Euler de França Belém
Euler de França Belém

Críticos de cinema não percebem que o macarthismo era frango de granja perto do comunismo

untitledOs jornalistas Luiz Carlos Merten e Luiz Danin Oricchio, do “Estadão”, são excelentes críticos de cinema. Eles amam o cinema, são dotados de paixão, mas escrevem racionalmente. No sábado, 30, escreveram sobre um filme e um livro a respeito do notável roteirista americano Dalton Trumbo (1905-1976). As críticas são, no geral, muito bem feitas e convidam a ver o filme e a ler o livro. Mas falta nuance e história. O macarthismo é apresentado como um dos maiores constrangimentos da história americana — ignorando-se, por certo, a Guerra Civil Americana, que matou mais de meio milhão de pessoas, a corrupção política dos Estados Unidos no século 19, o racismo exacerbado, o assassinato de Luther King e dos irmãos John e Bob Kennedy, a ação quase livre da Máfia em vários Estados do país e o Caso Watergate. O macarthismo tinha um quê de histeria, perseguiu diretores, atores e roteiristas de cinema, mas, comparado com o comunismo — que matou mais de 100 milhões de pessoas no século 20 —, é frango de granja. Ao defender os perseguidos de Hollywood, como o esquerdista Dalton Trumbo, não se leva em conta que o comunismo era pior do que o macarthismo. Não dá nem para comparar. Os textos sequer relatam que comunistas americanos (e soviéticos infiltrados) roubaram o segredo da bomba atômica do governo dos Estados Unidos e, a partir dos dados obtidos, puderam construir sua própria bomba atômica. O macarthismo era mais uma reação do que uma ação e provocou menos danos à liberdade de expressão — e não gerou mortes em série — do que se imagina.

Será que os críticos de cinema acreditam que, se vivesse na União Soviética de Stálin, Dalton Trumbo poderia ter escrito roteiros com pseudônimos ou assinados por outros colegas? Lá, não teria continuado a viver na mesma cidade, livre, leve e solto. Teria sido enviado para a Sibéria ou teria sido fuzilado.

Na democracia, embora tenha sido perseguido, pôde contestar o sistema e, em seguida, voltar a trabalhar livremente. Como comunista, e sabendo o que os comunistas estavam fazendo na União Soviética e na China — prendendo, matando, perseguindo, tomando empregos de maneira incontornável —, Dalton Trumbo não deve ser tratado como “vítima”. Ele sabia o que estava fazendo, ao ser um agente comunista — ainda que meio festivo —, e o senador Joseph McCarthy também sabia o que estava fazendo ao contribuir para reduzir sua força no establishment de Hollywood.

“Trumbo — A Vida do Roteirista Ganhador do Oscar Que Derrubou a Lista Negra de Hollywood” (Intrínseca, 384 páginas, tradução de Catharina Pinheiro), de Bruce Cook, parece ser um livro extraordinário. O título, se é que é de sua autoria, contém certo ufanismo. “Trumbo — Lista Negra”, filme de Jay Roach, tem sido incensado pela crítica patropi e internacional. Conta a história do roteirista.

Respeitado como roteirista, Dalton Trumbo dirigiu o filme antibelicista “Johnny Vai à Guerra”. Um filme de qualidade.

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