Maria Júlia Coutinho contribui para tornar menos formal o principal produto jornalístico da TV Globo e parece ter influenciado William Bonner

Maria Júlia Coutinho, a Maju: muito da informalidade do “Jornal Nacional” se deve às qualidades da jornalista, que deixou de ser uma mera “moça do tempo” para ser uma estrela do jornalismo. Pode se tornar apresentadora
Maria Júlia Coutinho, a Maju: muito da informalidade do “Jornal Nacional” se deve às qualidades da jornalista, que deixou de ser uma mera “moça do tempo” para ser uma estrela do jornalismo. Pode se tornar apresentadora

A TV Globo permanece dominante, apesar da queda da audiência — provocada mais pela diversificação da tevê por assinatura e pelo poder de atração da internet (o mundo pode ser visto e lido a partir de um celular) do que pela ascensão da TV Record. O padrão globo, criado por Walter Clark, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (Boni) e Roberto Marinho, produziu uma programação de relativa qualidade, com produtos para satisfazer a média do público. Com a ascensão da tevê por assinatura, com seus múltiplos canais e nichos — com séries de qualidade (celebradas pelos intelectuais) baseadas em romances ou sobre história (Roma e Spartacus, por exemplo) e política (“House of Cards”) —, a Globo perde, cada vez mais, parte do público da classe média para cima. Uma das saídas, para não perder o público da classe média para baixo, é a popularização e, mesmo, o apelo ao popularesco. O “Domingão do Fausto” e as novelas, com ligeiras exceções, ganharam uma aura mais caricatural, com exacerbação da vulgaridade. O humor do “Zorra” é cada vez mais grosseiro e simplista — sem a relativa sutileza dos tempos de Chico Anysio e Jô Soares. Os criadores do programa produzem o humor e, junto, “dão” o riso pronto como bônus.

Há outra saída, que não sacrifica a qualidade: tornar algumas programas menos formais. William Bonner, melhor apresentador de telejornal da tevê brasileira — domina à perfeição a linguagem televisual, tanto com a fala, com a impostação precisa, quanto com a condensação exata de temas às vezes complexos —, era excessivamente prussiano, glacial. Ao adotar um padrão menos formal — até mais brasileiro, quem sabe —, o Jornal Nacional não perdeu qualidade. Pelo contrário, tornou-se mais acessível e, quiçá, divertido. É a prova de que se pode ser mais popular sem apelar para a grosseria e a vulgaridade.

Recentemente, Boni, um dos profissionais que mais entendem de televisão no país, criticou a informalidade do “Jornal Nacional”. Aos 80 anos, o mestre criticou até o fato de que os apresentadores William Bonner e Renata Vasconcelos — agora, mais à vontade (tentou até matar um mosquito no ar, literalmente) — chamam a moça do tempo, Maria Júlia Coutinho, de Maju. Seria falta de profissionalismo.}

O problema não tem a ver com a informalidade e a falta de “profissionalismo” do “Jornal Nacional”. O problema é do craquíssimo Boni, que, homem de outro tempo — os tempos áureos da Globo, quando era quase uma Presidência da República —, não quer perceber que a Globo e o mundo mudaram. Os meios de comunicação do Grupo Globo — como a TV Globo, a Globo News e o jornal “O Globo” — não são mais as fontes quase únicas de informação dos brasileiros. As pessoas buscam se informar e se divertir em várias outras fontes — o que “atomizou” a audiência —, embora a Globo ainda seja tremendamente sólida. Manter o “Jornal Nacional” mais formal, mais secão, não resultará em mais audiência e respeitabilidade.

William Bonner e Sérgio Aguiar: o primeiro, que inspirava os jovens apresentadores da televisão brasileira, agora parece ter se inspirado no segundo para tornar o “Jornal Nacional” menos formal e sisudo. Globo abre-se ao novo
William Bonner e Sérgio Aguiar: o primeiro, que inspirava os jovens apresentadores da televisão brasileira, agora parece ter se inspirado no segundo para tornar o “Jornal Nacional” menos formal e sisudo. Globo abre-se ao novo

A inspiração para um “Jornal Nacional” menos formal, mais agradável, talvez tenha sido buscada no “Em Pauta”, da Globo News, apresentado pelo ótimo Sérgio Aguiar. Descontraído, de raciocínio rápido e preciso, comanda um programa com jornalistas de primeira linha, como Eliane Cantanhêde, Jorge Pontual (quase sempre brilhante, inclusive quando parece tímido e circunspecto), Elisabete Pacheco (que domina a arte de se apresentar e falar na tevê como poucos), Mara Luquet, Thaís Herédia, Gerson Camarotti, Guga Chacra, Sandra Coutinho (promovida para o “Jornal Nacional”). Antes, na Globo, quase todos copiavam o estilo de William Bonner; agora, por incrível que pareça, fica-se com a impressão de que o apresentador do “Jornal Nacional” inspirou-se, ligeira mas não integralmente, na jovialidade expressiva de Sérgio Aguiar. Ressalte-se que a qualidade do “Em Pauta” advém mais da qualidade de suas informações — Eliane Cantanhêde e Gerson Camarotti às vezes interpretam com certo brilho o que acontece em Brasília — do que de sua informalidade. Mas é esta que convida a assistir o programa — no fundo, um telejornal, digamos, com samba e bossa nova. Divertido, inteligente e malemolente.

Mas não dá para falar do “novo” (nada é novo) “Jornal Nacional” sem mencionar a moça do tempo, Maria Júlia Coutinho, a Maju, que mudou o “clima” da Globo. Mesmo se o tempo está ruim (ou bom, sabe-se lá), com notícias bombásticas sobre corrupção e prisões de poderosos ou catástrofes, quando William Bonner e Renata Vasconcelos acionam Maju, percebe-se que o ambiente melhora. Há quem diga que tem a ver com o fato de Maju ser bela de rosto e corpo — que as roupas realçam muito bem —, com uma alegria viva e sincera no olhar. Mas há outras mulheres belas e atraentes como Maju na Globo. Por que então a moça do tempo se tornou uma das estrelas do “Jornal Nacional”, quase ombreando-se com William Bonner e Renata Vasconcelos? Primeiro, pela competência com que apresenta as notícias do tempo, requalificando um tema chato, até modorrento, e aparentemente sem importância. Ela expõe com clareza, rigor e, também, extrema graça e simpatia. Segundo, mais do que a beleza, Maju tem um charme que é só dela. “It” — como se dizia nos tempos de… Assis Chateaubriand, Roberto Marinho e… Boni. O telespectador por certo concorda que Maju ficou maior do que a “moça do tempo”. Talvez seja convocada, entre 2016 e 2017, para a bancada de um dos telejornais da Globo.

Uma palavra sobre Heraldo Pereira. Repórter do primeiro time da Globo, tornou-se, por mérito, apresentador substituto no “Jornal Nacional”. É preciso, mas, seguindo o exemplo do editor-chefe, tornou-se uma cópia de William Bonner, em termos de formalidade. Mas, agora que o modelo está se tornando informal, chegou a hora de Heraldo Pereira se soltar um pouco mais. Porque, como todos sabem, não se trata de um leitor de teleprompter. Trata-se de um grande jornalista.

Um dos repórteres do “Jornal Nacional”, seguindo a mudança dos apresentadores, tem feito reportagens menos formais e agradáveis, com texto mais solto, o que não quer dizer menos denso.

O “Jornal Nacional” não é o suprassumo da qualidade, é verdade. Mas ainda é um dos produtos de qualidade média da tevê brasileira.