A TV Globo decidiu entrevistar seis candidatos a presidente da República: Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Lula da Silva (PT), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (União Brasil).

Os seis são os mais bem colocados nas pesquisas do instituto Quaest — um dos mais qualificados do mercado.

A iniciativa da Globo é positiva e é um complemento substantivo para o programa eleitoral “gratuito”. Os candidatos têm 40 minutos para expor suas ideias e se defender de acusações.

Quarenta minutos na TV Globo, em horário dito nobre, não são pouca coisa. É um tempo extraordinário. Então, os candidatos aproveitam para estabelecer um diálogo direto, menos com os jornalistas, que parecem ficar irritados, e mais com os eleitores.

Flávio Bolsonaro com César Tralli e Renata Vasconcellos
Flávio Bolsonaro é entrevistado por César Tralli e Renata Vasconcellos | Foto: Divulgação

Os entrevistados saíram mal — uns menos e outros mais? Talvez, da perspectiva deles, tenham se saído bem. Porque deram seus recados aos eleitores. Experimentados, alguns deles, deram seus recados para o povão — e não para as plateias encarregadas de debater, como os jornalistas, que ficam iracundos.

Se os candidatos brilharam, ao seu modo — ainda que tenham decepcionado jornalistas-comentaristas —, ninguém brilhou tanto quando a apresentadora Renata Vasconcellos.

Renata Vasconcellos fez questionamentos fortes, a todos os candidatos a presidente da República, mas sem elevar a voz, sem gritar nenhuma vez. Parece a calma em pessoa ao se tornar a voz das ruas

Aquela jornalista docinho de coco, de voz fofa e sorriso cativante, desapareceu, durante as entrevistas, e deu lugar a uma perguntadora sólida, com indagações objetivas e implacáveis.

Dado o caráter incisivo de suas perguntas, e de insistir quando percebia certa tergiversação, Renata Vasconcellos desconcertou os candidatos. Eles ficaram visivelmente incomodados com a jornalista de 54 anos e 1,71m. Ela se tornou uma “gigante” incontornável — uma montanha no meio do caminho, diria, sem a pedra, Carlos Drummond de Andrade.

Renata Vasconcellos se preparou bem para as entrevistas e suas perguntas estavam na ponta da língua, para além do computador à sua frente. Mostrou competência, coragem e precisão.

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Ronaldo Caiado entrevistado por César Tralli e Renata Vasconcelos | Foto: Divulgação

Pode ter sido impressão, mas parece que seu companheiro de bancada, César Tralli — excelente jornalista —, ficou quase tão incomodado, talvez surpreso, quanto os entrevistados.

Mas o fato de que não atrapalhou o brilho solitário de Renata Vasconcellos — que falava, por assim dizer, em nome de todos os eleitores — mostra que César Tralli não é machista. Ele aceitou ficar em segundo plano numa boa. Parecia fora do lugar, ao perder o protagonismo, mas não pressionou para obter mais espaço. Aceitou a presença vibrante e atenta de sua colega. É um avanço. Provou que é democrático e moderno.

É provável que, ante o costumeiro modo afável de Renata Vasconcellos, a jornalista tenha surpreendido até seus editores na Globo. O que deve surpreendido não foi o fato de ser bem informada, e expor suas ideias com o máximo de clareza, retirando os entrevistados da zona de conforto, e sim sua ação incisiva, enérgica. Sua desenvoltura é parecida com a da magnífica Renata Lo Prete.

Renata Vasconcellos fez questionamentos fortes, a todos os candidatos, mas sem elevar a voz, sem gritar nenhuma vez. Parece a calma em pessoa ao se tornar a voz das ruas.

A ressalta que faço é que a Globo parece que não está entrevistando candidatos, e sim ministros da Fazenda e do Planejamento. Exige que, num tempo relativamente curto — ainda que 40 minutos sejam, em termos de televisão, uma eternidade —, o postulante à Presidência dê respostas precisas e amplas sobre variados assuntos. Isto é impossível. Por isso, os candidatos preferem apresentar algumas ideias básicas, do seu ideário político-administrativo, a explicar, de maneira detalhada, o que pensam sobre reforma tributária e a relação entre dívida pública e PIB. Assuntos complexos e de difícil entendimento.