Euler de França Belém
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Grafiteiros fazem “arte” no Centro Cultural Oscar Niemeyer e provocam polêmica no Facebook

Maestro Otávio Brandão diz que se trata de um desrespeito a uma obra do arquiteto mais famoso do Brasil. Há quem defenda a intervenção dos grafiteiros

Oscar Niemeyer é visto como uma espécie de arquiteto-escultor. As construções que projetou tem um quê de escultura, de arte, e não meros locais para se abrigar — sejam locais públicos, como centros culturais, congressos nacionais, palácios administrativos, sejam casas. Pelo caráter artístico, vários de seus cultores defendem que são obras “imexíveis” — diria o ex-ministro Antônio Rogério Magri, espécie de Glauber Rocha da plebe. Os designers goianos do Bicicleta Sem Freio, elogiados no Facebook pelo poeta, jornalista e agitador cultural Adalberto Queiroz, grafitaram, com autorização do setor de cultura do governo de Goiás, parte do Centro Cultural Oscar Niemeyer — os fundos da biblioteca (que, aliás, não funciona e por isso há quem a chame de Penélope, sim, do Ulisses de Ítaca, da “Odisseia” do grego Homero). Se Adalberto e várias outras pessoas aprovaram, Ibis Soares Brandão e o maestro Otávio Brandão rejeitam a interferência, sugerindo que aviltaram a obra do arquiteto que, ao lado de Lucio Costa, pensou Brasília, a cidade-escultura. A seguir, colhemos os posts mais polêmicos e mais bem formulados expostos no Facebook. Se sentir um pouco de falta de lógica, aqui e ali, o leitor terá de considerar que se trata de uma conversa informal, numa rede social.

Ibis Soares Brandão, produtora cultural e socióloga: Sede do Partido Comunista Francês, projetado por Oscar Niemeyer na década de 1960 (http://www.archdaily.com.br/…/classicos-da-arquitetura-sede…). Esta obra é considerada um patrimônio, é intocável. Enquanto em Goiânia …

Otávio Soares Brandão, maestro: Tive a honra de ser convidado para realizar o concerto de abertura do Qwartz 2009 realizado na emblemática coupole Niemeyer. Verifiquei o respeito e admiração que a cultura francesa tem com Dr. Oscar. Ele é considerado de nível internacional — um dos gênios do século XX. Qualquer intervenção só poderia ter alguma justificativa se fosse realizada por gênios da altura do Niemeyer, como por exemplo Picasso. Lamentável, e põe lamentável nisto. O brasileiro, como afirmava o saudoso Nelson Rodrigues, tem mania de denegrir suas expressões culturais, e no caso a maior delas, o nosso Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho

Marcos Fayad, diretor de teatro e ator: Otávio Soares Brandão e Isis se lembram do meu post sobre o provincianismo, a breguice e a pobreza de espírito que predominam por aqui? Esta droga visual aí é só um mero reflexo disso tudo… Jecas-tatus 2015!

Otávio Soares Brandão: Caro Marcos Fayad, é isso aí; eles não têm noção de nada. São sempre os mesmos equívocos.

Marcos Fayad: Jecas não evoluem, Otávio, por isso os mesmos equívocos. Já houve um “secretário de Cultura” que mandou cobrir uma pintura do Siron do Centro Cultural Martim Cererê. Não cito o nome dele pra não lhe dar crédito…já tá mergulhado no ostracismo merecidamente

Ibis Naves Tavares: Marcos Fayad, achei ótimo vc deixar no esquecimento. Rss

Deolinda Taveira, restauradora: Ibis e Otávio, se entendi, essa não é um intervenção definitiva, e poderá e será posteriormente retornar ao branco infinito. É diverso de cobrir uma obra do Siron, e no futuro poderá ser igual, se for reconhecida como obra de arte, aí o branco cobrirá uma obra do grupo BSF. Gostaria de ver de perto.

Otávio Soares Brandão: Cara Deolinda Taveira, nós te agradecemos pelo comentário, mas, caso seja possível, gostaríamos que você o explicitasse melhor.

Otávio Soares Brandão: Injustificável, cara Deolinda, porque é evidente que o grupo BSF nem tem a mesma dimensão, nem de longe, do nosso gênio maior que é o doutor Oscar.

Deolinda Taveira: Otávio, é sabido que o trabalho do Oscar é por si só uma obra de arte, não sei de nenhum projeto dele que assim não seja reconhecido. Certo? O projeto de Gyn também reconhece isso, todavia foi permitida uma intervenção em um dos paredões, sendo essa intervenção feita por um grupo de jovens artistas, que é o Bicicleta sem Freio. A intervenção efetuada não tem caráter de permanência, segundo depoimentos, como por exemplo o do Fabrício Nobre. A proposta e o compromisso são de que se retorne ao branco imaculado em um futuro próximo. Ou seja, o caráter dessa interferência não prevê sua manutenção e permanência no local. Entretanto, o que é uma obra de arte? Já nasce obra de arte? Penso que se torna obra de arte quando é reconhecida como tal, e daí, imagino, que neste futuro próximo, quando está previsto o recobrimento da intervenção do BSF, alguém ou grupos já terão reconhecido como obra de arte, e será uma obra de arte que se transformará em um paredão branco no horizonte. A exemplo da obra do Siron no Martim Cererê. Então, nesse momento me abstenho de dizer que se destruiu uma obra do Centro Oscar Niemeyer, porque, a rigor, acho que não aconteceu isso, pela reversibilidade do processo, mas concordo que soa estranho, e isso quero ver de perto. Até por que gosto do trabalho colorido dessa moçada, arte urbana, interferências que nos mostram prédios, estruturas, que nem percebíamos. No fim, antes que recubram de branco, o que fatalmente acontecerá, quero ver de perto.

Ibis Soares Brandão: Ana Lucia Bizinover, Oscar nos doou (para mim e meu parceiro, Otávio Henrique Soares Brandão) um projeto de teatro maravilhoso e não nos cobrou nem um centavo. Voilà notre photo com Jacqueline e Pierre Schaeffer que vieram de Paris para prestigiar o lançamento da pedra fundamental . Esse é o Oscar que amamos.

Pedro Augusto Baldanza: Respeito a obra do Oscar, porém acredito que ele aonde estiver deve estar adorando esses jovens artistas pela transformação das suas frias paredes em arte renovável a qualquer instante. Acho isso genial gente! Muito melhor coloridos do que frios.

Otávio Soares Brandão: Caro Pedro, respeito o nosso gênio maior; as frias paredes são criações do nosso Oscar.

Pedro Augusto Baldanza: Mas pense bem, meu bom Otávio! Não vejo como falta de respeito a utilização das paredes em painéis renováveis é claro dentro de um contexto artístico. A vida está cinza demais e acredito que o nosso bom Oscar deve curtir.

Otavio Soares Brandao: Caro Pedro, no tênis tem uma expressão que Nadal não joga com um iniciante porque não dá jogo. Um virtuose não pode tocar com um iniciante, porque este puxa o virtuose para baixo. A vida é assim, gostando ou não, colorida ou em branco.

Pedro Augusto Baldanza: O inconformismo com a mesmice é que fez a humanidade progredir. Não esqueça disso, maestro.

Ana Lucia Bizinover: Credo cruz. Não sei se o Oávio Soares Brandão considera o violinista Itzhak Perlman um virtuose. Talvez esteja muitas pautas abaixo de gênios menos ouvidos ao violino.

Ibis Soares Brandão: Caro Flavinho Faria, Oscar Niemeyer é e sempre será considerado uma das figuras-chaves no desenvolvimento da arquitetura moderna, ao lado de Le Corbusier, Lloyd Wright, Gropius, Charles Édouard Jeanneret-Gris.

Ana Lúcia Bizinover: Picasso, Kandinski, Klimt, Miro, Matisse. Tudo psicografado. Ok, cópias perfeitas.

Ana Lúcia Bizinover: Why not Portinari, Di Cavalcanti, Tarcila do Amaral, Djanira, Guignard, Pancetti, Krajcberg, Bandeira, Volpi, e mais? Todos amigos do Oscar (detestava ser chamado de outra forma, não sei donde tirou dr. Oscar).

Ana Lúcia Bizinover: Ele não ficaria injuriado ao ver os painéis coloridos. Teria colaborado para se adequarem à obra, tlvz isso sim.

Ana Lúcia Bizinover: Temos grandes artistas plásticos da nova geração. Não questiono gosto artístico de ninguém.

Ana Lucia Bizinover: Para arrematar: as obras do Oscar são todas monumentos da Humanidade. Pecavam, às vezes, pela funcionalidade em detrimento da forma. Trabalhei 10 anos em um prédio totalmente idealizado e detalhado por ele. Quando chovia, como a piscina era em declive em direção ao restaurante, inundava tudo. Da cozinha às mesas. Sem que isso sirva de demérito da linda obra. Mas que a gente “nadava” para almoçar, nadávamos. E mais: tive que ouvir de uma conhecida jornalista italiana, que trabalhava na Mondadori (outra obra maravilhosa do Oscar) o seguinte: “ma guarda quello che l’architetto tuo ci ha fato”. Penavam com falta de janelas. Sentiam-se encarcerados. Daí que nobody is perfect… Só Deus.

Pedro Augusto Baldanza: O que dizer do Memorial da América Latina. Um espaço completamente frio. Toquei algumas vezes lá e nunca entendi alguns espaços completamente downs.

Ana Lúcia Bizinover: Concordo. Também me senti assim por lá. Vc é músico, certo? Que estilo? Embora só exista a boa ou má música. Digo isso pois produzo e apresento um programa de rádio de jazz, música instrumental brasileira mais tipo samba-jazz (Peranzzeta, Senise, Nilson Matta e mais e mais).

Ana Lúcia Bizinover: Se puder dê uma olhadinha na minha champagne Tempo de Jazz aqui no face. Sorte e sucesso, Pedro.

Nádia Aparecida Pires: Penso que há de se ter cuidado para não criarmos uma competição entre a grafitagem e a arte arquitetônica em detrimento delas mesmas e seus autores, há uma questão maior nisso tudo: o planejamento, o olhar sobre a cultura e sobre a arte e seus artistas.

Ibis Soares Brandão: Concordo, Nádia Aparecida Pires. Ressentimos a ausência de uma política cultural do Estado de goiás. Não se define o que é cultura, não existe nenhuma definição, pois os gestores públicos estão ilhados numa visão cultural do século XIX, e a sociedade civil precisa definir sua participação e envolvimento na sociedade pós-moderna.

Nádia Aparecida Pires: E o século XIX é deficiente em registros consistentes sobre artes, Ibis Soares Brandão; daí a efemeridade, o estado de coisas soltas e improvisadas….

Nádia Aparecida Pires: Ibis Soares Brandão, penso que o Marcos Caiado pontuou bem .

Ana Lúcia Bizinover: O Brasil nem tem política, quanto mais cultural. Não estamos na Suécia, não. Quem dera.

Ana Lucia Bizinover: Ainda assim tenho assinatura para 16 concertos este ano. Dell Arte e 2 da OSB.

Ibis Soares Brandão: Brilhante comentário do meu amigo Marcos Caiado.

Otávio Soares Brandão: Discordo, cara Ana Lúcia. O Brasil tem uma política cultural centenária introduzida pelo colonialismo. O objetivo desta política é desarticular e mesmo exterminar a mínima possibilidade de se construir uma cultura autônoma e autossustentável. Esta é a estratégia da política de Estado e das chamadas elites. Copia-se tudo que é produzido no primeiro mundo. Temos exceção, mas esta é sempre produzida na exclusão tipo samba etc. Como afirmava o saudoso Nelson Rodrigues, o brasileiro tem complexo de vira-lata. As pessoas que ousam ser protagonistas produzindo uma arte autônoma e autossustentável são amaldiçoadas e marginalizadas. Assim é na chamada música de concerto, instrumental (jazz ?) e mesmo na música de mercado.

Ana Lúcia Bizinover: Ele tem um projeto perlmanmusic; esqueci o nome certo, justamente direcionados a jovens e iniciantes talentosos e se apresenta com os unos. Idem o Daniel Barenboim. Acho que até o irmãozinho Stockhausen fazia isso. Deus me livre de um virtuose trancar-se voluntariamente na sua torre.

Marcelo Franco, crítico literário e promotor de justiça: Que seja divulgado. Que fique lá. Ninguém é dono do conceito de arte. É feio? Não exatamente. Mas é exatamente igual a tudo o que se faz em tapumes e assemelhados. Todos já vimos trezentas peças iguais. Opa, essa gerou discussão, portanto ficou mais bonita. De novo: não é feia, mas é igual ao que já vimos antes. Discordem, mas me expliquem a beleza diferenciada que não vi. Claro, para sermos modernos somos obrigados a gostar. Feio — mas é arte.

Carlos Augusto Silva, crítico literário e professor: Arte está mais ligada ao estético do que ao belo. Muito em arte não é belo, mas tem proposta estética. Mais uma vez Marcelo Franco tem razão.

André Ldc, crítico de cinema: Discordo frontalmente das aspas no título da reportagem. E discordo mais ainda dos eventuais defensores da intocabilidade do CCON. Não ouvi esse berreiro todo quando o governo estadual veio com aquele provincianismo de cobrir parte do lugar com a bandeira de Goiás. Essa implicância com o painel do Bicicleta Sem Freio comprova que Brasigóis Felício tem razão: vivemos em Boiás.

João Paulo Lopes Tito, advogado: É uma bobeira essa história de “arte” e “não arte”. O espaço do Centro Cultural, desde quando inaugurado, nunca foi plenamente utilizado, a exemplo da própria biblioteca. Por muito tempo, o governo fechou os portões a frequentadores aleatórios, proibiu eventos e promoveu o chamado “vandalismo oficial”. Aliás, uma história interessante é o fato de que o Centro foi concebido como homenagem a artistas goianos, e muita gente do próprio governo se opôs a que se colocasse o nome do Oscar Niemeyer no complexo justamente por este não ser do Estado. O que levanta dúvidas até hoje sobre a autoria do projeto original (afinal, se o projeto é do Oscar, qual a rejeição em homenageá-lo?). O fato é que o pessoal do Bicicleta Sem Freio vem sendo reconhecido nacional e internacionalmente, e sendo um grupo goiano, nada mais justo que possa figurar — mesmo que transitoriamente — num Centro Cultural feito em homenagem e voltado aos goianos. Deixemos desse purismo besta e retrógrado. Abramos mais espaço a Decys e Morbecks também. E vamos transformar aquele grande, bonito e caro elefante branco em algo realmente voltado à cultura e arte.

Otávio Daher, arquiteto: O arquiteto mais famoso do Brasil era o primeiro a incentivar essas intervenções em seus projetos.

Elder Dias, redator-chefe do Jornal Opção: O CCON não tem história de “vida” ainda pra se saber o que tem ou não de ser pintado ali (e o que foi feito lá está longe, muito longe, de ser uma pichação). Outra coisa: não é uma intervenção que comprometa a estrutura (arquitetura), que é o legado do Niemeyer para Goiânia. Quando (e se) der na telha, alguém vai lá e pinta como o original (o que teria de ser feito de qualquer modo).

Otávio Soares Brandão: Caro amigo André Ldc, o trabalho do BSF não está em julgamento. A questão é as seguinte: a intervenção descaracteriza ou não a obra de Niemeyer? Existem inúmeros trabalhos na internet (google) sobre a poética da cor em Niemeyer. Acesse Fundação Oscar Niemeyer no Google que você verificará a importância voluntária do branco na obra de Niemeyer. Ele, como Le Corbusier, utiliza poucas cores, jamais multicores.

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Adalberto De Queiroz

Mr. DE FRANÇA, Dom EULER, meu caro. Tudo que tinha pra dizer sobre o tema, explicitei na minha linha-do-tempo do FB… Oscar é título de cinema, não é um deus, como querem alguns nesse debate. Viva La Bicyclette goyana…Sim com Y no meio como o era também a escrita heróica da E.F. Goyaz.
É claro que até a língua é tocável, Deusmeyer e o PC de sabe-Deus-aonde não o são. Ah, vai catar coquinho no cerrado, rapaz!
AQ/

André LDC

“Oscar é título de cinema, não é um deus”: eis uma das frases mais acertadas sobre esse assunto. Viva o colorido caleidoscópico do BSF, abaixo a canonização das curvas stalinistas e demofóbicas de Niemeyer, o maior comunista de bistrô do Brasil!

Valtairo Ferreira

Obra de arte é Obra de arte, não pode ser ultrajada!.. Daqui a pouco vamos achar que podemos grafitar as obras de Picasso, Amilcar de Castro, Ruy Ohtake etc. Porque não vão grafitar lá na mansão do governador?

Adalberto De Queiroz

Valtairo Ferreira: é preciso lembrar-nos que Picasso e companhia já foram considerados uma agressão à arte. Lembro-me do texto-palestra do brilhante professor Ricardo Araújo (trad. de “A Beleza Foi Feita para Ser Roubada, de Ortega Y Gasset), diante do impasse dessa polêmica de então, em que a arte tradicional da época (e tão respeitada como as obras citados pelo Sr. Ferreira), estavam os novos e mal-compreendidos (ou não aceitos ainda como artistas!) – ninguém menos que os Srs. Picasso e Salvador Dalí. Em defesa dos pintores mal-compreendidos de sua época – Picasso e Salvador Dalí – Ortega Y Gasset argumenta… Leia mais