Euler de França Belém
Euler de França Belém

Lirismo e política tiram tiram a força da poesia de Thiago de Mello?

“Fica decretado que agora vale a verdade/ Que agora vale a vida/ e que de mãos dadas/ trabalharemos todos/ pela vida verdadeira”

O poeta Óssip Mandelstam escreveu (mais precisamente, declamou; e um agente do KGB anotou) um poema sobre Stálin, no qual o denunciava, dada a violência de seu governo, e apontava o bigode de barata do ditador georgiano. Irritado, mas desconfiado do “poder” do poeta — palavras são cortantes, como facas, sabia João Cabral de Melo Neto —, o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética perguntou ao poeta Boris Pasternak se Mandelstam era um poeta importante, de valor. Aparentemente “sem perceber” direito o que estava ocorrendo, Pasternak enrolou e disse que precisava conversar com o ossetiano sobre a vida e a morte. Stálin desligou o telefone e não mais o atendeu. Pasternak ficou constrangido, porque, se tivesse dito que se tratava de um poeta imenso, que ficaria na história, inclusive por ter desafiado o autocrata, talvez tivesse salvado sua vida. Mandelstam acabou morrendo de tifo num “campo de concentração” do governo comunista.

Thiago de Melo: poeta | Foto: Reprodução

Na sexta-feira, 14, morreu o poeta Thiago de Mello, aos 95 anos, em Manaus, de causas naturais. A morte foi lamentada pelos jornais, o que é natural, e humano. Mas não se fez a pergunta central, e talvez não seja mesmo o momento de fazê-la: qual é o lugar do bardo do Amazonas na poesia brasileira? Difícil responder. Sua poesia lírica encanta muita gente, assim como seu populismo poético-político. É provável que, no meio de tantos poemas, sejam encontradas pérolas refinadas, dignas, quem sabe, de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Mas, se um poeta deve ser avaliado pela média, como situar Thiago de Mello? Acima de J. G. de Araújo Jorge, com certeza, mas abaixo de Mario Quintana, Cecília Meirelles, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Haroldo de Campos e Régis Bonvicino, e bem abaixo de Drummond de Andrade e João Cabral. Sua poesia precisa ser examinada com menos preconceito, de maneira mais cuidadosa e abrangente. Mas é também possível que seu grito político, sob a couraça do lirismo, tenha prejudicado, no geral, a qualidade de sua poesia. Talvez tenha “datado” muito rapidamente parte do escreveu. “Faz escuro mas eu canto” é um de seus versos mais celebrados. O clássico “Os Estatutos do Homem” é belo, impacta os leitores, mas resiste como poesia? Talvez resista…

Poetas-combatentes podem e devem ser engajados? É provável que sim. Porque precisam de seguidores — e Thiago de Mello tinha causas: uma delas a defesa do meio ambiente —, e não só de leitores. Ele é uma espécie de Pablo Neruda brasileiro.

Obituários não notaram que Thiago de Mello também foi tradutor. Traduziu, por exemplo, a poesia do maior poeta peruano César Vallejo.

Thiago de Mello: defensor do meio ambiente e dos direitos humanos | Foto: Global Editora

Homem decente, e posicionado contra a ditadura civil-militar de 1964, Thiago de Mello escapou para o exílio e viveu na Argentina, no Chile (foi preso sob a ditadura cruenta de Augusto Pinochet), em Portugal, na França e na Alemanha. Em 1978, com a Abertura, voltou para o Brasil. Depois de viver no Rio de Janeiro, decidiu retornar ao seu Amazonas natal. O escritor e jornalista Carlos Heitor Cony advertiu-o de que seria esquecido. Na verdade, continuou lembrado. Sobre a floresta — a Amazônia que o mundo parece “cultivar” mais do que o Brasil —, o poeta disse ao “Estadão”, em 2016: “A floresta me fez perder muito da convivência com seres admiráveis; entretanto, a distância e o tempo fazem com que cresça a permanência da pessoa dentro de nossa vida”.

Defensor do meio ambiente, o que o levou a ser ameaçado de morte, Thiago de Mello afirmou, em Havana, em 2005: “Para fazer algo em defesa da humanidade é preciso, em primeiro lugar, que cada um de nós tente persuadir pelo menos um companheiro, que cada um de nós faça qualquer coisa por este planeta Terra tão degradado. (…) A Terra flutua hoje no espaço como um pássaro em extinção”.

Em Mormaço da Floresta, escreveu: “Enfim te descobrimos/Foi preciso que as águas mais azuis apodrecessem,/ que os pássaros parassem de cantar/ que peixe fabulários se extinguissem/tua pele verde fosse aberta/ pelas garras de todas as ganâncias”.

Thiago de Mello talvez tenha sido mais um grande homem — o que não é pouco — do que um grande poeta. Mas seus leitores o consideram um gigante — e talvez isto seja o que importa.

Livros do poeta Thiago de Mello

— Silêncio e Palavras (o primeiro).

— Faz Escuro Mas Eu Canto

— Acerto de Contas

— Melhores Poemas

— Como Sou

— As Águas Sabem Coisas

— Mormaço na Floresta

Os Estatutos do Homem, de Thiago de Mello

(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony

Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade,

que agora vale a vida,

e de mãos dadas,

marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,

inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,

haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV

Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:

O homem, confiará no homem

como um menino confia em outro menino.

Artigo V

Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras.

O homem se sentará à mesa

com seu olhar limpo

porque a verdade passará a ser servida

antes da sobremesa.

Artigo VI

Fica estabelecida, durante dez séculos,

a prática sonhada pelo profeta Isaías,

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos

e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII

Por decreto irrevogável fica estabelecido

o reinado permanente da justiça e da claridade,

e a alegria será uma bandeira generosa

para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor

sempre foi e será sempre

não poder dar-se amor a quem se ama

e saber que é a água

que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia

tenha no homem o sinal de seu suor.

Mas que sobretudo tenha sempre

o quente sabor da ternura.

Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa,

qualquer hora da vida,

uso do traje branco.

Artigo XI

Fica decretado, por definição,

que o homem é um animal que ama

e que por isso é belo,

muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido,

tudo será permitido,

inclusive brincar com os rinocerontes

e caminhar pelas tardes

com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:

amar sem amor.

Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro

não poderá nunca mais comprar

o sol das manhãs vindouras.

Expulso do grande baú do medo,

o dinheiro se transformará em uma espada fraternal

para defender o direito de cantar

e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,

a qual será suprimida dos dicionários

e do pântano enganoso das bocas.

A partir deste instante

a liberdade será algo vivo e transparente

como um fogo ou um rio,

e a sua morada será sempre

o coração do homem.

(Santiago do Chile, abril de 1964)

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