Euler de França Belém
Euler de França Belém

Jornal do Brasil volta a circular como impresso em busca da credibilidade perdida

O jornal que lançou escritores, cantores, cineastas e artistas plásticos retorna às bancas do Rio de Janeiro e de Brasília, mas sem ignorar força da internet

Seis livros que resgatam a história do “Jornal do Brasil”, a publicação que, durante anos, fez a cabeça dos brasileiros quando o assunto era política, jornalismo, literatura, música, teatro, cinema, artes plásticas e, até, comportamento

O “Jornal do Brasil” é, além de lenda, uma instituição do jornalismo patropi. Talvez seja possível chamá-lo de a bossa nova do jornalismo. Pode-se falar, até, em “jotabesismo”. Houve um tempo em que lançava modas e firmava a reputação de intelectuais, escritores e cantores. O que saía nas suas páginas continha charme e elegância. Era “a” verdade. A poesia concreta ficou mais, digamos, sólida depois de aparecer e ser discutida no “Caderno B” por, entre outros, Mário Faustino e Ferreira Gullar (depois, brigou com os poetas concretos, notadamente com Augusto de Campos, o único vivo das figuras chaves). Veloso se tornou mais Caetano e Buarque se tornou mais Chico ao serem comentados pelos críticos do, como todos chamam, “JB”. O Cinema Novo se tornou eterno graças aos pitacos dos críticos do “Jotabê”.

Millôr Fernandes, o filósofo do humor, ficou gigante, quiçá gigantesco, num quadradinho da publicação de Maurina Dunshee de Abranches Pereira Carneiro, a condessa Pereira Carneiro, e de Manoel Francisco Nascimento Brito. Lá, numa batalha homérica com um tradutor-embaixador a respeito de traduções de Shakespeare — o bardo inglês “fala” português com simplicidade, sem perder a sofisticação, na pena do craque que era para se chamar Milton, como o poeta britânico, mas o cartorário decidiu distingui-lo, tornando-o único, quase “Milhôr” —, escreveu uma frase antológica : “Não se amplia a voz dos idiotas”.

Alberto Dines, que deveria ser nominado de o Grande, editou o “Jotabê” como se estivesse dirigindo a revista “New Yorker”, em cujo “aquário” focas não nadam, no máximo se afogam. O poeta Reynaldo Jardim, o artista plástico Amílcar de Castro e Janio de Freitas — o iracundo jornalista que escreve na “Folha de S. Paulo” — souberam transformar as páginas do jornal em arte. Também brilharam nas páginas do jornal: Elio Gaspari, Zózimo Barroso do Amaral, Carlos Castello Branco, Carlos Lemos, Villas-Bôas Corrêa e Wilson Figueiredo.

Davi e Golias

No Rio de Janeiro, a cidade que carnavaliza o país, “O Globo” sempre foi mais rico e poderoso. Golias. Mas o “Jornal do Brasil”, Davi, sempre venceu — na opinião dos leitores ricos, remediados e pobres. Consta que 99,9% dos jornalistas de “O Globo” só liam o “JB”. Roberto Marinho, o “companheiro”, e Evandro Carlos de Andrade, o talentoso diretor de redação, figuram entre o 0,1% que lia, consternado, “O Globo”.

Quando o “JB” começou a flertar com a decadência, a não inventar mais bossas — quase passando, como Madame de Stäel, mas não como o café e Balzac, que não passaram —, Evandro Carlos de Andrade foi lá e, de uma tacada, fisgou seus melhores jornalistas e colunistas (como Zózimo Barroso do Amaral). Zuenir Ventura, o príncipe do jornal da condessa, foi levado com choro e velas. Consta que até as impressoras do “JB” choraram com a pilhagem articulada pelo endinheirado doutor Roberto Marinho.

O “JB”, em certa época, tentou ressurgir, com a contratação de jornalistas de primeira linha, como Marcos Sá Corrêa (notável entre os notáveis), Mario Sergio Conti e Roberto Pompeu de Toledo (dono do melhor texto da revista “Veja” e autor de livros seminais sobre São Paulo). Não resta dúvida: produziram jornalismo de qualidade. Mas aos poucos, por falta de dinheiro e, até, inspiração, o jornal foi “virando” um deserto de ideias e talentos. Até se tornar, com o comandante Nelson, não o britânico, um lugar de se fazer negócio. Jornalismo é negócio, lógico. Mas todo jornal morre quando, apostando só no negócio, seu proprietário e seu editor passam a acreditar que se trata unicamente de um meio de ganhar dinheiro. Há que se encontrar um meio-termo, uma maneira de faturar, até alto, sem deixar de se fazer jornalismo.

O fato é que o “JB”, a partir de certo momento, “morreu”… vivo. Parece mas não é um disparate. O jornal abandonou a edição impressa e migrou, de corpo e alma — mais corpo do que alma —, para a internet, em 2010. “Era” uma revolução. Porque, segundo o senso comum, a internet, uma devoradora pantagruélica, iria engolir todos os impressos. Quiçá no curto prazo. O “JB”, sempre revolucionário, seria o primeiro grande jornal a vencer na internet — dando o exemplo e, portanto, sendo o guia genial do povo na nação Verde-Amarela. Mas o tiro, talvez de espoleta, saiu pela culatra. Na internet, espaço da visibilidade coletiva (todos se tornaram criadores-vaidosos), o “Jotabê” se tornou fantasma, deixando de ser comentado por todos — inclusive por seu corpo editorial. Dado seu absenteísmo, “O Globo” cresceu, consolidou-se e deve ser considerado o melhor jornal do Rio de Janeiro e um dos melhores do país. Como o “JB” existia sem existir, o jornal da família Marinho se tornou gente grande, botando banca, lançando modas, conquistando até aqueles que, dado o apoio do jornal à ditadura civil-militar, eram refratários a aparecer em suas páginas. Caetano Veloso e José Miguel Wisnik, por exemplo, se tornaram colaboradores, ao menos por algum tempo.

Hora do Catito

Os russos e os brasileiros um dia tiveram o francês como segunda língua e não à toa ambos os povos apreciam o espiritismo, uma produção de Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec (1804-1869), de Lyon. Pois o “Jornal do Brasil”, que estava morto, “ressuscitou” ou, por assim dizer, voltou a falar com os vivos. Por obra e graça do empresário Omar Resende Peres Filho o Catito (ainda bem que não é caititu, que, fora do bando, vira comida de onça).

Depois de hibernar na internet, o “Jornal do Brasil” voltou a ser impresso e circula no Rio de Janeiro e em Brasília, no mesmo formato de “O Globo” — esqueceram a recente tradição germânica — e, por enquanto, está vendendo bem. Não significa que continuará vendendo, porque muitos compraram por curiosidade, talvez na ilusão de que o novo “JB” é o velho “JB”. O fato é que não dá para retomar e reinstalar o passado num tempo que é avesso exatamente ao passado.

O presente, agora, só dura minutos — quase sempre, segundos. Em tempos de esquecimento co­letivo, dez anos equivalem a um século.

A pergunta de um milhão de yuans (sim, o mandarim será o inglês do futuro) não é: “O ‘JB’ voltou a ser o que era?” Porque não há como, em termos de jornalismo, requentar o passado e torná-lo presente. A pergunta é outra: o “JB” melhorou? Sim, está bem melhor do que o jornal quando era dirigido pelo empresário Nelson Tanure (chegou a contratar Mario Sergio Conti, que sabe comandar equipes jornalísticas, mas não deu continuidade ao projeto). Ganhou mais cara de jornal, dotaram-no de pegada mais firme. Deixou de ser um simulacro. Mas, comparado aos jornalões — o “Estadão”, a “Folha de S. Paulo” e “O Globo” —, deixa a desejar. Com mudanças aqui e ali, com adaptações, o “JB” pode se tornar, de novo, um bom jornal. Octávio Costa, editor de política, e Gilberto Menezes Côrtes, o diretor de redação, são profissionais que sabem fazer jornalismo (Ziraldo, o cartunista de 85 anos, é o chefão da arte). Oxalá, ante as primeiras perdas financeiras — jornais são irmãos-gêmeos de contas no vermelho —, Catito Peres não decida passá-lo adiante, como passarinho rejeitado.

Não se pense que Catito Peres rasga dinheiro em praça pública ou no escritório. Trata-se de um empresário atilado e, ao contrário do que parece, nada nostálgico. Numa entrevista, disse que vai bancar o “JB” no impresso durante algum tempo, mas sabe que o futuro está na internet. Seu objetivo é revalorizar o jornal, torná-lo respeitável outra vez, e, mais tarde, devolvê-lo, quem sabe integralmente, à rede.

Homem de negócio, que não aprecia jogar dinheiro pela janela, Catito Peres fez pesquisas e descobriu o óbvio: jornais impressos faturam mais dinheiro que os jornais exclusivos na internet. Os anúncios dos jornais que circulam nas bancas têm valores maiores. Não será assim por muito mais tempo, sabe o homem que arrendou o “Jotabê” por quarenta anos (ele tem 60 anos). Mas, por enquanto, é assim.

Os jornais estão em crise porque investiram e estão investindo muito na sua consolidação na rede, mas não há faturamento correspondente (todos demitiram jornalistas em 2017 e enxugaram custos, inclusive integrando redações de seus vários meios de comunicação). O acesso é excepcional — um fenômeno — e os jornais, todos eles, se tornaram nacionais e internacionais. Podem ser lidos em qualquer lugar do mundo (as traduções automáticas não são perfeitas, mas permitem que se leia reportagens simples e objetivas). Mas dinheiro é igual ao Curupira: todo mundo sabe que “existe”, mas ninguém, até agora, viu. Por isso, os proprietários dos jornais, sobretudo dos grandes, com estruturas dispendiosas, estão às turras com as redes sociais, notadamente com o Facebook, e com o Google, que se tornou muito mais do que um mero portal de busca de informação. Os jornais têm o mapa — a trilha foi aberta exatamente pelo Google e pelo Facebook —, mas ainda não descobriram a mina.

Omar Catito Peres, o empresário que comprou o restaurante Piantella, em Brasília, e agora relança o “Jornal do Brasil” nas bancas, com o objetivo de aumentar o faturamento

Livros sobre o JB

A história do “JB” — fundado em 1891, logo depois da proclamação da República — é contada direta e indiretamente em vários livros. O mais recente é “Até a Última Página — Uma História do Jornal do Brasil” (Objetiva, 552 páginas), do jornalista Cezar Motta.

A jornalista Belisa Ribeiro escreveu “Jornal do Brasil, História e Memória — Os Bas­ti­dores das Edições Mais Mar­cantes de um Veículo Inesque­cível” (Record, 406 páginas).

“Enquanto Houver Cham­panhe, Há Esperança — Uma Biografia de Zózimo Barroso do Amaral” (Intrínseca, 672 páginas), do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos. A vida de Zózimo “conta” a história (de parte) do jornal. Zózimo reinventou o colunismo social — mostrando que o colunista deve ser, acima de tudo, repórter — e influenciou os demais colunistas.

“Todo Aquele Imenso Mar de Liberdade — A Dura Vida do Jornalista Carlos Castello Branco” (Record, 560 páginas), do jornalista Carlos Marchi. É outra história do “JB” relatada a partir da vida de um repórter excepcional.
“E a Vida Continua — A Trajetória de Wilson Figueiredo” contempla as memórias do ex-editor do “JB”, com organização de Moacyr Andrade. A história do jornal corre paralelamente, às vezes como “personagem” central da trama.

Villas-Bôas Corrêa (pai de Marcos Sá Corrêa) publicou o magnífico “Conversa Com a Memória — A História de Meio Século de Jornalismo Político” (Objetiva, 284 páginas). Ele foi um dos mais longevos repórteres do “Jotabê”.

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