O Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) condenou, em agosto de 2026, o sargento do Exército Antônio Waneir Pinheiro de Souza, o Camarão, por ter estuprado a presa política Inês Etienne Romeu, na Casa da Morte de Petrópolis — espécie de mini-batalhão de torturadores e assassinos do Exército —, há 55 anos, em 1971. O criminoso pode recorrer. A pena fixada pela juíza federal Maria Isadora Frazão, numa sentença exemplar, foi de 12 anos, 11 meses e 25 dias de prisão, em regime inicial fechado, além da perda do cargo público militar então ocupado. A magistrada acatou a denúncia do Ministério Público Federal. A integrante do Poder Judiciário sublinhou que restou configurado crime contra a humanidade. O crime, portanto, não está prescrito. Eis um trecho da sentença: “Importa rejeitar a tese, veiculada nas alegações finais ofertadas pela defesa, no sentido de refletir esta persecução penal ‘revanchismo histórico’ (…). Aludido discurso se lastreia na mesma perspectiva ideológica que imperou durante o regime militar que ainda grassa: por meio dele se reduz a sociedade a dois grupos antagônicos, em polarização extrema; desacreditam-se as instituições — em especial, o funcionamento imparcial do sistema de justiça —; e, por último, subestima-se o valor humano, que é preterido por outros princípios e objetivos. Mas não há desforra, tampouco outros interesses, senão fazer valer o compromisso assumido pela ordem estatal brasileira em, de forma indeclinável, incondicional e atemporal, tutelar a dignidade da pessoa humana, em prol de um futuro livre de violações intoleráveis”.

Cadê a estátua da heroína Inês Etienne Romeu (1942-2015 — viveu 72 anos) na Praça dos Três Poderes? Estátua, ainda que merecida, não há.

Presa para ser assassinada, Inês Etienne, dada sua astúcia e resistência física, sobreviveu. Simulou ter aceitado ser “colaboracionista”, o que nunca foi, e, em seguida, denunciou seus captores-torturadores. A jovem tinha 29 anos.

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Inês Etienne Romeu e Jarbas Silva Marques no casamento, em 1975; os dois eram presos políticos | Foto: Acervo da família

Dirão: heroica por quê? Pelo que sofreu e, intimorata, decidiu e soube contar, muito bem, sobre a história da barbárie perpetrada pelo Exército do governo do general-presidente Emilio Garrastazu Médici. Exército de uma mulher só, Inês Etienne lutou contra a ditadura, ao seu modo — denunciando-a tal como era: uma barbárie oficial. Com ela, a história ganhou. Os torturadores ficarão mal, para sempre, ante a história do país.

A ordem de Médici, do ministro do Exército, Orlando Geisel, e do general Milton Tavares de Souza, o Miltinho (chefe do Centro de Informações do Exército), era: matem e nem perguntem por quê. Militares sádicos, com licença para torturar e matar, não hesitavam.

“Goianos” na história de Inês Etienne

Inês Etienne tem a ver com o Estado Goiás. Primeiro, porque ouviu os lamentos do advogado goiano Paulo de Tarso Celestino da Silva sendo torturado na Casa da Morte, em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Militares o torturaram, por cerca de 30 horas seguidas. Colocaram-no pau de arara e aplicaram choques elétricos.

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Paulo de Tarso Celestino: goiano que foi torturado e, certamente, morto na Casa da Morte de Petrópolis | Foto: Reprodução

Os torturadores de Paulo de Tarso Celestino são: Dr. Roberto, Laecato, Dr. Guilherme, Dr. Teixeira, Zé Gomes e Camarão. “Obrigaram-no a ingerir uma grande quantidade sal. Durante muitas horas, eu o ouvi suplicando por um pouco de água.”

Paulo de Tarso Celestino é dado como “desaparecido”, o que, no caso, é sinônimo de assassinado.

Segundo, quando presa, Inês Etienne casou-se com o jornalista e historiador Jarbas Silva Marques (o cartunista Ziraldo foi padrinho do casamento). Guerrilheiro, foi preso, torturadíssimo e condenado à prisão, de onde saiu com sequelas físicas.

O mineiro Jarbas Silva Marques radicou-se em Goiânia e, depois, em Brasília — onde, com quase 83 anos, reside. É uma das vozes mais lúcidas e consequentes do período conhecido como anos de chumbo (e não só). Amigos e admiradores cobram o tempo todo: “Escreva suas memórias”.

Poucos sabem, mas Jarbas Silva Marques sabe cantar — é dono de uma poderosa voz de cantor lírico. Inês Etienne encantou-se com sua voz e, também, com sua delicadeza e generosidade.

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Antônio Waneir Pinheiro de Souza, o Camarão (jovem e, à esquerda, idoso; hoje ele tem 77 anos): o sargento-paraquedista do Exército torturou e estuprou Inês Etienne, em 1971 | Fotos: Reproduções

Casa da Morte era um puxadinho do Exército

É hora de uma breve pausa para falar de uma palavra useira e vezeira nos jornais e, inclusive, em livros acadêmicos.

Rever palavras, ao modo do “Crátilo” de Platão — dando-lhe o sentido verdadeiro, para além do consagrado pelo lugar-comum —, é uma das missões de quem pensa e escreve.

Por isso, sugiro que se pare de usar “porão” como sinônimo de unidade clandestina das forças armadas. Como se fosse um não-lugar, sem responsabilidade oficial.

A Casa da Morte não era, a rigor, um porão, e sim uma extensão de um quartel do Exército. Era, por assim dizer, um puxadinho.

Tanto que, ao chegar ao local, Inês Etienne, excelente observadora, notou, de cara, que o lençol da cama de campanha continha as iniciais CIE, quer dizer, era do Centro de Informações do Exército.

Além da estrutura ter sido montada pelo Exército, com materiais públicos, seus ocupantes eram militares. Então, a casa era uma unidade do Exército, e não um mero porão.

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Inês Etienne Romeu sai do Instituto Penal Talavera Bruce, no Rio de Janeiro, em 29 de agosto de 1979 | Foto: Reprodução

(Vale o registro de que não se torturava e matava apenas nas centrais clandestinas. O jornalista Vladimir Herzog, Vlado, e o operário Manuel Fiel Filho foram assassinados — suicidados — nas dependências do Destacamento de Operações de Informação-Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), órgão subordinado ao II Exército, em São Paulo. O primeiro em 1975 e o segundo em 1976.)

Guerrilheira e sequestro de embaixador

Inês Etienne era adicta à Vanguarda Popular Revolucionária, uma das mais aguerridas organizações da guerrilha urbana. Em 1970, no dia 7 de dezembro, a VPR sequestrou o embaixador suíço Giovanni Bucher (1913-1992).

No cativeiro, Giovanni Bucher jogou biriba com o capitão do Exército Carlos Lamarca (1937-1971 — foi assassinado aos 33 anos), um dos líderes da VPR.

Por ter participado do sequestro do diplomata europeu, Inês Etienne foi caçada, de maneira implacável, por militares e policiais civis.

No dia 5 de maio de 1971 — há 55 anos —, um grupo de agentes comandado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, da Polícia Civil, prendeu Inês Etienne, na Avenida Santo Amaro, em São Paulo.

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Giovanni Bucher: embaixador suíço sequestrado no Brasil | Foto: Reprodução

Um velho camponês, “Primo”, delatou Inês Etienne. “Assistiu à minha prisão, sem ser molestado.” Havia sido “virado” pelos agentes da ditadura civil-militar.

Caíram por causa do “cachorrismo” de Primo dois membros da esquerda: José Raimundo da Costa e Aluísio Palhano, ex-líder dos bancários. (No seu relatório, Inês Etienne menciona Palhano e José Roberto Rezende.)

Segue, agora, o circunstanciado relatório de Inês Etienne, de 18 de setembro de 1971.

O interrogatório de Inês Etienne começou no Deops, em São Paulo. “Me colocaram no pau de arara e me espancarem barbaramente. Foram-me aplicados choques elétricos na cabeça, pés e mãos.”

Como havia uma pessoa da esquerda em sua residência, na Guanabara (Rio de Janeiro), Inês Etienne não o revelou aos torturadores. Mas decidiu contar que teria um encontro, no dia seguinte, em Cascadura. “Era minha intenção suicidar-me tão logo chegasse ao local.” Estava aterrorizada com a tortura.

Ao chegar ao local combinado, Inês Etienne jogou-se “sob as rodas de um ônibus”. Ferida, quase inconsciente, foi levada para o Hospital da Vila Militar e, de lá, para o Hospital Carlos Chagas.

No Hospital Central do Exército, agentes invadiram o quarto e tentaram interrogá-la. Mas um médico ousou enfrentar os militares e não permitiu.

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Inês Etienne Romeu, ao deixar a prisão, abraça sua mãe, Maria Etienne Arreguy | Foto: Reprodução

Mas os militares não desistiram. No dia 8 de maio de 1971, retiraram Inês Etienne à força do hospital e a jogaram numa caminhonete C-14.

De lá foi levada para a letal Casa da Morte, em Petrópolis, de onde ninguém saiu vivo — exceto Inês Etienne.

O dono da casa era o alemão Mario Lodders — que teria espionado para os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Ele visitava os militares com frequência, sem participar das atrocidades, mas tinha conhecimento delas. Sempre precisa, Inês Etienne lembrou até do nome de seu cachorro. Era Kill, um cão dinamarquês.

Dado o tempo de prisão — três dias —, Inês Etienne não tinha nada de novo a revelar aos militares. Porque, quando um guerrilheiro não comparecia aos pontos, desconfiava-se de que havia sido preso.

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A prisioneira Inês Etienne Romeu, enquadrada na Lei de Segurança Nacional | Foto: Reprodução

Mesmo sabendo que as “informações” de Inês Etienne não tinham mais valia, os militares continuaram a torturá-la — o que revela sadismo dos James Bonds do Exército.

O parente de Carlos Heitor Cony

Ao recebê-la na Casa da Morte, o Dr. César começou a chutar a perna machucada da prisioneira. Teve de ser contido por outro militar.

Inês Etienne não cita o nome real de Dr. César. Era o então major José Brant Teixeira, do CIE. (Brant, como Dr. César, combateu a Guerrilha do Araguaia. Segundo o doutor em História Hugo Studart, citando o major Curió, “teria sido Brant a pessoa que levou a guerrilheira Dinalva Conceição Teixeira, Dina, para execução”.)

O relatório de Inês Etienne cita os nomes das pessoas que operavam na Casa da Morte: Dr. Bruno (o coronel Cyro Guedes Etchegoyen, cujo nome não é citado no relatório), Dr. Pepe (o tenente-coronel Orlando de Souza Rangel, nome não mencionado no relatório), Dr. Teixeira (major Rubens Paim Sampaio, nome não arrolado no relatório), Dr. Roberto (o major Freddie Perdigão Pereira — um dos mais violentos da Casa da Morte, de acordo com a ex-prisioneira). Dr. Guilherme, Dr. Carneiro (o médico Amílcar Lobo Moreira da Silva), Dr. Cesar (José Brant Teixeira), Raul, Márcio, Rui, Pardal, Camarão (o soldado e, depois, sargento Antônio Waneir Pinheiro de Souza), Mauro (operou em Cuba, por três anos, “a serviço dos órgãos de informação do governo brasileiro, pós -1964), Zé Gomes ou Zezão (o sargento Ubirajara Ribeiro de Souza), Laecato (o sargento Rubens Carneiro, o Boamorte; era negro; foi um dos torturadores de Paulo de Tarso Celestino), Laurindo (Luís Cláudio Azeredo Vianna), Marcelo (contou a Inês Etienne que era parente do jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, que, claro, nada tem a ver com os fatos narrados), Alan, André e Otávio

Camarão contou a Inês Etienne que Carlos Alberto Soares de Freitas “foi o primeiro ‘terrorista’ que esteve preso” na Casa da Morte. Participou da VPR e fundou a VAR-Palmares.

Os agentes da Casa da Morte exigiam que Inês Etienne revelasse “onde estava o dinheiro da Organização” (a VPR), “quais os membros do ‘esquema médico’ da VPR”, “onde estivera escondido Carlos Lamarca, quando de seu encontro com ‘Douglas’”.

Avaliando que Inês Etienne estava mentindo, os agentes voltaram a espancá-la, “ininterruptamente”.

Aplicaram-lhe injeções de pentatol sódico, o “soro da verdade”, e continuaram com os choques elétricos.

Paulo Malhães, coronel; Luiz Cláudio, torturador da Casa da Morte; e Freddie Perdigão, coronel do Exército; mais tarde se vincularam a bicheiros do Rio de Janeiro | Fotos: Reproduções

“Um dos mais brutais torturadores arrastou-me pelo chão, segurando pelos cabelos. Depois, tentou estrangular-me e só me largou quando perdi os sentidos. Esbofetearam-me e me deram pancadas na cabeça”, relata, com precisão cirúrgica, Inês Etienne. Era o Dr. Roberto — Freddie Perdigão.

“Colocavam-me completamente nua, de madrugada, no cimento molhado, quando a temperatura estava baixíssima. (…) Fui várias vezes espancada e levava choques elétricos na cabeça, nos pés, nas mãos e nos seios”, relata. O que os torturadores queriam? Talvez que tivesse uma parada cardíaca ou uma pneumonia e morresse.

Freddie Perdigão e sadismo militar

“Dr. Roberto [Freddie Perdigão] me disse que eles não queriam mais informação alguma; estavam praticando o mais puro sadismo pois eu já fora condenada à morte e que ele, Dr. Roberto, decidira que ela seria a mais lenta e cruel possível.”

Os militares obrigaram Inês Etienne a assinar três documentos: “Uma análise sobre as esquerdas, os motivos de minha saída da organização e uma crítica sobre os órgãos de repressão do governo”. Tudo pura encenação. A prisioneira, um “autômato” (moída pela tortura), era obrigada a escrever e assinar.

O nome de Inês Etienne, informou Camarão, “já estava no Superior Tribunal Militar”. Portanto, seu sequestro havia se tornado conhecido.

Quando pediu para ser levada à Justiça Militar, os carcereiros disseram que “sabia demais” e, por isso, não podia ser liberada para ir ao STM, que seria “brando”.

Inês Etienne dando tchau
Inês Etienne sobreviveu e não titubeou: revelou a história da Casa da Morte | Foto: Reprodução

Certo dia, o Dr. Teixeira (Rubens Paim Sampaio) propôs a Inês Etienne que se matasse, alegando que ela já havia sido condenada à morte.  “Aceitei e pedi um revólver, pois já não suportava mais.”

O Dr. Teixeira exigiu um suicídio público. Inês Etienne deveria se jogar debaixo de um ônibus. Aceitando a oferta, foi levada a uma rua. Mas, chegando lá, desistiu e começou a chorar e a gritar, atraindo a atenção de populares.

Levada de volta à Casa da Morte, foi, mais uma vez, barbaramente torturada: choques elétricos, banhos gelados na madrugada, “telefones”, palmatórias. “Espancaram-me no rosto, até ficar desfigurada.”

Camarão, o estuprador

“Márcio invadia minha cela para ‘examinar’ meu ânus e verificar se Camarão havia praticado sodomia comigo.” Márcio a obrigava a pegar no seu pênis.

“Fui estuprada duas vezes por Camarão e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua”, conta.

Em julho de 1971, o Dr. Pepe (Orlando de Souza Rangel) disse que Inês Etienne deveria se tornar “agente da repressão” e se infiltrar na VPR. “Fingi aceitar pois eu precisava quebrar a minha incomunicabilidade.”

Inês Etienne e a irmã Celina
Inês Etienne e sua irmã, Celina Romeu: a bravura feminina contra a ditadura | Foto: Reprodução

A jovem guerrilheira advertiu que a VPR estava “liquidada”. Dr. Pepe informou que ainda havia guerrilheiros e que outros estavam prestes a chegar do exterior, possivelmente do Chile e de Cuba.

Percebendo que Inês Etienne precisava de cuidados médicos, os militares chamaram o médico Dr. Carneiro (Amílcar Lobo).

Mesmo “negociando” com os militares, Inês Etienne tentou suicidar-se pela segunda vez. Não conseguiu.

Os militares forçaram Inês Etienne a assinar um contrato de trabalho. Ela se “comprometia a colaborar com os órgãos de segurança em troca” da “liberdade e de dinheiro”.

“Obrigaram-me a gravar um ‘tape’ em que me declaro agente remunerada do governo, e filmaram-me contando notas de dez cruzeiros.”

Os militares disseram que ela seria entregue à família em Belo Horizonte, mas seguiria sendo monitorada.

Entretanto, depois de ouvir conversas entre Pardal e Laurindo, Inês Etienne concluiu que pretendiam matá-la. Ela cortou os pulsos. Mas acabou desistindo do suicídio e gritou.

A integrante da VPR também tentou suicídio engolindo vidro moído.

Fora da Casa da Morte

Os militares informaram que Inês Etienne seria levada, no dia 11 de agosto de 1971, para Belo Horizonte. Ganhou o “nome” de Maristela de Castro. Ela havia ficado presa 96 dias na Casa da Morte.

Deixada na porta de casa de uma irmã, foi alertada de que, se fizesse alguma denúncia, seria “suicidada” na prisão.

A irmã de Inês Etienne comunicou os fatos aos órgãos de segurança e solicitou a presença do major Boffa, do SNI. Em seguida, a ex-integrante foi internada num hospital, tal a sua debilidade física.

O major Orlando, do Exército, compareceu ao hospital para interrogá-la. Ele queria saber a identidade de seus captores. Perspicaz, ela não disse. Revelou apenas que havia sido presa pelo delegado Sérgio Fleury.

No dia 16 de setembro de 1975, o Dr. Pepe apareceu no hospital. “Tudo o que combinamos está de pé, você terá de trabalhar para nós.”

Heleny Telles Ferreira Guariba
Heleny Telles Ferreira Guariba: uma das vítimas da Casa da Morte | Foto: Reprodução

No dia seguinte, o Dr. Pepe (Orlando de Souza Rangel) e o Dr. Bruno (Cyro Guedes Etchegoyen) disseram que Inês Etienne deveria ir para um convento, no Rio de Janeiro, onde receberia a visita de um deles, “a fim de ser ‘recuperada’, ou melhor, para que eu me tornasse uma agente do governo. Teria a obrigação de entregar os remanescentes da VPR”.

O policial militar Márcio confidenciou que os militares mataram Walter Ribeiro Novais, da VPR. Mataram também Heleny Guariba. “Foi barbaramente torturada durante três dias, inclusive com choques elétricos na vagina.”

Se não colaborasse, os militares divulgariam o vídeo-tape no qual Inês Etienne parecia “colaboradora” — o que nunca foi. “Ameaçaram-me de morte ou de condenação para o resto da vida, nas prisões.”

Heleny Guariba: morte em Petrópolis

Com sua memória prodigiosa — lembrando a de Nadejda Mandelstam, a mulher do poeta Óssip Mandelstam —, num anexo do relatório, verdadeiro documento histórico, Inês Etienne faz outras revelações.

Na Casa da Morte — entrava-se lá para morrer —, Inês Etienne viu o camponês nordestino Mariano Joaquim da Silva, o Loyola. Barbaramente torturado, foi assassinado. “Dr. Teixeira [Rubens Paim Sampaio] disse que Mariano fora executado porque pertencia ao comando da VAR-Palmares, sendo considerado irrecuperável pelos agentes do governo.”

Mariano Joaquim da Silva revelou a Inês Etienne sobre a prisão de Carlos Alberto Soares de Freitas. “Dr. Pepe confirmou-me que seu grupo ‘executara’ Carlos Alberto. (…) Disse-me que seu grupo não se interessa em ter líderes presos e que todos os ‘cabeças’ seriam sumariamente mortos.”

Dr. Pepe revelou que Marilena Vilas Boas Pinto havia sido assassinada na Casa da Morte.

Sobre o deputado Rubens Paiva, Inês Etienne ouviu — do Dr. Pepe — que morreu sob tortura. Teria sido uma “mancada” dos militares. O pai do jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva foi assassinado, não na Casa da Morte, e sim nas dependências do DOI do I Exército, no Rio de Janeiro.

Aluísio Palhano foi assassinato na Casa da Morte. Inês Etienne ouviu de Mariano Joaquim da Silva que “seu estado físico era deplorável”. Ela ouviu sua voz, quando ele era interrogado.

Dr. Guilherme contou a Inês Etienne que Ivan Mota Dias foi executado pelos militares.

Márcio confidenciou que os militares mataram Walter Ribeiro Novais, da VPR. Mataram também Heleny Guariba. “Foi barbaramente torturada durante três dias, inclusive com choques elétricos na vagina.”

José Raimundo da Costa “foi morto poucas horas depois de sua prisão”.

Dr. Teixeira contou a Inês Etienne que o Cabo Anselmo começou a colaborar com a repressão em 1971. “Fizeram-me perguntas sobre fatos de que apenas o Cabo Anselmo tinha conhecimento.” (O ex-marinheiro foi “virado” pelo delegado Sérgio Fleury e se tornou um “cachorro” dos militares e policiais civis.)

Depois de sair da Casa da Morte, Inês Etienne ficou presa por oito anos.

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Inês Etienne Romeu: uma vida sempre de muitas lutas | Foto: Marcos Tristão

A estranha história do marceneiro

Um marceneiro entrou na casa da historiadora Inês Etienne. Pouco depois, em 11 de setembro de 2003, foi encontrada caída e ensanguentada, no seu apartamento, no bairro da Consolação, em São Paulo.

O caso não foi elucidado. Ainda assim, a polícia o registrou como “acidente doméstico”.

A brava Inês Etienne morreu no dia 27 de abril de 2015, aos 72 anos, em Niterói, no Rio de Janeiro.

Não passou da hora de colocarem sua estátua na Praça dos Três Poderes, quiçá ao lado do Panteão da Pátria.

A repórter investigativa Juliana Dal Piva, autora de um excelente livro sobre o deputado Rubens Paiva, assassinado pela ditadura, em 1971, planeja escrever um livro sobre a Casa da Morte. Neste mini-batalhão de torturadores e assassinos morreram cerca de 22 pessoas da esquerda. Talvez mais.

A jornalista destaca o caráter “minucioso” do relatório de Inês Etienne. Denunciar publicamente os figurões da tortura foi e é um ato de coragem.

História cruenta do mini-Eichmann dos trópicos

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