que estiverem utilizando para o que antigamente se chamava de sexo diferente, outro sexo, homem escrevendo como mulher, essas coisas. Assim, duplas masculinas embalaram sonhos e derramamento de álcool destilado e de todos os lados berrando os versos de Marília Mendonça. Em seguida, ela própria veio a público cantar a mulher libertária, dar o troco nos cafajestes, um soco no orgulho dos canalhas, praticamente biografar milhares de vítimas de namorados controladores, maridos valentões, amantes que posam de donatários. Recitando os versos de Marília Mendonça, essas mulheres se enchiam de força para tirar de suas vidas os males que chamam de “Meu amor”, “Meu dengo”, “Vida”, “Benzinho”, “Benzoca” – e eles acreditam. Ai, ai.

Marília Mendonça: cantora e compositora | Foto: Divulgação

No tempo em que apenas compunha para terceiros gravarem, Marília já dava o recado feminino: o cantor sofria com a amada lhe ofertando o desprezo. No enredo de outros autores, as mulheres eram marionetes do macho alfa. Nas canções escritas por Marília, a dupla de homens sofria nas mãos de fadas poderosas de mulheres conscientes ao usá-las para empurrá-los de suas vidas:

“De copo sempre cheio, coração vazio

Tô me tornando um cara solitário e frio

Vai ser difícil eu me apaixonar de novo

E a culpa é sua

Antes embriagado do que iludido

Acreditar no amor já não faz mais sentido

Eu vou continuar nessa vida bandida

Até você voltar”

A mulher idealizada nunca voltava. Estava em outra, nalgum churrasco tomando cerveja com a turma, rindo alto, falando bobagem, num contentamento encorajador. Simone de Beauvoir ficaria satisfeita. Através de sua arte, Marília Mendonça conversou com milhões de simones, descreveu suas trajetórias e, com isso, as libertou ao menos nos três minutos de cada música – como são 324, segundo o Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais, o Ecad, estão disponíveis 15 horas de catiripapos no estômago e afagos no coração. Daí o choro de tantas nos espetáculos de Marília. As consideradas serviçais por quem delas se sentia proprietário, Marília as catapultou a “patroas” tipo Simone e Simaria, Maiara e Maraísa, Naiara Azevedo, senhoras de si, avessas à virilidade morfética pretendida nos versos de tantos.

Marília cantou o amor infinito que pode durar apenas uma rodada de Budweiser, uma noite regada a suor e lágrimas, e terá sido ótimo desde que essa eternidade momentânea tenha sido feliz, mas se dedicou a um realmente inextinguível: o de mãe. Seus versos para o filho, Léo, esculpem um Michelangelo de mármore em qualquer coração de pedra-sabão – ou seja: melhoram o seu dia, de tão belos. Estava grávida quando compôs a “Música do Léo”. É toda encantamento ao narrar a descoberta de outra vida a pulsar em si:

“Antes de sentir seu coração bater”, escreveu a Léo, não imaginava ter filho, só que agora se pergunta “Como vivi todo esse tempo sem você?”.

Léo era ainda uma imagem na ultrassonografia e Marília não se conformava somente com a medicina diagnóstica:

“Conto os segundos pra ver o seu rosto

Conto os segundos pra te segurar”.

Em geral, fisgava no coração e na mente os protagonistas de seus versos. Agora, ele vinha diretamente do ventre:

“A felicidade que eu buscava tanto

Descobri quando eu te senti chutar”.

Foi o único homem que a chutou. E o único chute que a faria feliz. Comparou o filho a um poema que trazia consigo, uma fração do Paraíso de Dante, a alegria tomando corpo, tomando seu corpo, um milagre divino direcionado à moça religiosa, maravilhosa na definição de Caetano, cuidadosa:

“Vive dentro de mim, um pedaço do céu

Enviado por Deus, o meu querido Léo”.

Carregando sua mais perfeita obra, não se esqueceu da gratidão por tantas conquistas, pela escritora de êxito internacional que em cinco anos saiu dos bastidores para todas as listas de mais tocadas no mundo, pela intérprete da rotina de uma gente sofrida nos amores, na sobrevivência financeira, na esperança de fazer a vida valer a pena – ou fazer a vida valer, apenas. E foi assim que Marília Mendonça agradeceu:

“A vida já me deu muitos presentes

Sou grata por tudo que aconteceu”

E a estrela se rendia ao amor incondicional:

“Meu hit do ano ainda nem nasceu”.

Léo nasceu há quase dois anos e vai crescer testemunhando o valor de sua mãe, a utilidade de sua obra para tanta gente. Vai ver os clipes e concluir que a artista era igual à mãe: verdadeira. Excelente intérprete que não fazia outro papel além de ser ela mesma, Marília Dias Mendonça. É o seu legado. Léo fará suas as palavras da mãe em “Minha herança”:

“Vai, senta aqui do meu lado

Me deixa te olhar e sentir o teu cheiro

Pra me renovar

Fale do que você quiser!

Eu quero ouvir sua voz

Fale do mundo, dos seus planos

Me fale de nós”.

Nilson Gomes é advogado e jornalista.

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