Elder Dias
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Em fase pós-Pop, Cileide Alves se revigora e acerta em temas nas redes

Cileide Alves é, sem dúvida, um talento do jornalismo goiano. O problema, bem conhecido no esporte, especialmente no futebol, é que talento, por si só, não garante bom resultado. Por isso, talvez a melhor coisa que tenha acontecido a ela foi ter saído do comando de “O Popular”. Estava, sem saber que estava, acomodada.

Na verdade, o “Pop” já tinha aberto mão da jornalista há algum tempo, depois de retirá-la da posição de editora-chefe, deixando-a na “geladeira” nos últimos tempos, de forma um tanto deselegante. Ao mesmo tempo, Cileide começava a dispender energia em outra atividade: a de blogueira. Foi o que ela mesma escreveu ao se despedir da casa a que serviu por 28 anos: “A gente continua se encontrando nas redes sociais e em meu blog medium.com/@cileidealves”.

Na semana passada, um texto em seu blog, no portal Medium, chamado “Resposta a uma mãe”, publicado na quinta-feira, 14, havia tido bem mais que uma centena de compartilhamentos, até o fechamento desta edição. Falava do caso de Sandra Eliane Nicolau Gonzaga, a mãe do garoto Bruno Alexandre Nicolau Gonzaga, de 20 anos, que cursava Engenharia na Universidade Paulista (Unip) e foi morto em um acidente que um carro oficial da Prefeitura, que levava o vereador Paulo Borges (PMDB), atropelou a moto que o rapaz conduzia, ao fazer uma conversão abrupta rumo à entrada de um prédio de frente para o Parque Areião, no Setor Marista. O legislador saiu da cena do crime, onde ficou o corpo do motociclista, já sem vida. Também deixou lá o motorista do automóvel, preso nas ferragens e com fratura exposta nas pernas.

A mãe desaguou sua tristeza no próprio perfil do filho no Facebook, em um longo desabafo em que, entre caixas altas e baixas, maiúsculas e minúsculas, se podia sentir a força de seu pranto. Queria ela saber quem era aquele “indivíduo” que tinha abandonado a cena em que morria seu filho.

Cileide, que também perdeu um filho por acidente, então se encarregou de prestar à senhora e aos leitores esse serviço. Com “timing” de repórter, resgatou a ficha do político Paulo Borges desde o início de sua vida pública, detalhando os cargos por que passou, os proventos que recebia, os escândalos em que já havia se envolvido, as condenações que tinha sofrido e o retorno de votos sempre crescente que, apesar de todas as polêmicas, os eleitores haviam lhe dado em três pleitos consecutivos (4.858 em 2004; 5.320 em 2008; e 7.664 em 2012).

O “apesar” envolve, entre vários outros itens, uma prisão, por cinco dias, em fevereiro de 2013, na Operação Jeitinho, desencadeada pelo Ministério Público Estadual (MP-GO), que apurou irregularidades e propinas envolvendo transações na Agência Municipal de Meio Ambiente (Amma). Em seu retorno à Câmara de Goiânia, Paulo Borges recebera a acolhida oficial, via tribuna, de 19 colegas. Consideravam, então, uma “tortura” o que tinha ocorrido com o peemedebista. Naquela sessão, o vereador Anselmo Pereira (PSDB), hoje presidente da Casa, foi além e, “em nome da cidade” — “sem pedir permissão a nenhum cidadão de Goiânia”, como ressaltou Cileide —, pediu desculpas ao acusado.

Ao fim do relato, a jornalista passa a fazer sua análise particular e põe em questão um tema bastante interessante e incômodo: são os eleitores aqueles que acabam por decidir pela permanência de figuras como o tal vereador em seus mandatos. “A condenação em segunda instância e esse trágico acidente ocorrem às vésperas de nova tentativa de Paulo Borges de se reeleger. Das outras vezes, quando ele também enfrentou denúncias no ano eleitoral, o eleitor fez ouvidos moucos e o ajudou a chegar até aqui. De nada adianta as pessoas indignarem-se com os políticos, fechar os olhos à política, se no dia da eleição não tem responsabilidade sobre seu voto.”

Diz um velho ditado que corre entre os que deixaram o maior diário de Goiás que, depois de sair do “Pop”, a vida (e a qualidade de vida) só pode melhorar. Talvez não exatamente por ter deixado o jornal, mas por ter levado consigo uma boa bagagem depois de se doar a uma grande estrutura. Longe de lá, Cileide se mostra mais leve para fazer o que mais gosta: jornalismo com pesquisa e análise. Tem procurado se envolver a fundo, presente em eventos que planejam ações em várias searas de Goiânia, da cultura ao planejamento urbano, passando, obviamente, pela política. Ver alguém da qualidade de Cileide “suando a camisa” é auspicioso. Talento com esforço é sempre a melhor das misturas.

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Adalberto De Queiroz

Boa reportagem sobre o tema Imprensa. Meu destaque: “Diz um velho ditado que corre entre os que deixaram o maior diário de Goiás que, depois de sair do “Pop”, a vida (e a qualidade de vida) só pode melhorar. Talvez não exatamente por ter deixado o jornal, mas por ter levado consigo uma boa bagagem depois de se doar a uma grande estrutura. Longe de lá, Cileide se mostra mais leve para fazer o que mais gosta: jornalismo com pesquisa e análise.” – Similares situações parecem acontecer com Karla Jaime e Rosângela Chaves, além do professor-repórter Rogério Borges, com a… Leia mais