Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro conta a história dos cineastas John Ford, John Huston e Frank Capra na Segunda Guerra Mundial

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Pesquisa alentada de cinco anos revela como e em que circunstâncias os cineastas Frank Capra, George Stevens, John Ford, John Huston e William Wyler retrataram a Segunda Guerra Mundial . Mera propaganda?

Historiadores europeus, como Norman Davies, sugerem que os Estados Unidos criaram o mito de que “venceram” a Segunda Guerra Mundial e salvaram a Inglaterra de Winston Churchill, a França de Charles de Gaulle e a União Soviética de Stálin. De fato, os americanos foram fundamentais para a derrota da Alemanha nazista. Mas não se pode desconsiderar o empenho dos ingleses — se Churchill tivesse sucumbindo às pressões internas para negociar com Adolf Hitler, a Europa teria caído sob controle dos adeptos da “teoria” do espaço vital — e dos soviéticos. Ninguém sofreu tanto no conflito quanto o povo soviético (morreram cerca de 20 milhões de pessoas).

Quando as tropas do país do presidente dos Estados Unidos entraram na guerra, em 1941, depois do ataque do Japão a Pearl Arbor, a Inglaterra de Churchill lutava contra os nazistas há dois anos (a guerra começou em setembro de 1939). Conta-se que o ator Michael Caine teria retirado seus filhos de uma escola americana ao saber que os professores de História estavam ensinando que a batalha começou em 1941.

Se os americanos não pelejaram sozinhos, por que a história dominante enaltece os Estados Unidos e praticamente ignora a União Soviética e, por vezes, até os ingleses? Primeiro, a URSS de Stálin assinou um acordo de não-agressão com Hitler, em agosto de 1939, e por isso os nazistas, sentindo-se encorajados, invadiram a Polônia, em setembro de 1939, deflagrando a Segunda Guerra Mundial. Os políticos ingleses e franceses, que cultivavam uma política de apaziguamento com o nazismo, finalmente perceberam que Hitler não iria parar e, por isso, precisava ser contido o quanto antes. Os soviéticos ficaram, num primeiro momento, como vilões. Depois, lutaram bravamente e foram decisivos, mais do que os americanos, para derrotar o nazismo. Aos poucos, os historiadores, sobretudo os ingleses, reconhecem sua importância. O comunismo era e é uma desgraça, mas o soldado soviético era intrépido.

John Ford diretor de cinema pb01
Segundo, o cinema de Hollywood contribuiu para criar a mitologia do heroísmo americano. Os filmes produzidos nos Estados Unidos no geral são imprecisos (de maneira intencional), praticamente ignoram outros participantes aliados, e criaram um glamour romântico sobre soldados e oficiais do país que pelearam na Europa. Os filmes soviéticos (e mesmo os ingleses) raramente são exibidos fora da Rússia e demais países que pertenceram à URSS. Insistamos num ponto: os Estados Unidos foram importantíssimos para derrotar Hitler, mas, sem a capacidade de resistência dos ingleses e soviéticos, a Alemanha teria se tornado a senhora da Europa.

“Cinco Voltaram — Uma História de Hollywood na Segunda Guerra Mundial” (Objetiva, 560 páginas), de Mark Harris, é, sem dúvida, um livro do balacobaco. Mas deve ser lido a partir do prisma exposto acima. O cinema, no caso da guerra, foi largamente utilizado para propalar propaganda política. Por isso o presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt — tão extraordinário quanto Churchill — enviou cineastas para a Europa. Eles foram destacados para relatar a guerra a partir do ponto de vista americano. Só que, como os diretores Frank Capra, George Stevens, John Ford (foto acima), John Huston (foto abaixo) e William Wyler eram extraordinários, os filmes quase sempre são de qualidade. O talento — a narrativa por vezes precisa, ainda que romantizada, em certos casos — sobrepõe-se à propaganda. Artistas criativos sempre vão além daquilo que lhe pedem e cobram.

John Huston 2cultural3

Mark Harris percebe a propaganda, admite o vezo americano em detrimentos das visões europeias-soviéticas, mas destaca a importância do cinema do país de John Ford em exibir a crueza da guerra, suas vicissitudes e até, no meio do deserto de sentimentos, momentos belos, de rara humanidade.

A caixa “A Segunda Guerra no Cinema” reúne alguns filmes interessáveis: “Fomos os Sacrificados” (John Ford), “48 Horas!” (Alberto Cavalcanti), “Também Somos Seres Humanos” (William Wellman), “Proibido!” (Samuel Fuller), “Amargo Triunfo” (Nicholas Ray) e “Mercenários Sem Glória” (André De Toth).

Norman Davies e a Segunda Guerra Mundial

O historiador Norman Davies sugere que o cinema simplifica a Segunda Guerra Mundial e concentra-se, na maioria das vezes, nos Aliados, notadamente na participação dos americanos. Confira no link:

http://www.jornalopcao.com.br/colunas/imprensa/norman-davies-cinema-americano-simplifica-segunda-guerra-mundial

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