Centro vira cabo eleitoral de Lula ao se afastar de Flávio e não apostar em Caiado ou Zema?
01 agosto 2026 às 21h00

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Minas Gerais é o Estado que forneceu ao Brasil seu maior político de centro — Tancredo Neves (1910-1985).
Mineiro de São João Del-Rey, Tancredo Neves era um político moderado e articulador de primeira linha. Dizem que ficava rouco de tanto ouvir.
Sua trajetória política é uma das mais bem-sucedidas do país.
No governo de Getúlio Vargas, foi ministro da Justiça. Em 1961, no parlamentarismo, foi primeiro-ministro. Dada sua moderação, se o sistema parlamentarista tivesse sido mantido, dificilmente teria ocorrido o golpe de Estado de 1964 (às vezes, a ucronia é necessária).
Depois, Tancredo Neves foi senador e governador de Minas. Em 1985, foi eleito presidente da República, no Colégio Eleitoral.
A ditadura civil-militar, que vicejou de 1964 a 1985, começou com um mineiro, Magalhães Pinto, e terminou com outro mineiro, Tancredo Neves.
Na política do país, tudo, ou quase tudo, começa em Minas (desde pelo menos a Revolução de 1930. Sem contar a Inconfidência Mineira).

Noutras palavras, é pelo centro político — em que Minas é expert — que as coisas se revolvem no país. Mesmo quando o presidente eleito não é de centro, sem o centro ele não consegue governar satisfatoriamente.
O centro, ao fugir de Flávio Bolsonaro, está mandando um recado: não é neutro. Porque abandonar o candidato do PL, e não apoiar outro candidato da centro-direita, como Caiado ou Zema, é, indiretamente, se posicionar ao lado de Lula da Silva. Se não quiser realmente “apoiar” o candidato do PT, o centro, mesmo longe de Flávio, terá de apostar em Caiado, Zema ou Renan. Com a dita neutralidade, está, por vias indiretas, no palanque do petista-chefe
Lula da Silva é de esquerda, mas governa com parte do centro e até da direita (União Brasil). Jair Bolsonaro é de direita, mas geriu com o centro. (Por sinal, o centro é maior do que o Centrão, sua, digamos, “facção” mais poderosa.)
Antes de Lula da Silva e de Jair Bolsonaro, Fernando Henrique Cardoso conseguiu governar, de maneira satisfatória, quando migrou da esquerda para o centro. Aos poucos, tornou-se um político de centro-esquerda.
Portanto, o que a história diz é que não se pode perder o apoio do centro. Porque quem perde o apoio do centro não governa e, por vezes, não ganha eleição.
Neutralidade do centro é aposta em Lula?
A imprensa costuma tratar o centro, por causa do Centrão, meramente como um grupo fisiológico. Não o é. O centro, que simboliza mais do que corrupção, é o ponto de equilíbrio do governo, do Congresso, da democracia. Tanto que, mesmo aliado de Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022, não se empolgou com o golpismo dos bolsonaristas.

O centro é mais do que o pP de Ciro Nogueira e Arthur Lira e o União Brasil de Antônio Rueda e Davi Alcolumbre. Como se disse, o centro é maior do que o Centrão — sua face mais visível e, portanto, mais poderosa.
No momento, o centro (pP + União Brasil) está dizendo aos eleitores do país que não vai embarcar na “aventura” do candidato do PL a presidente da República, Flávio Bolsonaro — que está derretendo feito sorvete em dia de muito calor.
O centro tem “faro”, no sentido de expertise política. Por isso, está saindo das proximidades de Flávio Bolsonaro, para não se contaminar. Parece que percebe o filho de Jair Bolsonaro como radioativo. Ele pode ter se tornado um ímã para derrotas.
O centro não apenas está abandonando Flávio Bolsonaro. Está dizendo, ao se afastar, que o cheiro de derrota está no ar e cada vez mais forte.
Comenta-se, na imprensa, que o centro aderiu à “neutralidade”. Mas não é bem assim. Há uma faceta não inteiramente visível, à primeira vista.

Na verdade, ao não apoiar Flávio Bolsonaro — sugerindo que seus integrantes apoiem quem quiser —, o centro está se posicionando.
Se o centro não quer Flávio Bolsonaro, isto significa que quer o presidente Lula da Silva, o candidato do PT à reeleição? Não é bem assim.
O centro, no fundo, não quer os dois (sua primeira opção era Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, que optou pela reeleição). Mas não está abandonando Lula da Silva. Está abandonando, isto sim, Flávio Bolsonaro — o que enfraquece o já enfraquecido postulante do PL.
Então, ao não se posicionar ao lado de Flávio Bolsonaro, o centro está indicando que não é possível derrotar Lula da Silva?

(Outro político, como Ronaldo Caiado, pode conquistar o centro? Pode. Mas vale ressalvar que, dado seu pragmatismo absoluto, o centro vai, antes de qualquer apoio, ficar de olho nas pesquisas de intenção de voto. Não há a menor dúvida de que o goiano é melhor candidato do que o postulante do PL. Tem perfil de estadista e, como governador, mostrou ser um gestor comprovadamente eficiente. Pode absorver o centro, mas precisa ter números mais altos nos levantamentos dos institutos de pesquisa.)
O centro, ao fugir de Flávio Bolsonaro, está mandando um recado: não é neutro. Porque abandonar o candidato do PL, e não apoiar outro candidato da direita, ou da centro-direita, como Ronaldo Caiado ou Romeu Zema, é, indiretamente, se posicionar ao lado de Lula da Silva.
Se não quiser realmente “apoiar” Lula da Silva, o centro, mesmo longe de Flávio Bolsonaro, terá de apoiar Ronaldo Caiado, Romeu Zema ou Renan Santos. No momento, com a dita “neutralidade”, está, por vias indiretas, no palanque do petista-chefe. É a realidade.


