Dois invernos: Moscou em 1936 e Munique em 1943

Hans e Sophie Scholl morreram porque enfrentaram o nazismo de Hitler e o dia em que Stálin ouviu uma ópera de Chostakóvitch

Halley Margon

De Barcelona

No dia 22 de fevereiro de 1943, em Munique, no Sul da Alemanha, a temperatura estava vários graus abaixo de zero. Em janeiro do ano anterior, um inverno sem piedade havia punido a cidade fazendo os termômetros decaírem a menos 30 graus. Ainda que as temperaturas de 1942 não se repetissem agora, nas celas da prisão de Stadelheim no distrito de Giesing estava frio, gelado, quando amanheceu na manhã daquela naquela segunda-feira.

Quando, às 7 da manhã de sábado, 20 de fevereiro, os ruídos metálicos vindos do corredor avisaram que a rotina diária dos que controlavam o edifício estava se iniciando, o espaço cerrado que a separava deles e a aproximava do fim era uma linha ininterrupta de horror de um período cuja origem ela não saberia localizar. A morte, no entanto, estava a poucos metros dali. Com o ardor que ainda lhe restava na alma (era onde) ela tentava concentrar seu desejo, devorando as últimas gotas da vida.

Hans Scholl e Sophie Scholl: coragem para desafiar Hitler dentro da Alemanha | Foto: Reprodução

Não lhe importava mais nada que não fosse olhar para os perpetradores e tentar enxergar suas entranhas. Fosse como fosse. Aquilo lhe apertava o peito. E se não conseguisse? E se não fosse possível ver. E se eles não possuíssem alma como nós e todos os outros? Ou se, pelo contrário, fosse ela a portadora do grande vazio. Talvez a tivessem cegado ou, naquelas últimas horas, obliterado a capacidade de ver. A atmosfera que enchia a minúscula cela da prisão de Stadelheim no distrito de Giesing estava ensombrecida, quase opaca. Além de tudo, por que lhe interessavam os perpetradores, aqueles que a capturaram como a um animal e que dali a pouco a executariam como a um inseto ou menos que isso, um nada?

E, no entanto, não. Para eles mesmos, seus carcereiros, era portadora natural de certos privilégios. Pertenciam à mesma estirpe, tinham o mesmo sangue. Por isso lhe dirigiram a palavra, ainda que para apenas transmitir o mais agudo desprezo. Enquanto caminhavam, um deles lhe havia dito:

— Agora entra, senta-se e espera. Não há com o que se preocupar, a lâmina desce rápido como um raio. Você verá.

Você verá, foi o que disseram, se referindo ao ato definitivo prestes a ser executado.

Por muito tempo esteve convencido de que os que pereceram na inominável desgraça já se tinham ido e o que, portanto, se podia fazer era prantear e rememorar, mas os perpetradores, esses continuavam vivos, gerações após gerações através dos séculos, aperfeiçoando seus métodos e vendo crescer o seu rancor.

“Era a mesma gangue que havia zombado de Cassandra em Troia e de Jeremias em Jerusalém,” escreveu o austríaco Stefan Zweig (1881-1942).

Quem poderia recriar as horas que separam a tarde da quinta-feira, 18 de fevereiro, e a noite na qual a lâmina da guilhotina foi liberada do engaste, dali a menos de 4 dias?

(A estudante de biologia e filosofia Sophie Scholl não tinha completado 22 anos de idade, quando foi presa com seu irmão Hans, dois anos mais velho que ela, ao distribuir panfletos contra o regime nazista no pátio da Universidade onde estudavam. Foram traídos pela queda de alguns desses panfletos pelas escadarias do prédio e denunciados por um bedel. Os homens da Gestapo que os retirou do edifício foram aplaudidos pelos colegas da faculdade.)

Máquina do Estado sustenta privilégios

O Estado que se ausenta e desaparece para que se movimentem livremente as forças do capital ou das grandes burocracias, se escondendo e se omitindo como se sequer existisse, torna-se gigantesco quando do que se trata é de assegurar privilégios, assim como as fronteiras e os fabulosos ganhos das corporações. A verdade é que são dois os Estados habitando um só corpo: o espaço onde existimos é uma geografia partida ao meio e soldada a fogo.

Esse mesmo Estado que deveria se mostrar forte para fazer equilibrar a balança e garantir aos fracos os mais básicos dos direitos se encolhe e se torna mínimo, volta transfigurado em Leviatã quando do que se trata é de controlar, vigiar e punir precisamente àqueles que necessitam proteção.

Dona da violência, a máquina do Estado (a representação como força instituída da consciência e do desejo das sociedades e, ao mesmo tempo, um portento semiautônomo acima delas e hostil ao seu direito de existir em liberdade) opera para que todo aquele ou aquela que for demonizado perca imediatamente o direito de existir e seja lançado  para a margem ou simplesmente eliminado.

Stálin e a ópera de Chostakóvitch

Dmítri Chostakóvitch, compositor russo, e Ióssif Stálin, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética | Fotos: Reproduções

Tanto quanto Munique em fevereiro de 1943, Moscou na noite de 26 de janeiro de 1936 ostentava uma temperatura muitos graus abaixo de zero. O gelo e a neve que cobriam a paisagem projetavam no olhar uma atmosfera onírica, para muitos, de um indescritível pesadelo. No monumental e, naquele momento, lotado Teatro Bolshoi a apresentação da ópera “Lady  MacBeth do Distrito de Mitzensk”, de Dmítri Chostakóvitch (1906-1975). Composta em 1932, estreada dois anos depois no Teatro Mikhaylovsky, em Leningrado, com enorme sucesso, repetido em seguida nos principais centros culturais da Europa, a peça foi inspirada numa novela de Nikolai Leskov (“Lady Macbeth do Distrito de Mitzensk”, Editora 34, tradução de Paulo Bezerra, 96 páginas), de 1865, e conta “a história de uma dona de casa que deixa uma fileira de cadáveres em sua trajetória”, relata Alex Ross em “O Resto é Ruído” (Companhia das Letras, 688 páginas, tradução de Claudio Carina e Ivan Weisz).

A distância entre o Kremlin e o Bolshoi costeando o rio que dá nome à cidade é de uns 3,7 quilômetros de carro. Esse é o trajeto corrente nos dias atuais. A pé dista apenas um quilômetro. Naturalmente, esse trajeto reservado aos pedestres pode ser utilizado por veículos se assim quiserem os que controlam as leis da cidade ou o poder do Estado. É assim agora, e assim era na primeira metade do século 20.

Mas a verdade é que naquela noite do inverno de 1936, ninguém saberá dizer qual terá sido o caminho tomado pelo Packard V12 que conduzia Stálin. Seja como for, o fato é que exatamente naquela noite o secretário-geral decidiu deixar seu gabinete de trabalho para ir ao teatro assistir à peça de Chostakóvitch. Porque, sim, o secretário-geral apreciava a boa música, o que fazia parte da cultura do seu povo. O secretário-geral era um homem do povo, com uma arraigada crença na mítica que formatava (para eles próprios) o mundo eslavo e o russo em particular, tanto quanto os czares, aliás. O secretário-geral era um homem genuinamente ligado às tradições da sua pátria — fosse por temperamento, hábito, conveniência, estreiteza de espírito e/ou horizontes, tudo isso ao mesmo tempo, ou fosse lá pelo que fosse. Assim, permaneceu absorto e impassível durante os três primeiros atos (leia mais adiante). Mas antes que se iniciasse a quarta e derradeira parte, abandonou o camarote de volta ao Kremlin, ou rumo a dacha de Kuntsevo, a 15 quilômetros dali — sobre isso não há registros, não ao menos que saibamos.

Sete meses depois, no começo do outono daquele mesmo ano, o secretário-geral trocou o funcionário Guerinck Grigorievitch Iagoda pelo funcionário Nikolai Iejov no comando da Secretaria de Assuntos Internos. Desde a chefia da NKVD, a partir de abril de 1938, o funcionário Iejov dirigiu aquele que ficou conhecido como o Grande Expurgo. A NKVD recebeu, então, um orçamento extraordinário de 75 milhões de rublos e a partir dali “foram atribuídas cotas de prisões e execuções para cada região e república”. Como resultado, “entre o verão de 1937 e novembro de 1938 foram detidas cerca de 1,6 milhão de pessoas e executadas umas 700 mil” (Alexandra Popoff, “Vasili Grossman y el Siglo Soviético”, Editora Crítica, 512 páginas, tradução de Gonzalo García).

A dona de casa do distrito de Mitzensk havia entrado em plena atividade, praticando com minúcia e destreza de mestre inigualável sua economia doméstica.

Nota da redação do Jornal Opção

Stálin teria mandado Jdánov atacar peça de Chostakóvitch

Trecho do livro “El Baile de Natacha — Una Historia Cultural Rusa” (Edhasa, 828 páginas, tradução de Eduardo Hojman), do historiador britânico Orlando Figes: “Em janeiro de 1936, o ‘Pravda’ publicou uma diatribe contra a ópera de Dmítri Chostakóvitch ‘Lady Macbeth do Distrito de Mitzensk’, que havia sido um grande sucesso, com centenas de apresentações tanto na União Soviética quanto no Ocidente desde sua estreia em Leningrado em1934. Era evidente que o artigo, sem assinatura, intitulado ‘Caos em vez de música’, havia sido escrito com o apoio pleno do Kremlin, e há provas que dão a entender, como já se comentava na época, que Andrei Jdánov, o chefe do Partido em Leningrado, o escreveu seguindo instruções pessoais de Stálin, que, apenas uns dias antes de sua estreia, havia visto a ópera e havia ficado muito insatisfeito” (página 572).

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