Euler de França Belém
Euler de França Belém

Homem do establishment da Igreja Católica, não é justo apresentar d. Arns como militante da esquerda

Dom Paulo Evaristo Arns lutou contra os rigores da ditadura civil-militar, a perseguição e tortura de presos políticos, mas não deixou jamais de ser um grande evangelizador

Cardeal tinha 96 anos e estava internado em um hospital de São Paulo | Foto: Reprodução / Flickr Arquidiocese de São Paulo

Cardeal tinha 96 anos e estava internado em um hospital de São Paulo | Foto: Reprodução / Flickr Arquidiocese de São Paulo

O cardeal dom Paulo Evaristo Arns morreu na quarta-feira, 14, aos 95 anos. Os elogios ao arcebispo emérito de São Paulo são merecidos, justos. Porém, ante algumas postagens, que pretendem transformá-lo num agente da esquerda, é preciso apresentar outra visão. O religioso era um grande homem da respeitável Igreja Católica — não era um militante da esquerda e, portanto, não pregava a revolução e o conflito entre as classes sociais.

A esquerda pensa (ou pensava) em usar os pobres, “transformados” em proletários-revolucionários, para produzir a revolução. É assim: uma coisa fria, racionalista. O franciscano Arns, pelo contrário, havia feito uma opção pelos pobres. Estava ao lado deles, independentemente se fossem revolucionários ou reacionários.

Na ditadura, como tantos frades, poderia ter se mantido tão-somente como um pregador religioso — o que não deixa(ria) de ter sua importância. Mas decidiu salvar vidas de guerrilheiros — e esquerdistas que nem eram guerrilheiros — e denunciar a tortura. Ao estabelecer diálogo com próceres da ditadura civil-militar, como o general Golbery do Couto e Silva, eminência parda dos governos dos presidente Ernesto Geisel e João Figueiredo (até o Riocentro), Arns tornou-se um hábil mediador de conflitos.

O fato de defender presos políticos, de criticar as torturas nos e fora dos porões da ditadura, não transforma Arns, insistamos, num militante da esquerda patropi. Era, fundamentalmente, um grande e digno homem do establishment católico. Até era companheiro de jornada da esquerda, contra a iniquidade da ditadura, mas era, acima de tudo, um evangelizador. Sua opção pelos pobres não equivalia a uma opção pela esquerda.

O livro “Brasil Nunca Mais”, inspirado por Arns e elaborado por uma equipe multidisciplinar, é um documento histórico sobre a ditadura brasileira. Parte dos que apoiam ou apoiaram a ditadura, a que não é verdadeiramente liberal — em geral liberais são contrários à tortura e à violência —, tratou a obra como revanchista. Não é, evidentemente. Trata-se de uma pesquisa exaustiva que documenta o que ocorria dentro dos governos militares e não, como muito pensam, apenas nos porões. Aliás, pode-se dizer que os porões eram mais oficiais do que alguns querem fazer crer.

Arns, como o papa Francisco — um dos estadistas e religiosos mais admiráveis da atualidade —, era defensor de uma vida melhor para todos. Os religiosos são parecidos, embora, até por ser papa, Francisco tenda a ser menos radicalizado. Mas, como jesuíta, é extremamente disciplinado e vai mudar a Igreja Católica. Mudá-la não é o mesmo que desfigurá-la. O que vai fazer é torná-la contemporânea de todos os homens, mas não apresentá-la como uma instituição avançadinha para agradar intelectuais e a mídia. Francisco não é um populista, frise-se. É uma espécie de Winston Churchill da Igreja Católica. Não é um homem de esquerda, como Arns não era. Dignitários do centro do poder da Igreja Católica podem até ser progressistas — palavra uma tanto vaga, diria Flaubert, o autor do “Tolicionário” —, mas jamais serão socialistas ou comunistas.

Francisco e Arns são, acima de tudo, grandes figuras humanistas. Sublinhe-se que os humanistas sempre foram vistos com desconfiança pelas esquerdas ortodoxas.

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Adalberto De Queiroz

Bravo!