Euler de França Belém
Euler de França Belém

Filósofo Eduardo Giannetti diz que complexo de vira-lata do brasileiro é positivo

Longe de apenas avançar no processo de modernizar, o Brasil deve reforçar suas qualidades positivas, como a celebração imotivada da vida

Livro do filósofo e economista Eduardo Giannetti recupera, de maneira positiva, o complexo de vira-lata dos brasileiros, notando uma especificidade da sociedade patropi

O economista e, cada vez mais, filósofo Eduardo Giannetti, um dos novos intérpretes do Brasil — na linha de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raymun­do Faoro e Darcy Ribeiro —, lança o livro “O Elogio do Vira-Lata e Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 348 páginas) e concede uma entrevista ao repórter Filipe Serrano, da revista “Exame”. As ideias do sociólogo Gilberto Freyre, autor de “Casa Grande & Senzala”, ecoam, direta e indiretamente, nos seus comentários, mas estranhamente seu nome não é mencionado nenhuma vez. Coisas de intelectual de São Paulo, que cresceu vendo os uspianos dando pouca importância ao notável pesquisador de Pernam­buco. Fora o pecadilho, a entrevista é de excelente nível.

O dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues, espécie de filósofo da controvérsia ou do contrassenso, disse que o brasileiro — no caso, jogadores da Seleção Brasileira de futebol de 1958 — padece do “complexo de vira-lata”. Giannetti recupera isto como uma coisa positiva. “O vira-lata é o mestiço. Aquele que não é de raça pura. É exatamente o que nós somos. E é belo. Ainda bem que somos assim. (…) Os três gênios universais brasileiros são vira-latas: Aleijadinho, Machado de Assis e Pelé. Eles são o que de melhor o Brasil produziu como expressão de sua universalidade. (…) O verdadeiro complexo de vira-lata é a ideia de que há algo errado em ser vira-lata.”

Giannetti sublinha que o brasileiro deve se assumir como é. “Nós somos vira-latas.” Ao chegar de Cambridge, onde estudou por sete anos, o economista, então sem o olhar mais perscrutador do filósofo e a visada para as diferenças do antropólogo, defendia a tese de que “o Brasil precisava se modernizar”. Aos poucos, quiçá por entender mais o país e seus habitantes, começou a repensar a questão da modernização. “Fui me interessando pela possibilidade de o Brasil se tornar uma alternativa ao modelo civilizatório, o modelo ocidental na vertente anglo-americana, que está vivendo uma crise profunda.” É provável que, ao estudar na “corte”, o scholar tenha se tornado uma espécie de “aristocrata do provincianismo”. Ao se envolver com o país real, para além do livresco, redescobriu-se, passando a perceber como funciona o dia a dia dos indivíduos comuns (e não meramente o dos intelectuais acadêmicos).

Desfrutar o momento

Aos poucos, com um olhar, digamos, mais leve, possivelmente o do antropólogo perspicaz, Giannetti relata que percebeu “que o Brasil é portador de coisas muito belas e valiosas, das quais nós não deveríamos abrir mão no afã de nos tornarmos um país de Primeiro Mundo”.

Entre as “coisas muito belas e valiosas”, Giannetti apresenta: “A espontaneidade, a vitalidade das relações pessoais, certa disposição para desfrutar o momento. O dom da vida como celebração imotivada, que é uma característica brasileira. E o modo peculiaríssimo e extraordinário de como diferentes matrizes culturais se fundiram na cultura brasileira. A matriz ameríndia, a matriz africana e a matriz da imigração europeia — portuguesa e de outras nacionalidades. Acho que isso dá ao Brasil uma singularidade, algo que precisamos aprender a cultivar, preservar e engrandecer. É daí que pode surgir nossa originalidade. (…) Devemos ter o cuidado de não abrir mão daquilo que nós também temos, que nos diferencia”.

O que diferencia os brasileiros de outros povos, de acordo com Giannetti, “é o modo como se fundiram aqui elementos modernos e pré-modernos que dão à textura da vida no Brasil uma característica que os países altamente desenvolvidos perderam”. Seria, segundo o filósofo suíço Rousseau, “o doce sentimento da existência”. Trata de “uma vida espontânea, menos polida por padrões rigorosos de lógica, de calculismo, de competição, de busca de posição relativa, de cálculo permanente”.

A respeito do futuro do Brasil, Giannetti verifica a existência de dois campos de pensamento. O “mimético” sugere que, aderindo ao que aconteceu noutras plagas, “o Brasil viraria uma espécie de Estado do Sul dos Estados Unidos, ou um país do Sul da Europa”. Imitando bem, o Brasil se tornará, por assim dizer, uma potência similar — ou genérica, sabe-se lá — aos países desenvolvidos. O filósofo segue o “profético”: “Nós não somos uma cópia canhestra de um modelo de civilização que nunca alcançamos. Somos portadores de uma promessa de originalidade, diante desse modelo que enfrenta hoje enormes problemas”.

O filósofo-economista sugere que os pensamentos mimético e profético dialoguem. Professor da Universi­dade da Califórnia, o historiador americano Russell Jacoby, no livro “A Era da Utopia — Política e Cultura na Era da Apatia” (Record, 300 páginas, tradução de Clóvis Marques), sugere que liberais e marxistas melhoram suas ideias quando debatem com mais abertura, serenidade e ao menos com certa integração (o que poderia evitar a polarização excessiva que ocorre hoje no Brasil).

A “possibilidade de um modelo de civilização brasileiro” não é uma utopia. É uma realidade, aposta Giannetti. “É uma questão de valores. (…) O sucesso é medido em renda per capita. Em acesso a bens de consumo. E isso deflagrou uma corrida consumista que coloca em risco o equilíbrio ambiental do planeta. (…) O Brasil tem tudo para não entrar nisso. Tem tudo para mostrar um modo de existência que não seja subordinado ao primado dos valores econômicos nas aspirações e na imaginação humana.”

Eduardo Giannetti pouco a pouco se inscreve entre os grandes intérpretes do Brasil como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro e Darcy Ribeiro. Faz uma retomada do melhor do pensamento brasileiro

Sem mal-estar

Giannetti registra que opioides “matam 40 mil pessoas por ano” nos Estados Unidos. Qual a causa desta crise, que está se estendendo para outros países? “É muito na linha do que Freud dizia sobre o mal-estar na civilização. A conquista dos confortos, da segurança e da riqueza da civilização será paga a um preço elevado. Está sendo paga com a perda de uma vitalidade, de uma espontaneidade, de uma integridade psíquica, que vão sendo solapadas, vão sendo minadas. A utopia brasileira é a civilização sem o mal-estar. O pesadelo brasileiro existe também: é o mal-estar sem a civilização.”

Estaria, o filósofo Giannetti, sendo otimista em excesso, meio panglossiano, ou, de certa maneira, comportando-se como um romântico? Talvez não.

Nós, brasileiros, temos o hábito de pensar o Brasil como o pior — ou um dos piores — país do mundo. Aqui, entre nós, nada presta — exceto, quem sabe, o futebol, o Carnaval e a cachaça. Há nação mais corrupta do que a patropi? “Não” há. Na verdade, rouba-se em todo os lugares, mesmo onde as instituições são sólidas e a impunidade, mínima. O filósofo Giannetti reabilita, de certo modo, o Brasil que amamos vilipendiar, como se não fôssemos, vá lá, brasileiros. Falamos de nós como se estivéssemos falando de outros… povos.

Vale a pena transcrever uma frase emblemática da escritora Nélida Piñon: “Se Machado existiu, o Brasil é possível”. Dirão, os céticos: “Puro ufanismo!” — com exclamação. Não é, claro. É tão realista quanto, digamos, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Se, claro, o rótulo “realista” conseguir explicar um autor tão complexo e múltiplo quanto o autor de “Dom Cas­murro”. O francês André Breton certamente reivindicaria o romance — sua forma — como surrealista.

Machado de Assis é, sim, grande para nós, brasileiros. Mas só se tornou canônico, com estatura mundial, depois de ser reconhecido por escritores e intelectuais do naipe de Jean-Michel Massa, John Gledson, Helen Caldwell, John Updike, Susan Sontag, Carlos Fuentes e, mais recentemente, Harold Bloom. Philip Roth inspirou-se em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” para escrever “Indignação” — romance no qual um morto, como no livro do autor sul-americano, é o narrador.

Nós, da “Colônia”, somos bons — até ótimos (além dos citados por Giannetti, temos Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Carlos Drum­mond de Andrade, João Cabral, Cecília Meirelles, Clarice Lispector, César Lattes, Carlos Chagas, Adélia Prado, Angélica Freitas, Noel Rosa, Pixinguinha, Elis Regina, Elizeth Cardoso, João Gilberto, Tom Jobim, Villa-Lobos, Chico Buarque, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Siron Franco, Caetano Veloso) —, mas ainda dependemos da confirmação da “Corte”.

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