Euler de França Belém
Euler de França Belém

Elizabeth Bishop compara o poeta Vinicius de Moraes a T. S. Eliot e critica oficinas literárias

A poeta americana criticou a poesia concreta, ressalvando a poética de e. e. cummings, e diz que a poesia brasileira é “maravilhosa”

O livro “Conversas com Elizabeth Bishop” (Autêntica, 189 páginas, tradução de Amanda Guizzo Zampieri, Carolina Barcellos, Cláudia Santarosa, Heci Regina Candiani e Rogério Bettoni), organizado por George Monteiro, professor de estudos portugueses e brasileiros na Universidade de Brown, nos Estados Unidos, é um livro despretensioso. Mas só na aparência. A poeta Elizabeth Bishop (1911-1979), embora avessa à ideia de que se pode ensinar poesia e mesmo prosa na universidade e em oficinas literárias, dá algumas “aulas” interessáveis e comenta sobre poetas brasileiros. Suas entrevistas foram concedidas a publicações brasileiras e do exterior.

Elizabeth Bishop chegou ao Brasil em 1951 e por aqui ficou, depois de uma crise alérgica provocada por um caju. George Monteiro apresenta uma interpretação diferenciada: “Ela não reconhece que essa enfermidade possibilitou o que ela talvez quisesse desde o início: o desabrochar de seu amor por Lota de Macedo Soares (Maria Carlota Costellat de Macedo Soares), a brasileira que se tornou sua companhia mais próxima”. O verdadeiro caju “era” Lota (as duas viveram um grande amor). Não se espere confissões amorosas nas entrevistas. A entrevistada e os entrevistadores são por demais pudicos. A poeta norte-americana viveu no Brasil, mais de uma década, com a urbanista Lota.

Elizabeth Bishop, como professora-crítica, sugeria que o aluno lesse muita poesia e cartas de poetas. Mas duvidava da eficácia das oficinais literárias | Foto: Reprodução

“Gosto de Drummond e João Cabral”

Numa entrevista de 1956 ao jornal “O Globo”, Elizabeth Bishop revela que admira a poesia de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Ela declara que conhece os prosadores Machado de Assis, Euclides da Cunha (engenheiro que escreveu “Os Sertões”), Gilberto Freyre (sociólogo, autor de “Casa Grande & Senzala) e Raquel de Queiroz. Numa entrevista a Beatriz Schiller, do “Jornal do Brasil”, concedida em 1977, a escritora assinala: “Acho a poesia brasileira maravilhosa, muito melhor do que a prosa. Gosto muito de Carlos Drummond de Andrade e de João Cabral de Melo Neto”. Ela diz que Vinicius de Moraes “era um poeta muito bom, um poeta sério, ao estilo de T. S. Eliot”.

Carlos Drummond de Andrade: o poeta foi traduzido por Elizabeth Bishop | Foto: Reprodução

Ao “London Times”, numa entrevista concedida a Edward Lucie-Smith, em 1964, Elizabeth Bishop diz que o poeta deve “ter a mente aberta, deixar as coisas acontecerem, agarrar-se a alguma coisa que flutua aleatoriamente no ar. Se você está preparada para isso, tudo parece ser poesia”. Escrever poesia descritiva, afirma, “é muito fácil”. “Quero evitar o pitoresco, escrever algo mais abstrato.” Critica os escritores ingleses: “Eles têm uma indiferença e frivolidade às custas do entusiasmo. Gosto de fanáticos — pessoas que vão longe mesmo”. Ressalva que Philip Larkin a agrada. “Tudo que ele escreve é tão terrível.” Admira mais ainda William Empson. O cientista Charles Darwin é respeitadíssimo pela poeta, sobretudo a obra “Formação de Recifes de Corais”. “Se quiser ler um livro lindo, leia esse.”

João Cabral de Melo Neto, com sua poesia precisa, lembrava a poeta americana Marianne Moore | Foto: Reprodução

Na entrevista a Léo Gilson Ribeiro, do “Correio da Manhã”, em 1964, Bishop informa que Robert Lowell e Marianne Moore são “os mais importantes poetas dos Estados Unidos” no século 20. “Até T. S. Eliot concordaria com esse juízo”, sugeriu. (Note-se que Eliot, além de ter escrito sua obra no século 20, é americano. Talvez Elizabeth Bishop o considerasse, de algum modo, tão inglês quanto outro americano “britanizado”, Henry James.) Sobre Marianne Moore (uma das poetas preferidas de João Cabral): “Estou certa de que é a poeta mais original, a que trouxe uma brilhante precisão de linguagem através de uma conservação poética meticulosa. Seu estilo personalíssimo está influenciando atualmente os poetas jovens dos Estados Unidos”. Marianne Moore a influenciou pela “sede por precisão”. Noutra entrevista, cita que aprecia o poeta René Char e o poeta belga Henri Michaux.

Vinicius de Moraes, segundo Elizabeth Bishop, fazia poesias sérias e de qualidade | Foto: Reprodução

O que diz sobre a “democracia racial” brasileira decerto agradará o sociólogo Demétrio Magnoli e o jornalista Ali Kamel, mas não os militantes do movimento negro: “Um dos aspectos que se nota imediatamente ao chegar o Brasil é o da democracia racial. Sente-se como que um alívio pela ausência de tensões, de conflitos entre as raças. Acredito que no meu país essa situação grave será solucionada pacificamente, de forma a permitir que as raças convivam civilizadamente lado a lado. (…) Adoro a maneira sem pressa de viver dos brasileiros”. Mas critica a mania patropi de derrubar “edifícios veneráveis, belíssimos, de épocas passadas e que contêm tesouros históricos e artísticos”.

“Verdade surgirá por si mesma”

Na entrevista a Wesley Wehr, do “Antioch Reviews”, de 1966, Bishop, a professora meio antiprofessora, está em plena forma crítica: “Gostaria que meus alunos não perdessem tanto tempo tentando ‘descobrir a si mesmos’. Eles deveriam deixar que outras pessoas os descubram. Vivem dizendo que querem transmitir a verdade em seus poemas. Acontece que sempre dizemos a verdade sobre nós mesmos apesar de nós mesmos. O problema é que muito frequentemente não gostamos da maneira como ela se revela. Se meus alunos se concentrassem mais em todas as dificuldades de se escrever um bom poema, em todas as complexidades da língua e da forma, acho que eles descobririam que a verdade surgirá por si mesma”.

Elizabeth Bishop e Lota de Macedo Soares: a poeta americana e a urbanista brasileira viveram uma grande paixão | Foto: Reprodução

Elizabeth Bishop desencoraja seus alunos a escreverem poemas sentimentais. Ela frisa que daria um grito “se alguém (…) usar a palavra ‘comunicar’. Odeio essa palavra”. A poeta sustenta que os alunos não estão na universidade, seja na de Washington, seja em Harvard, “para ‘se expressar’; eles estão lá para aprender sobre como escrever um bom poema”.

Ao perceber que os alunos não conseguiram identificar citações de Keats, Tennyson e Swinburne, a poeta ficou “chocada”. “Eu tive um ano inteiro de Wordsworth, Keats e Shelley quando estava no colégio. Os românticos ainda são poetas extraordinários.” Ela diz que os estudantes “deveriam gostar de Wordsworth”. E sugere que se leia as cartas de Keats e Gerald Manley Hopkins. Este e Marianne Moore são, segundo Bishop, “os observadores mais admiráveis que já li”. E acrescenta: “Gostaria de sugerir [aos universitários] que vocês lessem um poeta: todas as suas poesias, cartas, biografias, tudo, exceto as críticas sobre ele”.

Elizabeth Bishop: a poesia concreta “é um jogo de palavras, às vezes engraçado, mas inútil e impossível de ser recordado” | Foto: Reprodução

Ao examinar os poemas dos alunos, Bishop descobriu que falavam extensamente sobre “sofrimento”. “Não creio que a maioria deles saiba algo sobre sofrimento, mas seus poemas são repletos dele. Acabei dizendo que eles deveriam vir para o Brasil e ver o que é o sofrimento de verdade, com seus próprios olhos. Quem sabe assim eles não escreveriam tão ‘poeticamente’ sobre sofrimento.”

Havia uma espécie de culto à loucura, a um estilo irreverente — uma espécie de “pose” —, entre os alunos de Elizabeth Bishop, nos Estados Unidos. “Eles [os jovens] pensam que enlouquecer os transformará em poetas melhores. O que não é verdade de jeito nenhum! A insanidade é algo terrível!” Como a brasileira Adélia Prado (que Elizabeth Bishop não leu), Marianne Moore, uma mulher de vida limitada, simples, escreveu poesia fabulosa.

A entrevistadora Beatriz Schiller quer saber como Elizabeth Bishop se preparou para ser poeta. A resposta: “Estudei música [estudou piano e queria ser compositora], depois mudei para inglês, literatura, latim, grego, zoologia. Não sei qual das matérias me ajudou mais. Nunca frequentei cursos para aprender a escrever. (…) As universidades deviam ensinar coisas que podem ser ensinadas. Acho uma bobagem ir à universidade para aprender a ser criativo”.

Elizabeth Bishop: “Acho a poesia brasileira maravilhosa, muito melhor do que a prosa” | Foto: Reprodução

Numa entrevista concedida a George Starbuck, publicada em “Plougshares”, em 1977, Elizabeth Bishop critica as aulas de criação literária: “Eu tento desencorajá-las! Eu falo para os alunos que seria melhor aprenderem latim. Latim ou grego. São línguas úteis para escrever em versos. (…) Acho que a melhor esperança que se pode ter é que o aluno, depois de se formar, continuará lendo poesia para o resto de sua vida”.

Sobre a verdade na poesia, Elizabeth Bishop expõe seu credo: “Sempre digo a verdade nos meus poemas. Em ‘O peixe’ foi exatamente aquilo que aconteceu. Eu estava em Key West e o pesquei exatamente como conto no poema. Era 1938. Ah, mas eu mudei uma coisa: o poema dizia que eram cinco anzóis pendendo da boca dele, quando na verdade foram apenas três. Penso que melhorei o poema quando fiz essa mudança. Às vezes um poema faz suas próprias exigências. No entanto, sempre tento me fiar ao máximo no que realmente aconteceu quando descrevo alguma coisa em um poema”.

A tal inspiração existe ou é ficção? Elizabeth Bishop afirma que não acredita em “ataques de inspiração”. “Em uma ou outra ocasião, a maior parte do poema vem a mim de uma tacada só, mas em geral escrevo muito lentamente.”

Elizabeth Bishop, sobre os escritores ingleses: “Eles têm uma indiferença e frivolidade às custas do entusiasmo. Gosto de fanáticos — pessoas que vão longe mesmo” | Foto: Reprodução

Aos críticos que veem referências filosóficas “profundas” em sua obra poética, Bishop contrapõe: “Compararam-me com Wittgenstein. Nunca li nada dele. Não sei nada sobre sua filosofia”. Ela cita “Arte e Ilusão”, de Gombrich. “Ele afirma que toda arte vem da arte. Minha leitura favorita é Darwin.”

“Odeio poesia confessional”

A poesia confessional recebe uma dura crítica de Elizabeth Bishop: “Odeio poesia confessional, e tem tanta gente escrevendo atualmente. Além disso, eles quase nunca têm algo interessante para ‘confessar’. A maioria escreve coisas que, para mim, é melhor que não sejam ditas”. O quê? Talvez sexualidade, vida privada.

Sobre o sensacionalismo barato dos jornais, Elizabeth Bishop conta uma boa história. Ela, Vinicius de Moraes e Lili Corrêa de Araújo estavam em Ouro Preto e, na falta do que fazer, liam histórias de detetives. “A tarde inteira. Não trocamos nem uma palavra. Aí chegou ‘O Globo’, do Rio, com um artigo em manchete: ‘Movimento de intelectuais em Ouro Preto’, com um retrato dos fundos de minha casa que parecia estar caindo aos pedaços”. Como não rir? A história está numa entrevista à revista “Visão”, de 1969.

Elizabeth Bishop diz que daria um grito “se alguém usar a palavra ‘comunicar’. Odeio essa palavra” | Foto: Reprodução

Em 1970, Elizabeth Bishop concedeu entrevista a Regina Colônia, do “Jornal do Brasil”. Ela discute poesia. “Na poesia, as palavras são o mais importante. Toda a concentração das ideias está nela. O que permanece é o poema, e não aquilo que o motivou. Uma mulher não se deveria deixar emocionar pelo poema que alguém fizesse para ela: a celebração do poema está sempre muito mais envolvida na maneira pela qual se faz o poema do que na mulher que o inspirou, como pessoa.”

Segundo Elizabeth Bishop, “escrever poesia é um way of life. Não se trata de prestar testemunho, mas de vivenciar. Não é a maneira pela qual se interpreta o mundo, mas o próprio processo de senti-lo. Quando você se põe em marcha, você evidentemente descobre coisas, mas isso é apenas parte do processo. Por isso a poesia pode, eventualmente, transmitir alguma experiência aos leitores, mas essa está longe de ser sua finalidade. Por isso também a poesia não pode ter influência sobre o destino de um povo. Apesar de toda boa poesia refletir sempre uma certa atitude diante da história contemporânea, faltam-lhe elementos para que ela desempenhe um papel de propaganda”.

Poesia concreta é “desinteressante”

Numa entrevista publicada há 43 anos, Elizabeth Bishop antecipa o que se discute hoje. A poeta diz que o “grande perigo” é que “os meios de comunicação têm facilitado de tal forma a difusão das mensagens, sejam elas arte ou não, que, hoje em dia, as pessoas não sabem mais ouvir [música] nem ver” (pintura).

Sem citar os irmãos Campos, ou qualquer outro dos concretistas — como era ligada a João Cabral e Drummond de Andrade, é provável que não tenha se interessado pela poesia de Augusto e Haroldo de Campos —, Elizabeth Bishop anota: “Em matéria de poesia concreta, gosto apenas de Cummings. O único brilhante e bem-humorado, que realmente tinha algo a dizer. A poesia concreta que outros poetas fazem, acho desinteressante. Existe apenas um primeiro impacto. É um jogo de palavras, às vezes engraçado, mas inútil e impossível de ser recordado”.

O que mais Elizabeth Bishop detestava era ser chamada de “poeta feminina”. “Há críticos que me classificam como o maior poeta feminino da década. Isso é simplesmente ridículo! O que tem a ver o que eu faço com o termo feminino? Homens e mulheres não escrevem de maneiras diferentes. Na prosa nos Estados Unidos, a figura máxima contemporânea é a de uma mulher — Flannery O’Connor.” Ela se dizia feminista, mas não apreciava os guetos femininos. E isto tinha mais a ver com sua visão de arte, sobretudo que homens e mulheres podem produzir arte de boa e má qualidade — uma poesia não deveria ser elogiada pelas feministas só porque foi escrita por uma mulher —, do que com sua homossexualidade. Ela sentia-se em casa ao lado de grandes poetas, não ao lado de poetas que eram agrupadas exclusivamente por serem mulheres.

Ao receber a notícia de que havia ganhado o Pulitzer, Elizabeth Bishop ficou contente e mais conhecida no Brasil. Ela morava em Petrópolis com Lota. Seu relato: “Vou contar uma história muito engraçada. A notícia saiu nos jornais, o que foi muito bom porque alguns amigos brasileiros duvidavam que eu fosse uma poeta de verdade [Bishop escrevia menos do que a maioria dos poetas]. Afinal, se eu sabia fazer poesia, por que estava no Brasil? Acho que os brasileiros acreditam muito mais em prêmios do que os americanos. Bem, na ocasião saíram algumas fotos, horríveis por sinal, num jornal do Rio. Minha amiga Lota foi ao nosso verdureiro fazer compras. Ele comentou: ‘Aquela moça no jornal não era a dona Elizabeth?’ Minha amiga explicou que sim e que eu ganhara um prêmio de poesia. O verdureiro fez um muxoxo e sacudiu a cabeça: ‘Veja se não é fantástico! Todas as minhas freguesas têm tanta sorte! Essa é a segunda. Na semana passada, dona fulana entrou num sorteio e ganhou uma bicicleta!’ Adoro essas história, é maravilhosa”. Embora às vezes impaciente, Bishop gostava da espontaneidade dos brasileiros.

Texto publicado na edição do Jornal Opção de 1º a 7 de setembro de 2013

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.