Daniel Vorcaro vai derrubar a República? Mas quais santos serão colocados no lugar dos impuros?
06 setembro 2026 às 01h00

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Os poetas dizem aquilo que, por vezes, deixa o coro dos contentes descontente ou, ao menos, desconcertado. Talvez tenha sido Brecht, talvez tenha sido outro bardo, talvez não tenha sido ninguém. Mas em algum lugar, já se fez duas perguntas que parecem retóricas: é possível trocar o povo? é possível trocar os eleitores? Não é. Nem na Noruega, na Dinamarca, na China e nos Estados Unidos. Em nenhum lugar.
Então, se não é possível trocar o povo, é possível trocar os políticos? Outra missão aparentemente impossível.
Aos fatos, diria, quem sabe, o Conselheiro Acácio ou, talvez, Fradique Mendes. Com o apoio de magistrados, procuradores e policiais — gente bem-intencionada —, a Itália praticamente devastou seu sistema político, aposentando, de vez, figuras coroadas do centro, da direita e da esquerda.

O sistema político estava corrompido, envolvido até a medula com a máfia e as máfias não oficiais.
Ao final do processo, deu ruim — ou “rúim”, como prefere o povão. De alguma maneira, Silvio Berlusconi, um político lustroso — com imagem cristalizada de empresário bem-sucedido —, é “filho” dileto da Operação Mãos Limpas. O poder caiu de mão-beijada nas mãos e bolsos do direitista, tão envolvido em maracutaias quanto a geração que o precedeu.
Jornais sérios, como O Globo, apoiaram a ditadura. Resistiram 2 jornais: Última Hora e Correio da Manhã. Resistência do Estadão é tardia e mais mito do que realidade. A imprensa é, tantas vezes, a UDN em palavras
Com a diferença, crucial, de que a geração anterior, mesmo envolvida em escândalos, tinha perfil de estadista. Silvio Berlusconi era quase um “filho menor” de Benito Mussolini, o, digamos, “Calvo”. A Itália continuou corrupta. Talvez até um pouco mais.
No Brasil, quando se desmancha um “sistema”, o que parece sorte resulta em azar.
Em 1964, “O Globo”, o “Estadão”, o “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã” clamavam pela derrubada do presidente João Goulart, o Jango. Pareciam acreditar — assim como o herói de “O Estado de S. Paulo”, Carlos Lacerda, o Corvo — que, dado o golpe de Estado, o general-presidente Castello Branco convocaria eleições presidenciais.
De novo, deu “rúim”. Os militares gostaram do poder — Henry Kissinger sugeria que era afrodisíaco e John Kennedy tinha certeza — e ficaram uma longa noite de 21 anos mandando no país. Carlos Lacerda, o demolidor de presidente, acabou cassado e, portanto, demolido… pelo general-presidente Arthur da Costa e Silva.

Os jornais continuaram apoiando (e lucrando com) a ditadura. Resistiram dois jornais: “Última Hora” e “Correio da Manhã” (aderiu à ditadura, mas logo desaderiu). A resistência do “Estadão” é tardia e mais mito do que realidade, apesar de decantada em verso em prosa pelo mesquitismo (o velho ranço udenista; é possível sugerir que a imprensa é, tantas vezes, a UDN das palavras, assim como o PT é a UDN de macacão, de acordo com Brizola).
Eis que surge a Nova República. Mas deu “ruim” quando Tancredo Neves morreu e assumiu um “general-civil” da ditadura — José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, consagrado pela história como José Sarney, o imortal.
José Sarney fez um governo anódino, é certo. Mas garantiu a transição da ditadura para a democracia com, para usar uma palavra démodé, galhardia.
O entusiasmo da revista Veja era tanto que colocou Fernando Collor na capa com um título indicando adesão: O Caçador de Marajás. O povão logo reduziu sua “patente” para O Caçador de Maracujás. Mais brejeiro
Pouca gente faz questão de notar, mas não há como negar: José Sarney, adicto da ditadura até 1985, fez um governo absolutamente democrático entre 1985 e 1990. Há, claro, uma nódoa: seu governo, atendendo a Igreja Católica, censurou o filme “Je Voyus Salue, Marie” (“Eu Vos Saúdo, Maria”), do diretor de cinema franco-suíço Jean-Luc Godard. Mas, diriam Billy Wilder e Jesus, ninguém é perfeito.
Pós-Sarney, nós, verde-amarelos, iríamos para o Céu, quiçá o Nirvana. Mas, como se sabe em Alagoas, a Lei de Murphy rege o mundo, o Brasil na comissão de frente.

Nos idos de 1989, a imprensa contribuiu, com sua maneira peremptória — e udenista — de avaliar os fatos, ou quase fatos, ou até não-fatos, para a formatação do anti-Lula da Silva, que até Leonel Barbosa chamava de Sapo Barbudo.
Quando a imprensa, parte dela, sugere que Fernando Collor é uma criação de Paulo César Farias, o indefectível tesoureiro, o objetivo talvez seja elidir sua própria responsabilidade.
“O Globo” e o venerável “Estadão”, a prova de que o moralismo da UDN persiste, se entusiasmaram com o político “muderno” das Alagoas — esquecendo-se que tão moderno quanto eterno era outro alagoano, Graciliano Ramos, o autor de “Vidas Secas”, o mais importante romance da literatura patropi.
O entusiasmo da revista “Veja” era tanto que colocou Fernando Collor na capa com um título indicando adesão: “O Caçador de Marajás”. O povão, tão irônico quando H. L. Mencken, o do formidável “O Livro dos Insultos”, logo reduziu sua “patente” para “O Caçador de Maracujás”. Mais brejeiro, pois não.
Fernando Collor é a prova de que a Lei de Murphy é mais efetiva das “jurisprudências” tropiniquins. Depois de seu não-governo — a única coisa séria que disse é que os automóveis fabricados no Brasil eram “carroças” (uma ofensa a elas e aos cavalos) —, José Sarney virou Abraham Lincoln e Itamar Franco, o sucessor, se tornou o Winston Churchill dos trópicos.
Deixando o pão de queijo de lado — uma coisa meio, por assim dizer, “integralista” (biografia escrita por Karla Monteiro informa que Leonel Brizola aliou-se aos integralistas nas disputas políticas no Rio Grande do Sul) —, Itamar Franco optou pela turma do “francês” Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda que entendia muito de sociologia e quase nada de economia. Mas cercou-se de uma turma que comia e bebia números: Pedro Malan, Gustavo Franco, Pérsio Arida e, entre outros, Edmar Bacha.
Como Bolsonaro havia se tornado o caos, as elites se uniram para arrancá-lo do poder. Como não se inventa um político eleitoralmente forte de uma hora para outra, buscaram Lula da Silva para salvar o país
O Plano Real recuperou a economia do país, com o consequente reordenamento do Estado, que passou a custar menos, e se tornou um general eleitoral da socialdemocracia.
Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que era ruim de voto — perdeu até a Prefeitura de São Paulo para Jânio Quadros —, foi eleito e reeleito presidente da República. Ficou oito anos no poder. A esquerda inventou que era “neoliberal” para queimá-lo politicamente. É socialdemocrata, assim como Leonel Brizola, do PDT, e Lula da Silva, do PT.

FHC não conseguiu fazer o sucessor — todos os seus candidatos, José Serra (um poço de mau humor, diz as línguas, as boas e as más), Geraldo Alckmin (é uma ofensa ao legume chamá-lo de picolé de chuchu) e Aécio Neves (que andou envergonhando a história do avô, Tancredo Neves), perderam para Lula da Silva e Dilma Rousseff (PT).
Lula da Silva fez um primeiro governo bom (responsável), surfando na onda do sucesso e da estabilidade do Plano Real, o segundo mais ou menos e o terceiro é razoável (o forte são o investimento no social e a manutenção da democracia). Dilma Rousseff talvez não tenha sido tão ruim quanto a imagem cristalizada. Mas faltou espírito de estadista à ex-presidente. Caiu, por sinal, por falta de maturidade política. Agiu como uma espécie de Jango de tailleur.
Depois de Dilma Rousseff, assumiu o novo Itamar Franco, o pomposo e bacharelesco Michel Temer. Não deixou a peteca cair. Só os versos. O causídico é bardo.
Aí, como se sabe lá em Glicério, as coisas desandaram com a chegada ao poder de Jair Bolsonaro — o primeiro presidente da República efetivamente egresso do baixo clero.
Mas quanto Daniel Vorcaro gastou com jornais, emissoras de televisão e sites? Quem realmente faturou alto, durante alguns anos, com parcerias com o banqueiro? Só políticos e magistrados se envolveram com o Rei do Crime?
Jair Bolsonaro não é estadista, talvez nem saiba o que é isto — assim como não sabe Flávio Bolsonaro (a diferença entre os dois é que o primeiro toma cachaça e o segundo vinho).
O saldo do governo de Jair Bolsonaro é negativo: além do baixo crescimento econômico e da expansão da miséria, morreram mais de 700 mil pessoas em consequência da Covid. Se medidas tivessem sido tomadas mais cedo, talvez teria morrido bem menos.

O governo ruim de Jair Bolsonaro, o do carnaval dos mortos, gestou um pacto que resultou na volta de Lula da Silva à Presidência da República.
Como a Operação Lava Jato soçobrou, fica-se com a impressão de que não furtaram dinheiro público nos governos do PT. Furtaram. É fato. Por mais que a “turma” do ex-magistrado Sergio Fernando Moro tenha excedido, e ainda que seus objetivos fossem políticos — no nascedouro talvez não fossem —, havia corrupção no governo petista… e era gigantesca.
Para permanecer no poder, o petismo negociou com os veteranos assaltantes do Erário — muito deles do Centrão, mas não todos. No meio caminho, conspurcou-se.
Entretanto, como Jair Bolsonaro havia se tornado o retrato do caos — brigando com todo mundo, da imprensa ao Poder Judiciário —, as elites se uniram para arrancá-lo do poder. Como não se “inventa” um político eleitoralmente forte de uma hora para outra — o líder da direita é uma exceção —, buscaram Lula da Silva para “salvar” o país.

Jair Bolsonaro queria “ditadura”, mas, fora os aloprados de sempre, ninguém queria o mesmo. Daí a recuperação da imagem de Lula da Silva, articulada por muitos, até, quiçá sobretudo, pela imprensa. Figuras de proa do Judiciário participaram da articulação.
Como não aprovar o “quase-legal” se o bolsonarismo, com Jair Bolsonaro, era mesmo muito ruim, praticamente inominável?
O roubo cessou na República? A tese que defendo é que o roubo nunca acabará, mas, quem sabe, poderá diminuir. Os nostálgicos falam num passado “honesto”. Talvez não fosse. Mas as denúncias eram mais escassas.
Os casos do INSS — o Careca parece que é mui amigo de Lulinha da Silva e da lobista que o patrocina — e do Banco Master, de Daniel Vorcaro, o porta-voz do caos, revelam que a Lei de Murphy persiste. Pouco mudou de Fernando Collor, o de 1989, para cá. Rouba-se com uma eficácia e volúpia que assusta até quem não é moralista.

A esquerda rouba. A direita rouba. O centro rouba. Poucos não roubam. Ministros do Supremo Tribunal Federal, como Dias Toffoli, André Mendonça (que derrotar Lula da Silva) e Alexandre de Moraes (quer derrotar Flávio Bolsonaro), estão direta ou indiretamente “envolvidos” com Daniel Vorcaro. Não se está insinuando que “roubaram”. Mas ao menos o tráfico de influência parece evidente. As “amizades” e os “contatos” são altamente suspeitos.
Os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, também tinham ligação com Daniel Vorcaro. Os senadores Ciro Nogueira, do pP, Jaques Wagner, do PT, se beneficiaram de “negócios” com o dono do Banco Master. Flávio Bolsonaro era “amigão” do peito do banqueiro Robin Hood dos ricos e poderosos. O dinheiro que o banqueiro “doou” para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, era mesmo privado? Tudo indica que, no caso, “privado” e “público” são uma coisa só.
O que fazer? Arrancar todos do poder, “aposentando-os”? Mas quem será colocado no lugar dos impuros? Quais santos vão substitui-los? Augusto Cury, cujo pântano começa a aparecer, poderá “substituir” Lula da Silva e Flávio Bolsonaro?
No caso do Banco Master falta um capítulo sobre a mídia. Aqui e ali, cita-se um jornal, até dois, e alguns influenciadores.

Mas quanto Daniel Vorcaro realmente gastou com jornais, emissoras de televisão e sites? Quem realmente faturou alto, durante alguns anos, com parcerias com o banqueiro? Só políticos e magistrados se envolveram com o Rei do Crime?
Os santos udenistas do jornalismo são mesmo santos? A excelente Malu Gaspar, de “O Globo”, não sucumbiu às verdinhas de Daniel Vorcaro. Quem mais?
O que se escreveu acima é uma peça de humor? Talvez. O mais certo é que seja uma peça cética a respeito da pureza dos que se apresentam como os puros da aldeia. O discurso moralista às vezes pode ser um tiro no pé de que o faz.
Por fim, uma sociedade, sobretudo na democracia, nunca se reforma por inteiro. Precisa de tempo para mudar de verdade. Reformas rápidas podem ser enganadoras, mas não se enraízam. Soluções mágicas não funcionam. São, no geral, irrealistas.


