General Geisel disse que o presidente Figueiredo foi “omisso” no caso do Riocentro

“O Riocentro foi um recrudescimento, numa nova explosão reacionária contra a Abertura”, afirma o presidente militar que decidiu redemocratizar o Brasil

O presidente-general Ernesto Geisel (1907-1996), junto com o general Golbery do Couto e Silva, disse que decidiu acabar com a ditadura civil-militar porque era uma “bagunça”. Homem reservado e recluso, não tinha o hábito de conceder entrevistas. Mas decidiu dar uma longa entrevista para os professores Maria Celina D’Araújo e Celso Castro, da Fundação Getúlio Vargas. A entrevista foi transformada em livro e publicada em 1997, com o título “Ernesto Geisel” (FGV, 494 páginas). É um documento histórico indispensável aos estudiosos da ditadura (1964-1985). Ele comenta o atentado do Riocentro, que completou agora 40 anos. Militares da linha dura articularam um atentado com artistas e pessoas que assistiam comemorações do Dia do Trabalhador. No entanto, uma bomba explodiu literalmente no colo de militares, matando um e ferindo o outro gravemente. No livro, Geisel comenta o assunto e sustenta que o presidente João Figueiredo foi omisso. O Jornal Opção transcreve trechos da entrevista nos quais o pai da Abertura comenta sobre o Riocentro.

O Puma que explodiu com dois militares da linha dura do Exército que pretendiam cometer atentado| Foto: Reprodução

O senhor acompanhou o rompimento do general Golbery com o presidente Figueiredo?

Golbery deixou o governo por causa do problema do Riocentro. Ele achava que o Figueiredo tinha que mandar apurar direito o que tinha acontecido e punir os responsáveis, isto é, que ele tinha que enfrentar a área militar ou a área radical que tinha atuado nesse episódio. O problema do Riocentro era o fato em si. Com a abertura, deveria estar encerrado o problema da repressão. O Riocentro foi um recrudescimento, numa nova explosão reacionária contra a Abertura.

O episódio do Riocentro ocorreu em 1981, mas desde o ano anterior tinha havido uma série de episódios atribuídos ao terrorismo de direita: explosões de bombas em bancas de jornal, casos de cartas-bomba…

Ernesto Geisel e João Figueiredo: o sucessor fraquejou | Foto: Reprodução

Consta que isso foi coisa do Burnier [João Paulo Moreira Burnier]. Não tenho provas, mas, na minha ideia, e a partir de conversas com os companheiros, creio que foi ele. Uma união que era importante preservar era essa do Golbery com o Figueiredo. Golbery tinha ascendência e tinha expressão. Mas o Figueiredo não quis atendê-lo e Golbery rompeu com o governo.

Por que o presidente Figueiredo não quis atendê-lo?

Sempre fazendo ilação, pois não tenho dados positivos, acho que o Figueiredo preferiu ficar com os companheiros do Exército em vez de apurar direito o fato. Mandou apurar mas a apuração foi tendenciosa. É o que se pode deduzir do que houve com o Golbery: ali o Figueiredo fez uma opção. Figueiredo tinha sido muito soldado, tinha suas ligações com o Exército e possivelmente colocou isso em primeiro lugar.

Será que se houvesse uma apuração correta, com a punição dos envolvidos, isso seria tão traumático para a instituição militar?

Para a instituição como um todo não, mas para muitos setores dela seria.

Talvez o comandante do I Exército fosse envolvido, por ser o responsável pela área.

É. Talvez. Talvez também tenha sido isso. Agora, o comandante do I Exército, o general Gentil, era um general muito conceituado. Entretanto, ficou envolvido.

Golbery do Couto e Silva com o presidente Ernesto Geisel | Foto: Reprodução

Quer dizer que o senhor acha que o acaso do Riocentro realmente não foi apurado direito?

Creio que não. O problema não foi apurado como devia ser. Passaram a mão pela cabeça dos culpados. Hoje em dia poucos são os que têm dúvidas. Golbery achava que nós já estávamos suficientemente adiantados nessa questão da abertura, na tendência à normalidade da vida do país, para podermos apurar direito. Achava que tínhamos que apurar e tomar medidas para evitar, inclusive, a reprodução futura de fatos semelhantes. Figueiredo, nessa hora, deve ter tido um drama de consciência muito grande. Achou que era mais recomendável ficar com a classe, ficar com os companheiros do Exército — se bem que não com o Exército como um todo, porque acho que grande parte não aprovava aquilo.

Nesse episódio, as Forças Armadas perderam a grande oportunidade histórica de dar uma demonstração ao país de um compromisso com a ordem…

É, acho que foi. São as tais coisas! É o espírito de classe, que tem seu lado bom, mas tem também seu reverso. Golbery era quem estava certo. Eu tenho a cópia da carta que ele entregou ao Figueiredo e que o Figueiredo diz que não recebeu. Ele recebeu e devolveu.

Nessa carta o general Golbery pedia a apuração do caso?

Acho que já não pedia mais. Ele pediu verbalmente, e o Figueiredo não atendeu. Ele aí fez a carta se demitindo.

O senhor sabia que comandos pressionavam para que o caso não fosse apurado?

Ah, não sei se alguém pressionou, não sei dizer. Creio que houve conivência para não apurar devidamente

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