Euler de França Belém
Euler de França Belém

Jornalista lança biografia e diz que Geraldo Vandré não foi torturado pelos militares e que não é louco

Vitor Nuzzi lança uma biografia não-autorizada e desagrada o cantor-compositor de “Disparada” e “Pra não dizer que não falei das flores”

O paraibano Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, que faz 80 anos em 12 de setembro, é um enigma pessoal e musical. Nunca se sabe o que ele é e, sobretudo, o que se tornou. Nas décadas de 1960 e 1970, com o nome de Geraldo Vandré — “sobrenome” arrancado do nome de seu pai, José Vandregísilo —, havia se tornado um mito. Todos o conheciam, para o bem ou para o mal. Principalmente, todos cantavam suas músicas, espécies de hinários laicizados. O cantor e compositor parecia um pastor de um rebanho imenso, com integrantes que militavam na esquerda, a maioria, mas também na direita, que dizia odiá-lo mas por certo o ouvia, quem sabe até com certo fervor. O autor, engagé e enragé, era ouvido, e seguido, por uma legião de fãs ardorosos. Talvez porque o engajado, o homem que sugeria revoluções por minuto, escondia o que de fato era, um autor de boas canções, como Taiguara. As músicas “pregavam” mas continham certa beleza e suavidade, mesmo quando agressivas. Pois este homem estranho, artista criativo, que trafegou pela Bossa Nova, ao lado de Carlos Lyra, depois do exílio, notadamente depois de sua volta, desapareceu, de repente, sem desaparecer inteiramente. Vandré voltou a ser o sr. Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, embora jamais possa deixar de ser Vandré.

Este personagem de Kafka que entrou para o terreno dos mitos, ainda vivo, ganha, por fim, uma biografia, “Geraldo Vandré — Uma Canção Interrompida” (400 páginas), do jornalista Vitor Nuzzi, de 50 anos, oito deles tomados pela febre de contar a história de seu, digamos, ídolo. O autor entrevistou 100 pessoas. Ainda não li o livro. Li os comentários feitos pelos críticos musicais Julio Maria, do “Estadão”, autor da biografia “Elis Regina — Nada Será Como Antes” (Master Books, 423 páginas), e Jotabê Medeiros, da “CartaCapital”.

Julio Maria, excelente crítico de música, avaliza a pesquisa de Vitor Nuzzi. Conta que seis editoras não aceitaram publicar a biografia, por receio de ação judicial, porque se trata de um trabalho não autorizado. Sem apoio, Vitor Nuzzi “fez a revisão, mandou o livro para a gráfica e, agora, faz a distribuição, uma a uma, pelo correio. São, por enquanto, apenas 100 exemplares, que, segundo o autor, não são vendidos”, relata o crítico de “O Estado de S. Paulo”. A apuração, sublinha, é “incansável”.

Procurado por Vitor Nuzzi [foto acima, da “CartaCapital”], para entrevistas, Geraldo Vandré hostilizou-o: “Não tenho interesse nas coisas que você está fazendo”. Ouvido pelo “Estadão”, acrescentou: “Acho isso uma exploração”. Informado pelo repórter de que o livro não estava sendo comercializado, insistiu: “Mesmo assim, é uma exploração. Uma exploração de personalidade”. Não falou, porém, em recorrer à Justiça. Ainda. Espera-se que não o faça.

O jornalista Jotabê Medeiros, num texto para a “CartaCapital”, entrevista o autor da biografia, que revela que Geraldo Vandré “foi um profundo pesquisador da música caipira, fez trilha para Augusto Matraga, que musicou [Guimarães] Rosa. Foi gravado por Sergio Endrigo e Ornella Vanoni. Foi cantado por Joan Baez”.

Depois do imenso sucesso, “um belo dia, em 13 de dezembro de 1968, após um show em Anápolis (GO) com o Quarteto Livre, ele se mandou dirigindo seu Galaxie”, anota Jotabê Medeiros. “Eu parei ali. Acabou a carreira. Não tive mais carreira”, contou Geraldo Vandré, em 2013, numa entrevista concedida ao jornal “Correio Braziliense”.

Sob pressão, Geraldo Vandré exilou-se no Uruguai, daí pulou para o Chile e para a França. Ao voltar, em 1973, foi preso pelos militares. Teria sido torturado? Vitor Nuzzi não acredita que tenha sido torturado. “É uma lenda. A violência que ele sofreu foi psicológica, de um homem muito apegado a seu país que ficou exilado por tanto tempo”, disse ao “Estadão”.

Nuzzi disse a Julio Maria que que, “de todos os compositores exilados, Vandré foi o único que não voltou. Seu corpo, sim, mas sua carreira, jamais”.

Geraldo Vandré teria ficado “louco”? Nada disso, segundo Nuzzi. O cantor e compositor desistente é, no máximo, “excêntrico”.

O único problema dos textos de Julio Maria e Jotabê Medeiros é que não informam ao leitor o que se deve fazer para obter um exemplar da biografia, que não vai para as livrarias, ao menos por enquanto.

Um depoimento

Entre as décadas de 1960 e 1970, meu pai, Raul de França Belém, um homem culto, que lia tudo e era dono de uma memória fabulosa, não perdia um disco de Geraldo Vandré e Chico Buarque. Ficava esperando, ansioso, pelo lançamento de seus discos, LPs ou compactos. Quando chegavam — eram adquiridos pelo sistema de reembolso postal —, meu pai colocava no toca-discos e ouvia horas seguidas, sempre com ar deliciado. Parecia uma coisa religiosa, uma mistura de paixão religiosa, política e estética. Menino, aprendi a ouvir e a apreciar a música de Geraldo Vandré, Chico Buarque e Caetano Veloso (meu pai só não se entusiasmava com aquilo que chamava de “os fricotes daquele baiano genial”).

Raul Belém amava a música dos dois por motivos estéticos e políticos (era de esquerda, com ligação com o Partido Comunista Brasileiro, embora não filiado). Chico Buarque era o seu preferido; eu, talvez mais pelo cancioneiro do que pelas ideias revolucionários, optava quase sempre por Geraldo Vandré, de quem até hoje gosto, muito, apesar de avaliar algumas de suas músicas como até meio pueris (aprecio mesmo as ingênuas, assim como as de Taiguara). Meu pai tinha profunda admiração pela música “Pra não dizer que não falei das flores”, espécie de hino informal, alternativo e revolucionário. Mas sua paixão maior mesmo era pelas músicas “Funeral de um lavrador” — que pediu para que fosse executada em seu funeral, em dezembro de 2011 —, “Pedro pedreiro” e “Construção” (música de rara finura), de Chico Buarque. Mencionava “Fado Tropical” como um hino alternativo, além de sardônico, ao Hino Nacional.

Durante décadas, meu pai guardou zelosamente os discos de Geraldo Vandré e Chico Buarque e buscou informações mais precisas a respeito do primeiro.

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Donizete Santos

Tive o privilégio de conviver com o querido Raul Belém. Em muitos e longos papos, também “bebi” nessa fonte de cultura e sabedoria, ali na nossa Praça Velha de Porangatu. Bom mesmo foi conferir o carinho com que descreve o teu pai. Fica claro que mais que pai, foi um grande mentor na formação dos grandes filhos que legou ao mundo. Nosso Raul Belém foi um grande presente aos que, assim como eu, tiveram o seu convívio e amizade.

Marcos Henrique

Resgatar nossa história é muito importante para nós mais velhos que vivemos os “anos de chumbo”, mas também desvendar a música daquela época para as futuras gerações. “Exumar” aquele Vandré, compreender o que o fez transformar-se em um mito, reposicionar a sua música pelo seu valor artístico contextualizado em sua época, são enfim deveres dos quais não podemos nos eximir.

Juliana

Eu sempre amei profundamente o Geraldo Vandré. O amo até hoje. Tenho vontade de lhe fazer uma visita para conversarmos coisas, tema livre. aAsolidão dele me seduz, pois me pergunto se ele mesmo não se faz compania.
Fica a minha grande admiração. Não gostaria de vê-lo partir sem nunca ter conversado comigo, que sou sua fã desde que ficou em 2º lugar no festival de Augusto Marzagão, mesmo merecendo o 1º , seguindo assim até hoje “caminhando e cantando …”.